Por bferreira

Rio - A fotografia original, um 3 x 4 em branco e preto, traz os cabelos desgrenhados e a expressão cansada por trás dos óculos de aros grossos, as olheiras como testemunhas silenciosas de prisão e tortura aos 22 anos. Que a democracia pediria passagem já se esperava, ou sonhava, mas militante algum poderia imaginar que a imagem, colada em ficha policial no período sombrio, acabaria estilizada nas cores da bandeira, compartilhada como símbolo e avatar de milhões de ‘Dilmas’, homens e mulheres que ainda curtem a doce ressaca da vitória.

O premiado ilustrador Sattu Rodrigues é o responsável pela imagem de Dilma com o vermelho ao fundo Reprodução

Na atualização colorida da foto histórica — caso que também começou em ataque à presidenta —, o olhar é determinado e o temor do passado sucumbe às batidas do ‘Coração Valente’ que norteou a campanha, incorporado pela candidata na batalha ‘épica’ em dois turnos.

O novo símbolo da vitória tem origem curiosa, como se tudo já estivesse escrito nas estrelas vermelhas do partido. No campanha presidencial de 2010, a revista Época produziu reportagem para minar a candidatura de Dilma, investigando seu passado para retratá-la como terrorista. A foto original estampava a capa, e no interior uma reprodução do premiado ilustrador Sattu Rodrigues carregava no vermelho, remetendo a antigos cartazes comunistas.

O contra-ataque veio imediato pela internet. O desenho foi comparado ao do grafiteiro norte-americano Shepard Fairey, da famosa imagem de Barack Obama com a palavra “Hope” (Esperança), assim como os painéis de Andy Warhol sobre o líder chinês Mao Tsé-Tung. Como Che Guevara, Dilma acabou na camiseta.

A bandida se transformou em heroína, assim como o guerreiro libertador vivido no cinema por Mel Gibson, referência pop de um ‘Coração Valente’ brasileiro que encontrou no baião nordestino sua trilha sonora: “Nunca vacilou em lutar em favor da gente...”.

Não teve queda de pressão após debate, ataques da oposição, ou capa de revista adversária distribuída como panfleto que impedisse Dilma de mostrar sua cara. E o direito de resposta veio nas urnas.

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