Por nicolas.satriano

Caxambu (Minas Gerais) - Ao analisar os dados da votação presidencial de 2014 e de maneira retrospectiva até 1994, pesquisadores reunidos no encontro anual da Associação Nacional de Pós-Graduação e Pesquisa em Ciências Sociais (Anpocs) em Caxambu, no interior de Minas Gerais, apontaram, em debate nesta segunda-feira, que a divisão territorial dos votos pode ser explicada pelas estratégias nacionais de apoio adotadas por PT e PSDB ao longo desses 20 anos e também pela incidência de políticas públicas praticadas pelos dois partidos durante seus respectivos períodos no comando da presidência da República. Para eles, não se pode falar em divisão geográfica do país já que ambos os candidatos tiveram votações expressivas em municípios desses estados ao longo desses 20 anos, o que diminuiu em 2014 foi a proporção em alguns locais.

Para a Sonia Terron, pesquisadora da Associação Latino-americana de Ciência Politica, uma observação atenta nos votos por municípios permitiu perceber que já no primeiro turno. Dilma tinha um alcance maior por todo o país. "Em termos de distribuição de votos, ela consegue quase 48% de média dos municípios, maior que o Aécio que chega a 30%. A divisão de Marina era toda assimétrica. Ela tem uma distribuição completamente diferente", explicou Terron.

INP%3A Índice de Nacionalização Partidária - Distribuição de representações do partido pelo país Professor André Borges%2C Universidade de Brasília

Para a pesquisadora, a atual configuração da distribuição começa a ser explicada a partir de 2006 quando há uma mudança decisiva do eleitor de baixa renda em favor do PT. "Desde a ditadura as regiões mais pobres tinham tendência de votar em candidatos da centro-direita e as regiões mais ricas no partido menos conservador. Isso continua na redemocratização", explica ela. A chegada do PT à presidência só ocorre quando ele deixa de ter votações tão regionais, como nos pleitos de 2000 e 2002. Mas a adesão do nordeste aos petistas ocorre apenas em 2006. "Foi a primeira vez que o nordeste vota em coesão e esse padrão se repete", explica Terron. A explicação para a mudança tem relação com o impacto causado pelo crescimento da renda e das economias regionais devido ao programa Bolsa Família.

INP%3A Índice de Nacionalização Partidária - Distribuição de representações do partido pelo paísProfessor André Borges%2C Universidade de Brasília

O pesquisador André Borges, da Universidade de Brasília, acredita que esse fenômeno acontece por uma aprovação das ações sociais e o alcance que o partido conquistou nas últimas duas décadas. O PT implantou uma série de políticas públicas e não só o Bolsa Família, mas a política do salário mínimo. O Ipea chama de ‘um crescimento pró-pobre,’ que faz com que a renda dos mais pobres cresça mais rápido que a dos mais ricos”, aponta Borges. Essa melhora reflete-se regionalmente, já que as regiões do país tem desenvolvimento desigual. “É óbvio que na região nordeste independente de qualquer outro fator, o simples fato da economia crescer mais rápido vai fazer a população ser mais pró-governo e isso junta com uma coisa interessante, lá atrás, no governo do PSDB, você teve políticas públicas que favoreceram o centro-oeste-sudeste e o que acontece? Essa polarização acaba encontrando um reflexo no território também”, afirma Borges.

Essa grande adesão do nordeste e mesmo das classes médias baixas às atuais políticas sociais do governo, no entanto, pode ter um prazo limitado. André Borges avalia que a medida que a ascensão social vai ocorrendo outras necessidades e demandas também surgem. “Isso tem um limite e vai pode chegar a um jogo de soma zero, onde o ganha de um (pobre) pode ser a perda de outro (rico). Eventualmente podemos chegar nessa situação onde os muito pobres serão uma base sólida do PT e a classe média alta do PSDB e a classe C dividida”, observa, ao explicar que o grupo emergente se tornará o fiel da balança. “Mas você pode ter outras demandas e aquelas que o PT fez lá atrás não resolvem mais o problema”, afirma.

INP%3A Índice de Nacionalização Partidária - Distribuição de representações do partido pelo paísProfessor André Borges%2C Universidade de Brasília

Os dois pesquisadores também avaliam que a candidatura de Marina Silva (PSB) não conseguiu se consolidar como uma terceira via com chances de vitória pela pouca estrutura partidária. Se você não tem alguém lá nos municípios para distribuir santinho para saber o número do candidato ou mesmo para disputar o indeciso que vai optar em cima da hora, fica difícil. O que aconteceu foi que cresceu o partido que tinha mais estrutura, que era o PSDB”, diz Borges. Numa tendência que, segundo ele, por enquanto parece continuar. “Ao longo do tempo se reproduz cada vez mais a polarização em níveis estaduais de PT e PSDB. Já os outros partidos acabam atuando como linhas auxiliares”, finaliza.

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