Presidente do PT no Rio admite fragilidade na disputa para eleição municipal

Washington Quaquá reconheceu que campanha para governador errou ao apostar na divisão geográfica. "Se fôssemos vitoriosos, teríamos candidato a prefeito"

Por O Dia

Rio - Com mandato para comandar os rumos do PT do Rio até 2017, Washington Quaquá admite que o partido saiu em situação de fragilidade da última eleição — o senador Lindberg Farias amargou o quarto lugar, mais próximo do quinto colocado, Tarcísio Motta (Psol), do que do terceiro, Anthony Garotinho (PR). “Se fôssemos vitoriosos, teríamos candidato a prefeito.”

Em entrevista ao DIA, Quaquá reconhece que a campanha errou ao apostar na divisão geográfica, entre Zona Sul e Baixada Fluminense, em vez de focar no discurso sobre a divisão de classes. Também afirmou que o PT fará oposição ao governador reeleito Luiz Fernando Pezão.

O DIA: O PT queria ganhar eleição se dizendo inimigo do candidato de um governo do qual foi integrante por sete anos.Não era uma receita fadada ao fracasso?

WASHINGTON QUAQUÁ: Acho que não. O Lindberg (Farias) cumpriu o papel de tirar o PT da órbita do PMDB, a quem esteve de joelhos, na última década. Ter tido candidato recolocou a esquerda na disputa eleitoral. Houve insucessos? Houve. Em parte por erro da própria campanha. Lindberg deveria ter ido para a Zona Sul desde o início, reafirmar o discurso de esquerda. Ter dividido o Rio geograficamente entre Zona Sul versus o resto do estado foi outro erro. Deveria, isto sim, ter usado o discurso de classe.

Mas a maioria dos deputados do PT é simpática ao governo Pezão. Há ainda a aliança com governo do Eduardo Paes que é do PMDB. Não acabou, assim, o projeto de tirar o PT da órbita do PMDB?

A deputada mais votada do PT, a Zeidan (mulher de Quaquá), não apoia a volta do partido ao governo. A maioria do PT no estado não apoia voltar para o governo Pezão. Então, o fato de um ou outro deputado discordar não diz muito. A bancada não manda no partido e seguirá a orientação partidária.

Washington Quaquá admite partida saiu em situação de fragilidade após eleições para governadorPaulo Araújo / Agência O Dia

Mas se não seguiu nem a de apoiar o candidato do partido para governador...

Se o PT decidir que não vai entrar para o governo do Pezão, nenhum petista entrará.

O sr. falou em romper com o Pezão, que é do PMDB, mas não fala em romper com o Paes, que também é do PMDB. O eleitor vai entender, em 2016?

A discussão para a eleição de 2016 não está acabada ainda. É preciso ver quem será o candidato do Eduardo Paes para prefeito. Paes é uma coisa — ele apoiou a Dilma. (Jorge) Picciani e (Sergio) Cabral são outra coisa — eles apoiaram Aécio. É preciso saber: o prefeito vai continuar no PMDB?

Ele vai para o PT, então?

Nunca manifestou interesse. É uma pessoa que tem boa relação conosco, embora tenha passagens pelo DEM, pelo PSDB e origem no brizolismo. O Cid Gomes (governador do Ceará) já disse que vai tentar criar um novo partido, unindo PCdoB, PDT e Pros. Este pode ser um caminho que possibilite a reorganização do jogo político. Eduardo Paes vai continuar no PMDB? Eu digo claramente que se continuar o caminho do PT é construir uma frente de esquerda.

E se ele for para o PT, as portas do partido estariam abertas?

Se o Eduardo solicitasse a entrada no PT seria preciso discutir marcas que estabelecessem a presença do partido no governo dele. Agora, nós fomos derrotados nas últimas eleições. Estamos sem candidatos. Se fôssemos vitoriosos, teríamos candidato a prefeito. Se o Lindberg tivesse ao menos ido para o segundo turno, seria naturalmente candidato a prefeito. Mas estamos fragilizados para a eleição municipal. Estamos nos reconstruindo. Apoiar o candidato do prefeito só é uma possibilidade se houver rearranjo político. Se o candidato do Paes continuar no PMDB não vejo a menor possibilidade de ter o nosso apoio. Nós estamos numa entressafra de lideranças políticas.

Ninguém tem densidade eleitoral hoje no PT?

Infelizmente, ninguém. A vida é dura, não é fácil. Nós estamos nos reconstruindo.

O PT apoiaria o Crivella para a prefeitura, então?

Acho que não. Ele foi um apoio de segundo turno.

E Marcelo Freixo?

Eles (do Psol) tiveram postura estudantil. Eu declarei que o PT poderia apoiá-los e disseram que deveríamos ‘nos banhar antes no Rio Jordão’ (uma espécie de purificação). Ninguém quer aliança onde se trata aliados desta forma. Há a possibilidade, mas eles precisam ser educados. A nossa política será criar uma frente popular de esquerda. Será fazer a reforma política e as outras, como a agrária, a urbana. A ideia é detonar uma grande mobilização de massa, a partir do Rio de Janeiro.

Como tirar do papel as reformas num Congresso resistente a reformas?

Este Congresso em que (o deputado federal) Eduardo Cunha é a figura mais proeminente não fará nenhuma mudança substantiva no Brasil. O povo reclama que quer mudanças, mas elege um Congresso patrimonialista.

É o Congresso que temos.

Por isto que eu defendo que a reforma política seja feita por uma constituinte exclusiva. Já estamos coletando assinaturas para isso.

Mas por que o sr. acha que a reforma política mudaria o perfil dos eleitos?

Porque se institui o financiamento público, que é essencial para diminuir a corrupção eleitoral. Hoje o voto é no indivíduo, e o deputado, para se eleger, tem que mobilizar milhões estabelecendo relações com o empresariado. Empresário não dá dinheiro pelos belos olhos dos candidatos. Ele doa pelo que espera retirar do poder público. Com financiamento público, não dá para ter candidatura individual. Tem que ser por lista partidária. O fim das coligações também é importante para diminuir o número de partidos. Este tripé é fundamental para moralizar o sistema político.

O que faz o sr. achar que financiamento público será aprovado?

As ruas. Botando um milhão de pessoas nas ruas.

Não há pesquisa que mostre que o povo aprova o financiamento público.

Mas tem que abrir espaço para a sociedade debater.

O PT será oposição na Alerj?

A direção estadual vai aprovar a não participação no governo Pezão. Significa que o PT será um partido de oposição. A bancada será orientada e não participará.

Vai sair o bloco de oposição ao Picciani na disputa pela Presidência da Alerj?

A ideia é construir a candidatura alternativa. Precisamos de 12 deputados para formar a chapa. A Clarissa (Garotinho) me mostrou documento assinado pelos sete deputados do PR com essa disposição. Precisamos ver se o Psol, que se diz tão independente, vem nessa.

A Assembleia tem 70 deputados. Vocês estão com dificuldade de achar 12?

Teoricamente não. Precisamos saber o que quer o Psol.

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