Rio - O melhor ponta-direita do Brasil é o Gil, é o Gil! A rima simples, cantada em verso e prosa pelos torcedores de Fluminense e Botafogo, nos anos 70, fez justiça ao carismático camisa 7, que marcou época por ter um estilo único: uma mistura de força, explosão e velocidade, que, aliada ao potente chute e à personalidade, lhe rendeu o apelido de Búfalo.
“Eu era um bom jogador, mas nunca fui craque. Fazia gols, era brigador, valente e dava porrada nos caras. Era difícil me parar, porque sempre fui muito forte. Por isso ganhei o apelido de Búfalo”, diz, orgulhoso, o ex-ponta-direita que virou treinador e hoje espera por um convite para voltar à ativa.
“Estou há um ano desempregado, porque nunca tive empresário. A pior coisa para o ex-atleta e treinador é ficar a mercê do que está acontecendo. Vejo até jogos das séries C e D, porque amanhã pode aparecer um convite e preciso estar atualizado”, afirma.
No ano passado, Gil comandou o Al Taawon, da Arábia Saudita, onde ficou por uma temporada. Antes disso, trabalhou no Avaí, Sport, Fortaleza, Alianza, do Peru.
Foi no comando do Botafogo que o treinador viveu o seu maior trauma. A perda do Campeonato Brasileiro de 1992, para o Flamengo, dói até hoje. Por ter a melhor campanha, o Alvinegro jogava por dois empates na final, mas foi surpreendido no primeiro jogo ao levar três gols em apenas 23 minutos. Na segundo partida, o arquirrival garantiu o título com um empate em 2 a 2.
“Não tenho como provar, mas dizem que o Flamengo comprou quatro jogadores nossos. Quem ver os gols vai ver que teve sacanagem. Eu fiquei uma semana sem dormir”, relembra Gil, que ficou sabendo da história um mês depois. “ Uma pessoa ligada a mim do Flamengo me contou da compra”, revela.
Para perplexidade do treinador, a história não teria parado por aí. “Perguntei quem eram, mas ele disse que jamais contaria. E me falou que um dia poderia me mostrar o papel provando que os jogadores assinaram o que receberam. Não sei se falou para me sacanear ou não, mas toda vez que vejo os gols”...
Título brasileiro escapou por duas vezes
Uma das maiores frustrações da carreira de Búfalo Gil foi não ter conquistado o Campeonato Brasileiro nos tempos em que fazia parte da Máquina Tricolor.
“Fui bicampeão carioca em 75 e 76, mas perdemos praticamente dois Brasileiros (em 75, o Flu ficou em 3º lugar e, em 76, em 4º). Foi uma tristeza um time tão bom não ter ganhado”.
Uma das jogadas mortais da Máquina eram os lançamentos de 50 metros de Rivellino para Gil. Mesmo fazendo uma dupla e tanto, eles discutiam no vestiário:
“Teve um jogo em que o Riva andava em campo porque não recebeu um dinheiro do clube. Nos reunimos com o técnico e o sacamos do time. Naquela época, todo mundo tinha que correr”.
Com a missão de dobrar Renato Gaúcho
Para se firmar como treinador, Búfalo Gil teve que usar toda a sua experiência de boleiro. No Botafogo, ele sofreu para ganhar o respeito de Renato Gaúcho, em 1992.
“Olha aí, treinador que nunca jogou bola”, provocou Renato, na concentração, sem saber que o técnico já havia jogado na Seleção.
Gil respondeu na lata: “ Como é que é? Joguei no Flu, no Botafogo e disputei uma Copa do Mundo”. Sem jeito, Renato perguntou: “Você é o Búfalo?”. No que Gil respondeu. “Sou eu mesmo e joguei muito mais do que você”.