Por rafael.arantes

Rio - Pai de família devotado, brasileiro que emergiu em meio a dificuldades para se transformar no maior nome do esporte na atualidade e ídolo que marcou uma geração. Anderson Silva, 38 anos, fala ao DIA com propriedade do momento conturbado vivido pelo país e da carência de grandes exemplos em quem se espelhar.

O mito está ferido, foi execrado após a perda do cinturão dos médios para o americano Chris Weidman, em julho, mas fez das mazelas motivação para continuar caminhando no MMA. Refeito interiormente, ele tem revanche marcada para 28 de dezembro e decreta que o revés está no mesmo patamar que todas as vitórias conquistadas pelo Aranha.

Mesmo não estando mais no topo da divisão, é o cara a ser desafiado. Não esperem que ele peça adversários. É um herói eterno. Com o sentimento de algo ainda por fazer, apesar da rodagem, Anderson não vai pendurar as luvas antes de lutar em sua casa, a Arena Corinthians. Palavra de ídolo.

Anderson Silva analisa momento do país e da carência de exemplosDivulgação

O DIA: Faz tempo que você não sabe o que é estar no córner de desafiante. A última vez foi em 2006, quando conquistou o título dos médios contra Rich Franklin. Agora, você tem uma sensação de reinício?
Anderson: É uma sensação natural. Independentemente de estar no córner dos desafiantes ou não, é normal. O importante é ir lá e fazer meu trabalho. Eu não estou pensando em recomeço não.

Você tem uma ligação forte com os filhos e é um cara superfamília. Na opinião dos pequenos, você já teria se aposentado ou teria aceitado a revanche?
Pelos meus filhos eu não estaria aqui, já teria parado de lutar há muito tempo.

Você deixou um grande legado para o esporte e tem a chance de fazer ainda mais. Poucos lutadores perderam um título e o recuperaram logo em seguida. De todas as marcas, esperava lutar por mais essa?
Assinei contrato de dez lutas. Fiz a primeira e ainda tenho mais nove. Enquanto eu tiver forças e desejo, vou lutar. Espero que eu consiga terminar meu contrato e, se Deus quiser, com vitórias.

Você acredita que Weidman possa se transformar num ídolo depois que você se aposentar? Tem potencial e carisma para tanto?
Depende de que sentido. Dentro da luta, você pode ter vários ídolos. Mas você se transformar um ídolo fora da luta é que é mais complicado. Honestamente, não sei dizer.

Anderson Silva desaba em luta contra WeidmanDivulgação

Embora você não goste de rótulos, acha que uma vitória sobre Weidman e a retomada do cinturão o consolidarão como o maior do esporte?
Não, eu nunca me ponho nessa posição. Até porque acho que não existe o maior, é apenas uma opinião de cada um. Para mim, quem foi o maior de todos os tempos dentro do boxe foi o Muhammad Ali. Mas tivemos outros, como Mike Tyson e Roy Jones Jr. Hoje, temos o Mayweather, que é excepcional no que faz. É simplesmente fora da média e jamais perdeu. Um cara que nunca sofreu penalidades e sempre foi disparado nas pontuações. Mas ser o melhor é uma opinião.

Como você tem lidado com a cobrança dos fãs, principalmente após a derrota na última luta?
Os fãs cobram muito de todo atleta com o qual eles se identificam. Os grandes atletas sofrem cobranças e, por incrível que pareça, eu consegui quebrar um pouco essa barreira e separei o lado atleta do ídolo. Mas é normal que exista essa cobrança.

Você acha que os fãs querem ver grandes lutadores ou super-heróis indestrutíveis? Acha que isso é reflexo de uma carência de grandes nomes?
De modo geral, o povo brasileiro perdeu um pouco a fé. Com os atletas eles conseguem essa identificação, recuperam um pouco dessa fé quando veem um cara que saiu do nada, como eu. Um cara que conquistou o que conquistei e pôde dar uma educação boa para os filhos, uma vida melhor para a família através do esporte e ser um brasileiro comum como qualquer outro. Isso dá a identificação e, de certa forma, torna o atleta um herói. E eu me considero uma pessoa a qual os brasileiros se identificam.

Anderson Silva terá revanche contra WeidmanDivulgação

A revanche contra Chael Sonnen foi marcada para São Paulo, em julho de 2012, mas acabou indo para Las Vegas. Falta lutar em casa antes da aposentadoria?
Meu estádio está sendo montado. Falo meu porque se é do Corinthians é meu também. Quem sabe eu não luto lá, né? Seria fantástico poder competir em casa, com meus fãs e com meu público.

Você tem a cultura de não desafiar oponentes. Mas com tanta história no MMA e já tendo enfrentado grandes nomes, quem renderia boa luta exibição?
Eu não me coloco na posição de que gostaria de enfrentar alguém. Acho que as pessoas que têm que querer me enfrentar. Nunca fiz isso, até mesmo quando comecei a lutar. Nunca desafiei ninguém. Sempre busquei o que desejava com tranquilidade e sem muito alarde. A única pessoa que eu pedi uma oportunidade de lutar foi o Roy Jones Jr., que é um desejo desde garoto. Desde que eu o vi lutando, quero enfrentá-lo no boxe.

A derrota para Chris Weidman mudou alguma coisa em você?
A derrota foi tão importante quanto todas as vitórias que eu tive. Agora eu sou mais completo. Eu sempre lutei porque eu amo isso, nunca coloquei a fama e o dinheiro em primeiro lugar. Nas ocasiões nas quais eu perdi, não podia perder, porque eu precisava do dinheiro para sustentar minha família. Sou um atleta de alto rendimento e quero sempre vencer, mas os tempos são outros.

Colaborou: Ulisses Valentim

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