Por fabio.klotz

Rio - Bebeto é liso nas respostas, mas não passa pelo pequeno cachorro Robinho, batizado em homenagem ao jogador do Milan, que só sossega quando está no seu colo. Quando fala de política ou de Copa, tenta driblar as polêmicas, mas, quando o assunto é futebol, ele se empolga e chega a chutar o ar enquanto responde. No entanto, apenas um tema tira o seu sorriso: a passagem de Mano Menezes pelo Flamengo. O treinador mandou de volta para os juniores o filho do craque, que não descarta tentar ser presidente do clube. Decisão imperdoável para o membro do COL, político e pai.

Bebeto ficou satisfeito com a saída de Mano do FlamengoPaulo Alvadia / Agência O Dia

O DIA: Como você arruma tempo para tantas funções ao mesmo tempo?

BEBETO: Sou deputado estadual. Sempre falo que, quando tem algo importante na Assembleia Legislativa, não vou ao COL (Comitê Organizador Local da Copa). Eu e Ronaldo não ganhamos nada por isso. Não temos privilégio. Damos apenas a nossa opinião. Não tive a felicidade de jogar uma Copa do Mundo em meu país. A chance é no COL. A gente tinha um salário, mas abrimos mão para ser uma coisa voluntária. Chego em casa muito cansado, pois tenho o trabalho nas comunidades (Instituto Bola pra Frente), que faço há 12 anos, desde que comecei com o Jorginho (atual técnico da Ponte Preta).

Como você avalia o trabalho no Comitê Organizador da Copa do Mundo (COL)?

Estamos felizes. É o nome do nosso país que está em jogo. A Fifa não pediu para trazer a Copa para cá, é sempre bom frisar isso. Nós é que fomos lá e lutamos para ter os benefícios e lutar pelo legado que vai ser deixado. Queremos viver em um país maravilhoso, com saúde, educação, transporte público. Aqui o transporte é de baixa qualidade. Cito sempre a Espanha. Depois da Copa do Mundo de 1982, a Espanha virou uma potência. Depois da Copa e da Olimpíada (1992, em Barcelona), a mudança foi incrível, isso é que temos de aproveitar. A Copa está gerando empregos, várias empresas estão investindo aqui.

Os estádios, principalmente em Cuiabá e Manaus, vão virar elefantes brancos?

Tem as arquibancadas tubulares, né? Tira depois da Copa do Mundo. Mas todos os estádios serão arenas multiuso, terão hospitais, universidades. A gente fica preocupado porque é dinheiro público, é o nosso dinheiro que está sendo utilizado. Tem que ter transparência. Vou sempre exigir transparência total e absoluta.

O que ainda preocupa a Fifa e o COL sobre a Copa do Mundo?

Os estádios estão praticamente prontos. Estive em Cuiabá, Porto Alegre e só falta acabamento, bobagens. O estádio do Atlético Paranaense sofreu com uma confusão (embargo judicial das obras), mas só falta acabamento. Em dezembro, tudo será entregue e acabam todas as especulações. Aí é só testar.

Recentemente, Romário chamou você e Ronaldo de ignorantes...

Fiquei surpreso, não esperava, mas o Romário é assim, fala o que vem na cabeça. Quem tem boca fala o que quer, não é? Estou tranquilo quanto a isso. Vai ser sempre meu amigo e temos uma história linda juntos, não podemos apagar porque ele falou isso ou aquilo. Vai ver que ele foi mal-interpretado. Sempre me dei muito bem com ele. Até porque, ignorante eu não sou mesmo. Eu sou discreto, Romário é de falar. Procuro fazer o meu trabalho bem quietinho.

Como você avalia o deputado federal Romário?

Cada um faz o seu trabalho. Não sei o que ele tem feito. Eu o escuto falando, mas não sei o que ele tem feito.

Bebeto destaca o legado da Copa do MundoPaulo Alvadia / Agência O Dia

Votaria nele?

Difícil falar. As pessoas têm que avaliar bem não só a mim e ao Romário, mas os outros deputados também. Temos eleições no ano que vem e tem que ver o que cada um fez. Vou tentar ser deputado estadual de novo. Quero continuar o meu trabalho, que é feito com muita dignidade.

Qual o projeto, como deputado estadual, do qual você mais se orgulha?

Tenho trabalhos na área da educação, saúde. Agora mesmo foi aprovada a Lei Bebeto (pessoas que sofrem de neurofibromatose são tratadas a partir de agora como portadoras de necessidades especiais). Essas pessoas são excluídas socialmente. Não é contagioso, mas o aspecto pode assustar. Eles estiveram no meu gabinete e me emocionaram. Agora têm passe livre, salário mínimo nacional, remédios gratuitos. A enfermidade não tem cura, mas eles podem viver melhor. Isso já valeu os três anos de Alerj. É meu gol de placa.

Desistiu de ser treinador de futebol?

É difícil conciliar. Treinador tem que estar lá todo dia. Agora só acompanho o meu filho.

E a seleção brasileira? Está confiante no hexacampeonato mundial?

O pessoal não acreditava na Copa das Confederações, principalmente a imprensa. Sempre falam que eu sou positivo demais, mas você acha que eu conquistei tudo pensando negativamente? O Brasil, em qualquer competição, entra fortemente e cresce no decorrer. Fomos ganhando. Fui na final. Quando vi o time cantando o Hino com o público, falei para o meu filho: “Ninguém ganha da gente”. Fiquei até com falta de ar. Felipão conseguiu o entrosamento e dar motivação. Com tempo de reunir e treinar, a gente vem com tudo.

Como você está vendo o futebol carioca no Campeonato Brasileiro?

Sofrendo. Não quero ver o Vasco descer. Acho que não vai. Torço muito pelos clubes cariocas e pelo espetáculo. Gosto de um time que joga bem. Flamengo, Fluminense e Vasco vão sofrer, só o Botafogo que salva. Os três lutam pra não cair. Eu, como flamenguista, estou preocupado.

Por que a geração do Flamengo que foi campeã da Copa São Paulo de Juniores em 2011 não se firma nos profissionais?

Não sei. O clube sempre teve o slogan "craque o Flamengo faz em casa". Tem Thomás, Mattheus, Rodolfo, Fernando... ele desceram (para os juniores) com esses meninos. Qual a valorização que estão dando? Depois de um ano no profissional, chega um treinador, o Mano Menezes, que graças a Deus foi embora, e larga o Fla. O Jayme é bom treinador e tem condições de buscar esses meninos. Mas já era para ter feito. Isso desmotiva. Passei por isso, mas a época mudou. Jogava nos juniores, subia. Hoje é tudo muito rápido. Por que não a prata da casa? São o futuro do Flamengo. Meu filho está ali porque tem condições. Jogou na base das seleções sub-13, 15, 17 e 20. Ele não tem condição de jogar no time do Flamengo?

Ser filho do Bebeto atrapalha o Mattheus?

Claro. Aqui temos esse preconceito. A gente tem filho de ator, cantor, jornalista. Filho de jogador não pode vingar. Tem que acabar essa discriminação. Se ele está ali, é por mérito dele. Se está no Flamengo, tem condições. Essas coisas me revoltam.

Já pensou em ser presidente do Flamengo?

Não posso dizer que dessa água não beberei. Faço qualquer coisa pelo Flamengo. O que eu puder fazer para ajudar, eu faço. Se for com Zico, Junior... Esses caras amam o Fla, vivenciaram aquilo como jogadores. Entrava de olhos fechados.

Você foi barrado de um treino do Flamengo como disse o vice de futebol, Wallim Vasconcellos?

Nunca fui ver um treino do Mattheus. Vou aos jogos. O Wallim veio falar, mas não entendi. Ele me botou no meio da história. Colocou o Zico, foi infeliz nisso. Como se tivesse se vangloriando. Na Europa, as pessoas ririam disso. No Barcelona, fui comprar uma camisa pro meu filho, que tem coleção, o presidente soube que estava lá, mandou me chamar e me levou no campo. E eu só tinha ido comprar uma camisa. Temos que respeitar os ídolos. O Wallim só está se queimando com o torcedor.

Tem alguém no mundo de quem você não goste?

Difícil. Eu me dou bem com todo mundo. Só fiz amigos. Quem tem amigos não morre pagão. Amizade é demais.

Ainda tem dinheiro para receber como jogador?

Do Botafogo, de 1999 e 2000. Está tudo no contrato.

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