Por onde anda? O algoz de Zico, Márcio Nunes, conta suas lembranças do futebol

Ex-lateral sofre até hoje pela entrada que deu em Zico e revela uma intimidade angustiante

Por O Dia

Márcia

Rio - Pela janela quebrada, um olhar de profunda tristeza fita o que se passa lá fora. O tempo correu, mas Márcio Nunes, ex-lateral do Bangu, parece estar preso ao dia 29 de agosto de 1985. Naquela noite fatídica, ele foi rotulado para sempre por causa de uma entrada que abreviou a carreira de Zico.

Por ironia do destino, três anos depois, em um jogo contra o Vasco, sofreria a mesma dor. Na disputa de bola com o zagueiro Fernando, Márcio rompeu os ligamentos do joelho e com apenas 25 anos teve de abandonar o futebol. Passados quase 30 anos, o ex-lateral tenta exorcizar os fantasmas do passado.

“Vou ficar velhinho, de bengala, e ainda vão falar disso. Até de assassino me chamaram. Se desse soco, voadora, se fosse desleal, até aceitaria, mas não fazia isso”, defende-se Márcio, que por ironia do destino fazia parte de uma organizada do Flamengo e sempre teve Zico como ídolo. Na época, a barra ficou tão pesada, que Márcio temeu até pelo filho Mayson: “Tinha medo que lhe fizessem mal. Mas graças a Deus nada aconteceu.”

Márcio Nunes fala sobre o passado e as lembranças do futebol e o lance que marcou sua carreira. 'Me sinto injustiçado', dizAndré Mourão / Agência O Dia

Quando Márcio ficou sabendo pelo médico do Bangu que não jogaria mais, outra tragédia se abateu sobre ele: “Ali acabou tudo, desabei, chorei muito. Até hoje choro quando lembro.”

A aposentadoria precoce é apenas um capítulo de sua história de muito sofrimento. Aos 2 anos, sua mãe, Argentina, morreu. Sem saber o que se passava, Márcio brincava com outras crianças ao redor do caixão e arriscou a cantar ‘parabéns a você’ por causa das velas acesas.

Depois do enterro, o pai, Alcides, que viajava muito por ser da Marinha Mercante, não lhe deu mais atenção e o menino sensível, que tinha pavor de raios e trovões, ficou ainda mais solitário. Não fossem as irmãs, poderia ter caído na criminalidade. Mas não caiu.

Aos 14 anos trabalhava em uma estamparia em Bangu e nas horas vagas mostrava ser bom de bola nos campinhos de terra batida. Não demorou para que ingressasse na categoria de base do Bangu. Chegou a ser emprestado ao Bonsucesso, mas quando voltou não saiu mais. Márcio jogou 188 partidas pelo Bangu, conquistou a Taça Rio de 1987 e foi vice-campeão carioca e brasileiro em 1985: “Achava que ia ser campeão brasileiro, queria morrer naquele dia.”

Tentando se refazer de tantas perdas, hoje Márcio busca forças em Deus — é frequentador da Igreja Quadrangular — e no trabalho. Hoje vive como empresário e ainda recebe uma aposentadoria por invalidez: “Estou apenas começando. Trabalho com alguns garotos e espero dar uma tacada grande, em breve.” Apesar da vida sofrida, o ex-lateral não abre mão de sonhar: “Quero ver meu filho formado e ajudar as pessoas. Ensinar o que aprendi com o futebol. O que passou, passou. Tenho que olhar para frente e viver a vida, porque num piscar de olhos posso não estar mais aqui.”

Jogo fatídico marcado por provocações

O jogo que marcou para sempre a carreira de Márcio Nunes foi violento do começo ao fim. Nos dias que antecederam a partida, o supervisor do Bangu, Catuca, mandou um avião sobrevoar a Gávea com uma faixa provocando os rubro-negros. O clima esquentou quando a bola rolou.

“Ele era maluco. Os caras vieram para cima da gente igual a leões. Todo mundo estava batendo naquele dia, até mesmo o Zico. Foi quando aconteceu a jogada. Ele veio driblando todo mundo e a bola adiantou, foi quando dei o carrinho. Depois que a poeira baixou, fui visitá-lo na Gávea e chorei muito”, lembra.

Márcio Nunes ao lado de Zico. Entrada no craque ficou marcada e é relembrada até hojeArquivo

Após a recuperação de Zico, Márcio o reencontrou em campo. E, recentemente, se viram de novo: “Ele me abraçou. Isso me conforta muito. Ficaria arrasado se o Zico tivesse ódio de mim. Foi julgado por apenas um lance na minha vida, me sinto injustiçado.”

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