Por rafael.arantes
Rio - Aos 54 anos, pai de Bruno, de 27; Júlia, de 11; e Vitória, de 4; o técnico Bernardinho não esconde a preocupação com o futuro de seus filhos. Mas não só com o deles. Ele também anda incomodado com o que chama de ‘crise de valores’ no País. Com a imagem de líder vitorioso, esse carioca ilustre foi apontado, em 2013, como possível candidato do PSDB a governador do Rio nas eleições do ano que vem. Mas avisa: não se vê nessa posição.

Sua vontade é continuar sendo uma inspiração para as pessoas enquanto segue comandando as meninas da Unilever, octocampeã da Superliga, e os homens da Seleção, que faturou a Copa dos Campeões, há uma semana, no Japão. Ao fazer um balanço do ano, ele recorda as conquistas da temporada e ainda volta no tempo ao falar da geração do ouro olímpico de Atenas, que completará 10 anos em 2014.

Bernardinho faz balanço de 2013Carlo Wrede / Agência O Dia

O DIA: A temporada da Seleção masculina em 2013, com um time renovado, era o que você esperava?

Bernardinho: Do ponto de vista de resultado, eu diria que foi bom porque tivemos um segundo lugar na Liga Mundial, ganhamos o Sul-Americano e a Copa dos Campeões. Mas em termos de trabalho não foi bom. A temporada foi muito curta. Não tivemos uma pré-temporada, uma base de trabalho. Tivemos a realização do Sul-Americano de Clubes logo após a Superliga e os jogadores se apresentaram à Seleção praticamente para viajar e começar a Liga Mundial. Depois da Liga, estávamos jogando o Sul-Americano de seleções. Aí acabou a temporada. As outras seleções trabalharam até o fim de setembro. Para nós, é um início com defasagem em relação às principais equipes do mundo. Isso tem a ver com o calendário.
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O Wallace, melhor oposto da Copa dos Campeões, disse que via a geração anterior ganhar tudo e se perguntava se seria assim com o grupo atual. Qual é a importância de terminar o ano com esse título?
Dáconfiança e moral. A gente sabe que aquela geração comandou um pouco as ações no mundo. Nós certamente não somos os dominadores como fomos em algum momento, mas somos uma equipe competitiva. Continuamos sempre no pódio, lutando em finais e brigando por títulos. Temos que consolidar esse caminho. Temos grandes adversários, começando pela Rússia, que é o principal deles, pela qualidade e força dos seus jogadores. O Muserskiy tem sido um diferencial no vôlei mundial. Eu o comparo um pouco com a Mireya, de Cuba, porque faz o que poucos jogadores do mundo fazem. No masculino, temos oito, dez equipes com plenas condições de igualdade.
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A Rússia, que venceu a Seleção na Olimpíada, na Liga Mundial e na Copa dos Campeões, é a pedra no sapato no Brasil?
Não do Brasil. Eu diria que é a principal equipe do mundo, tanto que os resultados demonstram isso.
Bernardinho passa instruções para a seleção masculinaCarlo Wrede / Agência O Dia

Em 2014, a conquista do ouro olímpico em Atenas completará 10 anos. Qual imagem você guarda daquele grupo campeão?

No início do ciclo de 2001 a 2004, tivemos anos de muita construção, de estabelecimento de padrões muito claros de trabalho e de postura. Foi muito importante até para a inspiração das gerações seguintes. O vôlei brasileiro não é só de virtudes do ponto de vista técnico e tático, mas de trabalho, da consciência do grupo. Todas as vitórias, que culminaram com o ouro em Atenas, demonstram uma consistência que fez com que essa geração entrasse para a história do vôlei mundial. A imagem é de um time de muito talento, trabalhador, consciente do que era necessário fazer para se tornar o que se tornou.

Qual é o seu balanço com a Unilever em 2013?

A gente começou com um título (Superliga 2012/2013), que não era inesperado, mas não éramos favoritos. Tivemos a revelação de algumas jogadoras, como a Gabriela, a confirmação da Juciely. As duas foram para a Seleção em seguida. Foram pontos positivos do trabalho. A Sarah Pavan teve uma ótima temporada também. Acabou a Superliga e já perdemos uma jogadora importante, a Natália (se transferiu para a Amil). Foi uma perda dura. Confesso que fiquei triste com a sua saída. Foi um golpe porque esperava ficar um pouco mais com ela. Mas é do mercado. Agora teremos uma temporada difícil e mais desafiadora.

Como você viu o fim do patrocínio da OGX ao time masculino de vôlei RJX?

A situação é muito clara, de uma grande empresa que pediu recuperação judicial. Não é uma questão ligada ao vôlei em si. É um problema da empresa e não do mercado do vôlei. No ano seguinte à conquista de um título tão importante (da Superliga), seria muito triste perder o patrocínio e não ter no Rio uma empresa com condições de manter essa equipe. Independentemente de o meu filho jogar lá, eu diria isso para qualquer clube que estivesse nessa situação. No caso da Unilever, só tenho a agradecer a solidez nesses anos todos, por essa parceria intensa ao longo de quase duas décadas.

Houve uma conversa no Flamengo para ajudar o clube da Gávea após as últimas eleições?

Seria para fazer parte do Conselho de Gestão. Tenho respeito por eles, mas não era o momento. A escolha do Marcelo Vido (diretor executivo de Esportes Olímpicos) foi acertada. Ele é capaz de comandar esse processo de viabilização de um projeto de esportes olímpicos e está se alimentando de possibilidades para isso.

Bernardinho orienta jogadoras do UnileverAlessandro Costa / Agência O Dia

Em 2013, seu nome foi cotado para entrar na política. Como você e a sua família receberam isso?

A família recebeu com muita preocupação essa ideia e eu com mais preocupação ainda. Muitas pessoas dizem: ‘Seria ótimo’. Outros dizem: ‘Política é um mundo muito complicado’. Eu nunca me candidatei a nada. Gostaria de poder ajudar de alguma maneira porque eu vejo não apenas um Estado, mas um país onde a crise de valores é grave. Essa questão da candidatura está longe da minha realidade. É um processo interessante conversar com pessoas da área. Mas não vejo hoje como uma possibilidade real. Não me vejo como candidato.

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Você falou em “crise de valores”. Você acha que cada um pode fazer a sua parte nesse sentido?
Eu tento fazer da melhor forma possível aquilo que eu faço e espero que isso possa influenciar positivamente, inspirar algumas pessoas. A minha grande frustração hoje é que isso tem se demonstrado insuficiente. A educação é uma questão de transmissão de valores e, na minha opinião, a gente vive uma grave crise nesse aspecto.
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Você tem uma preocupação especialmente com as suas filhas?
Tenho muita preocupação como o futuro, não só com as minhas meninas, mas, também, com um monte de jovens da periferia que ainda não têm acesso a uma série de coisas importantes, a uma educação de qualidade e a uma vida de respeito. Quando a gente fala de transporte público, a gente fala de respeito com as pessoas. Posso falar de outros aspectos também, como a segurança, de vários outros. Se tem uma pessoa por quem eu tenho admiração no Estado é o Secretário de Segurança Beltrame (José Mariano Beltrame), pela sua luta e postura. Espero que o processo que ele iniciou possa continuar. Há várias questões que afligem. Há a questão da corrupção, da transgressão, de quando você se permite desrespeitar normas e leis. Furar o sinal vermelho é talvez a mãe de todas as transgressões, pois você dá o sinal para as pessoas, seja para os políticos ou os gestores, de que pode avançar o sinal vermelho que não tem problema. Isso me incomoda muito.