Por bernardo.argento

Rio - A distância de 9.700 quilômetros que separa Zagreb, capital da Croácia, de Vila Kennedy, vai ser encurtada na Copa do Mundo. Para muitos moradores do bairro da Zona Oeste e para uma família em especial, a seleção onde brilha a estrela de Eduardo da Silva, orgulho da Estrada da Saudade, há de fazer bonito no Mundial. Mesmo estando no grupo do Brasil, eles decidiram que são todos croatas.

Eduardo Silva é o segundo maior artilheiro da Croácia arquivo pessoal

No dia 12 de junho, a família do brasileiro naturalizado croata vai estar na Arena Corinthians, na estreia da Seleção, diante da Croácia. Por tudo isso, não tem como o coração de Eduardo ficar um pouco dividido. Mesmo tendo saído do Brasil aos 15 anos, Eduardo, de 31, sabe que vai ficar emocionado quando pisar o gramado.

“Vai ser uma sensação estranha. Sei que vou cantar os dois hinos, porque me sinto brasileiro e croata, mas lógico que busco a vitória da minha equipe”, disse o atacante, que atua no Shakhtar Donetsk, da Ucrânia.

Família vai torcer pela Croácia na Copa do Mundo arquivo pessoal

Eduardo da Silva vai ser o primeiro jogador a atuar em sua terra natal numa Copa do Mundo por uma equipe diferente da anfitriã. O atacante é o segundo maior goleador da história da Croácia — fez 29 gols em 62 jogos e só fica atrás de Davor Suker, artilheiro da equipe na Copa de 1998.

Descoberto num campeonato de favelas organizado pela CBF, Eduardo saiu de Vila Kennedy direto para o Dínamo Zagreb. Passou pelo Arsenal, onde sofreu grave fratura exposta na perna esquerda, em 2008. Deu a volta por cima e quer fazer bonito com a camisa croata no Brasil. Depois, quem sabe, jogar no futebol tupiniquim. “Minha mãe quer muito me ver jogando em algum clube carioca. Seria ótimo atuar no futebol brasileiro”, avalia.

Mãe temeu pelo futuro do filho

Joelma da Silva já havia dado o ultimato: Eduardo precisava arrumar um emprego até o fim de 1999. A carteira de trabalho estava pronta, mas o rapaz, então com 16 anos, pediu mais uma chance em busca da realização do sonho de se tornar jogador. Pouco depois, recebeu a visita de Hélio Cruz, olheiro do Dínamo Zagreb, que queria permissão para levar o rapaz para a Croácia.

Joelma quase impediu a viagem. “Tinha medo de que estivessem levando ele para prostituição ou até tráfico de órgãos. Passava coisas ruins pela minha cabeça”, lembra.
Mesmo assim, ela pegou autorização com o juiz, já que o pai de Eduardo é desaparecido, e deixou o filho ir em busca do sonho: “Foi a melhor coisa que fiz. Ele é um filho de ouro e ajuda muito a família.”

Eduardo Silva ao lado da mãe na Vila Kennedy arquivo pessoal

Unidos mesmo à distância

Bruno da Silva, de 23 anos, chora quando se lembra do irmão. Ele também tentou ser jogador — até morou 3 meses na Croácia —, mas a carreira não deu certo. Bruno pretende estudar Educação Física com ajuda do irmão: “Ele vai me apoiar, como sempre.”
A mãe cursou Pedagogia e faz Pós-Graduação na área de Educação com ajuda do filho. “Quero abrir uma ONG com a ajuda do Dudu”, planeja.

Joelma pretende contar a história de sucesso do filho. Para isso, tem mais de 20 álbuns com recortes de fotos e reportagens de jornais e revistas inglesas, croatas e ucranianas sobre Eduardo. “Exemplos como o dele podem servir como inspiração”, diz a mãe.

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