Sávio relembra sucesso no Real e aposta em título da Liga dos Campeões

Dono de três triunfos da principal competição interclubes da Europa, ex-atacante merengue elogia esquema tático do rival Atlético, mas afirma: 'Chegou a hora da décima conquista'

Por O Dia

Rio - Presente na última dinastia vitoriosa do Real Madrid na Liga dos Campeões, no fim dos anos 90 e início dos 2000, Sávio escreveu seu nome na história do clube conquistando praticamente tudo que disputou, incluindo três títulos da principal competição europeia. Nos cinco anos em que esteve no Real, o atacante atuou com o compatriota Roberto Carlos e teve a oportunidade de jogar com craques do quilate de Seedorf, Raúl, Figo, Zidane, entre outros.

Sávio viu surgir o time que receberia a alcunha de galácticos, sucesso dentro e fora de campo, muito diferente do fracassado "ataque dos sonhos" que formou com Romário e Edmundo, em 1995, no Flamengo, clube pelo qual começou a carreira em 1992 e ficou até ser vendido para o Real Madrid, em 1997.

Sávio ao lado das suas conquistas no Real Madrid. Entre elas%2C três Liga dos Campeões da EuropaReprodução Facebook

"Eu fiquei cinco anos no Real Madrid e não quase não vi atrito, diferentemente do Flamengo", garante o ex-jogador, aos 40 anos.

Em entrevista ao O DIA, Sávio comenta a passagem pelo Real Madrid, as chances do time na final da Liga dos Campeões contra o Atlético, faz elogios às duas equipes, mas não aponta favorito para a decisão.

O DIA: A pressão de jogar pelo Real Madrid é tão grande como jogar pelo Flamengo?

Sávio: Os dois clubes são muito grandes e têm torcidas enormes. A pressão e a responsabilidade também são grandes. A diferença que senti no começo é que lá se respira futebol 24 horas por dia, é uma loucura. Todos os treinos eram cheios. Hoje em dia, o Real mudou seu centro de treinamento, é muito mais reservado, quase não entra ninguém. Antigamente, era muito aberto ao público, até pelo local que ficava o antigo CT. Essa foi a diferença maior quando eu cheguei. Mas quanto à pressão, eu já estava acostumado no Flamengo. Outra diferença foi o clima. Fui para Madri justamente no meio da temporada (fim do ano). Saí do verão do Rio e cheguei lá no inverno. Mas tive uma adaptação muito rápida, até porque o clube e a torcida fizeram com que eu me sentisse mais adaptado.

Quando você chegou, encontrou craques como Seedorf e Raúl e depois chegaram Figo, Zidane... Como foi fazer parte de um elenco tão recheado de craques? Nesse grupo, tinha alguma divergência ou brigas por conta dos egos?

O Real tinha um timaço, com Hierro, Morientes, Raúl, Suker, Panucci, Roberto Carlos, o Manuel Sanchís, que era o capitão... Mas me senti muito bem acolhido. O mais importante é o seguinte: na cabeça de todo o grupo, o Real Madrid à frente de todo mundo. Os jogadores assimilavam isso. Ninguém poderia ser maior que o Real. O clube estava 32 anos sem ganhar a Liga dos Campeões e os jogadores estavam focados em quebrar esse tabu. Eu fiquei cinco anos no Real Madrid e não criei divergência com nenhum jogador e quase não via atrito nos vestiários. Teve um episódio interessante após eliminarmos o Borussia Dortmund, na semifinal da Liga dos Campeões 1997-1998. Alguém que não me lembro deixou uma caixa de bebidas para festejar. Mas ainda tinha a final. O Hierro chutou a caixa e falou alto com a pessoa. Tínhamos uma estrutura espetacular no Real Madrid. Isso ajudou muito. Dificilmente um grupo com atritos ganha três Liga dos Campões.

Flávio Conceição%2C Roberto Carlos e Sávio posam com o troféu após a vitória de 2 a 1 sobre o Bayer Leverkusen na decisão da Liga dos Campeões na temporada 2001-2002, última conquista dos MerenguesReprodução Facebook

Você teve como companheiros de ataque como Raúl, Morientes, Mijatovic, Anelka e Suker, como era a concorrência no time titular?

Era forte. Não só no ataque, mas no meio também. Era uma briga bonita, só com feras, cada um querendo o espaço. Os treinadores que eu tive por lá só escalavam quem estava melhor. Um exemplo: depois da Copa do Mundo de 1998, o Suker, que foi o artilheiro da competição com a Croácia, foi para a reserva na pré-temporada do Real Madrid.

Quando você chegou à Espanha, o time dominante era o Barcelona e, enquanto esteve no Real, esse patamar mudou. Situação bem parecida com a atual. Como você analisa esses dois momentos?

O Barcelona vinha bem no Campeonato Espanhol. Depois mudamos isso em cinco anos, quase ganhando tudo. É difícil um grande clube manter um nível de regularidade de conquistas durante muito tempo. Ganhar três Liga dos Campeões é uma façanha muito grande. O patamar muda. Esse processo do Barça atual está mudando. Há um desgaste e os times passam a ter mais gana de ganhar e se reforçam. Esse processo de renovação na Europa está acontecendo bastante e o Barça vai ter de passar por isso.

Você enfrentou o Simeone quando ele jogava futebol, como ele era em campo? E como está vendo o trabalho dele como treinador?

Sávio em ação com a camisa merengue em 1999Divulgação

Era um jogador duro, forte, de muita raça, vigor físico. Ele é competitivo. Parece um pouco com o treinador que se tornou. O primeiro gol que fiz pelo Real Madrid foi no clássico contra o Atlético, no Vicente Calderón. Também o enfrentei quando ele estava na Inter de Milão. O trabalho como treinador é espetacular. Ele pegou um Atlético desacreditado e fez com que voltasse a ser um grande time do futebol europeu. O time tem um esquema tático bom e ele conseguiu tirar o melhor de cada jogador. Está prestes a ser campeão espanhol e já tem vários títulos nos últimos anos. Para mim, é o melhor time europeu taticamente, em termos de marcação. Toma poucos gols.

Qual a sensação de ter mais conquistas da Liga dos Campeões que muitos jogadores badalados atualmente?

É um satisfação muito grande de dever cumprido. O Real é um dos maiores clubes do mundo e a pressão é constante. Tive o privilégio de conquistar competições tão almejadas por jogadores. O reconhecimento do clube e da torcida é sinal de que deixei algo positivo. Eu procurei sempre ser eu mesmo. Nunca me comparei a ninguém. Recebi a ajuda de todo mundo. Roberto Carlos, Seedorf e Redondo me davam dicas. Isso aumentava a confiança.

Qual conquista entre as três que você tem da Liga dos Campeões acha a mais inesquecível?

A primeira (1997-1998) foi mais especial. Por ser a minha primeira temporada e pelo Real ter ficado 32 anos sem ganhar o torneio. Na final de 1999-2000, dei a assistência para o gol do Raúl, contra o Valencia, que era o favorito, por ter atropelado todo mundo na campanha. Mas a camisa do Real Madrid pesou na decisão e fizemos uma grande partida.

Como você analisa o time atual do Real Madrid?

É muito forte, tem jogadores diferenciados, como Cristiano Ronaldo e Bale, mas não é o favorito contra o Atlético. Não vai ter favorito para a final. O Atlético tem um bom time e sabe jogar contra o Real. Mas se for colocar no contexto individual, o Real é mais forte. Nos jogos contra o Schalke 04, o Borussia Dortmund e o Bayern de Munique, os jogadores deram show. O Carlo Ancelotti deu uma melhorada na equipe. Além dos dois jogadores que mencionei, outros também são importantes. Di María e Modric são a alma do time. Eles marcam muito e têm qualidade. Benzema está fazendo gols importantes e a zaga melhorou muito com Pepe e Sergio Ramos.

Sávio celebra com os companheiros do Real Madrid o título da Liga dos Campeões de 1999-2000Divulgação

Sua torcida será para o Real Madrid na final da Liga dos Campeões? Chegou a hora de vencer "La Decima"?

Com certeza. Meu filho mais velho é um madridista apaixonado porque praticamente cresceu lá. Ele entrou em prantos contra o Bayern. Chegou a hora da conquista. Vai ser difícil, encontrou a pior equipe para a final, mas ao mesmo tempo é o Real, que tem um grande time e vários títulos importantes.

Qual jogador do elenco atual do Real se assemelha com seu estilo de jogo?

É difícil equiparar, até pela época. De repente, o Di María, por ser canhoto. Mas é complicado comparar, pelo estilo e pela época.

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