Por pedro.logato
Zé Mário falou sobre momento do futebol brasileiroDivulgação

Rio - Esqueçam o Bom-Senso FC — movimento criado por jogadores dos grandes clubes do futebol brasileiro, em 2013, para cobrar melhores condições de trabalho — ou a polêmica Democracia Corintiana, onde craques como Sócrates participavam das decisões do clube, na década de 80. Muito antes disso, nos sombrios anos da ditadura, o ex-jogador Zé Mário fez história ao fundar a primeira associação de classe dos jogadores de futebol. Um passado inimaginável, hoje, para os jovens aprendizes de sua escolinha, no clube Mandala, na Barra da Tijuca.

“Tenho mais ou menos 150 netinhos com idades entre 4 e 16 anos”, brinca, para voltar a falar sério. “Coloquei dinheiro do meu próprio bolso, junto com o Dirceu, para a criação da associação (atual Saferj). Acho que era uma obrigação defender os atletas. Mas não foi fácil. Até hoje o brasileiro mais ri do que critica o que está errado. A nossa geração ficou marcada pela ditadura”, analisa o técnico, que também é presidente da Federação Brasileira de treinadores de futebol.

Coragem, Zé Mário tinha de sobra para encarar os dirigentes, assim como o ar crítico e contestador de quem conhecia como poucos os segredos do futebol. Volante moderno, ele marcava tão bem quanto passava a bola. Tanto que nunca foi expulso em 12 anos de carreira. Líder nato, profissional ao extremo, Zé Mário não demorou a cair no gosto das torcidas de Flamengo, Fluminense e Vasco, onde conquistou títulos e deixou saudade. Saga que se repetiu na carreira de técnico. Ele conquistou títulos comandando Goiás, Internacional e clubes do futebol árabe e japonês. O último clube foi o Al-Arabi, em 2009.

“Quero continuar minha carreira de técnico, apesar de achar muito difícil no Brasil. Aqui tem muita falcatrua e troca de interesses. Nunca aceitei interferência no meu trabalho. Estou na contramão do futebol brasileiro”, argumenta, inconformado com os rumos atuais do futebol pentacampeão do mundo. Zé Mário sonha com mudanças.

“Os agentes tomaram conta do futebol, da base. Nossas promessas vão cedo para a Europa serem tocadores de bola e perdendo a nossa característica. Os que ficam aqui não têm espelhos. Quem são os nosso craques? Não é o futebol brasileiro que está em decadência. Continuamos a ter matéria prima. É a estrutura que precisa ser radicalmente mudada”, alerta.

Zé Mário teve passagem pelo futebol japonêsMarcelo Regua / Agência O Dia

‘Ninguém gosta do Dunga, nem jogadores'

Dono de rara sinceridade, Zé Mário não tem medo de apontar as feridas do futebol atual. A começar pela escolha de Dunga para o cargo de técnico da seleção brasileira.

“Ele já teve a chance dele. O Marin pôs o Dunga para levar pancada, ele sabe que ninguém gosta dele. A imprensa não gosta, a Globo não gosta, muito menos os jogadores. Mas com a escolha do Dunga, Marin tirou o foco dos problemas do nosso futebol de cima dele. O que ele resolveu até hoje?”, critica o técnico, que revela ter tido atrito com Dunga, quando comandava o Inter, em 2000:

“O Dunga estava em final de carreira, não queria parar e jogava os meninos contra a torcida. Fiquei sabendo que ele falou mal de mim e fui tirar a limpo. Mas isso é passado. Ele tem meu apoio como técnico da Seleção. Até mesmo porque é um ex-atleta, uma categoria, que vou sempre defender.”

Dustin Hoffman da bola

Graças ao nariz avantajado, Zé Mário era chamado por alguns radialistas da época de ‘Pinocchio’ ou o ‘Narigueta’. Mas nenhum apelido pegou tanto quanto o de um dos atores mais famosos de Hollywood.

“No primeiro dia que o Paulo Cesar Caju me viu, disse na lata: ‘Dustin Hoffman.’” A semelhança era tanta que Zé Mário passou por situações curiosas. “Uma vez fui ao cinema e tinha uma maquete do Dustin em tamanho real. Todo mundo passava e me olhava. Quando vi até me assustei”, brinca.

Outra situação inusitada ocorreu em Dubai: “Fui seguido numa loja. Quando perguntei qual era o problema, a resposta me fez rir:Dustin Hoffman?”

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