Técnico Dunga busca imunizar seleção brasileira contra 'Neymar-dependência'

Treinador ressaltou que os jogadores que atuam no futebol asiático vão precisar se dedicar mais para serem lembrados

Por O Dia

Rio - Dunga quer imunizar a Seleção contra o risco de uma Neymar-dependência antes do início da Copa América, em junho, e das Eliminatórias. Jairzinho, escolhido como auxiliar pontual, será a referência por ter sido decisivo num time que tinha Pelé, na campanha do tri, na Copa de 1970. Assim, o técnico espera abrir espaço para o surgimento de novos destaques que possam resolver os jogos quando seu astro maior e capitão estiver sem brilho.

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"O que nós observamos é que todas as vezes que fomos campeões do mundo, tivemos o coletivo forte, e aí surgiram individualidades. Nós não esperamos que a individualidade resolvesse tudo. Se o jogador está na Seleção é porque é bom, é exceção, fez algo diferente dos demais. Tem que ter atitude, tomar decisões", disse Dunga, na manhã desta quinta-feira, na sede da CBF. Ele emendou: "Estamos tentando valorizar os ídolos do passado e usá-los como referência. Nós temos que buscar o resgate do futebol brasileiro.

Em pouco mais de 40 minutos de entrevista, Dunga falou sobre a preocupação com a proximidade entre as finais das competições europeias e o início da Copa América, embora tenha deixado claro que a prioridade da Seleção é a disputa das Eliminatórias. Ele admitiu ainda que jogadores como Diego Tardelli serão mais cobrados por estarem no mercado asiático. O treinador afirmou que busca uma mescla entre juventude e experiência e que ninguém que foi convocado tem motivo para se acomodar, assim como os que ficaram fora não devem perder a motivação.

Convocação contou com a presença do presidente da CBF, José Maria MarinCarlos Moraes

Confira a entrevista do técnico Dunga:

Perfil do grupo e projeção para o futuro
"Vamos mesclar jogadores jovens e experiência, mas nesse momento nada é definitivo. Temos dois amistosos, Copa América , mas o nosso objetivo maior é a Eliminatória. Que os jogadores que não estão na lista não se sintam excluídos e nem os que estão se sintam definitivamente convocados. Serão muitos jogos, vai ter lesão, cartão, e todos devem estar preparados para quando chegar a oportunidade."

Ausências de Ricardo Goulart e Everton Ribeiro
"Eles estão iniciando a pré-temporada, a gente não tem observado diariamente o desenvolvimento deles. É normal não estar no top da condição. Se eu chamo três cujos campeonatos mal começaram, já são 30% do time. Optamos por diminuir os risco por serem jogos importantes. Vamos enfrentar uma seleção que está invicta na competição europeia e nós jogamos só no ano passado. Precisamos de jogadores que estejam no ritmo de competição."

Diego Tardelli na China
"Eu tive a experiência de jogar no Japão e, por incrível que pareça, o jogador aprende, fica mais ligado, focado na concentração. Vai jogar contra quem não tem experiência, competitividade, mas que consegue fazer as coisas mais difíceis. E erra as mais fáceis. Então, tem que estar sempre ligado, isso faz com que o jogador se mantenha num bom nível. Vamos observar. Não só eu, mas vocês (jornalistas) e torcedores, todos seremos muito mais críticos, cobraremos mais a questão do rendimento. Se o rendimento cair, vão falar que foi por ter ido para um país menos competitivo. O jogador tem que estar preparado para isso."

O que observar nesses amistosos
"Não temos dúvida da qualidade dos jogadores. Mas a gente sabe que depende do rendimento dos mesmos. Todas as posições serão observadas. Há jogadores que têm rendimento constante e que a cada convocação vão se firmando na seleção brasileira. Eles precisam manter esse nível de competitividade. Estaremos sempre observando, sempre vão surgir outros nomes, mas o importante é que comprovem quando chegarem à Seleção."

Boa fase de Neymar no Barcelona
"É o nosso capitão, não é surpresa. Os números estão aí para mostrar. Desde o momento que a gente botou a faixa de capitão nele, ele teve um upgrade e confirmou a nossa expectativa. Ele gosta de desafio, cresce. Está fazendo história no futebol europeu. É importante para Seleção, não só pelo nível técnico, mas pela postura. Estamos muito felizes com o rendimento dele e torcendo para que venha e continue dando alegrias, assim como os demais."

Volta do Marcelo e convocação do Fabinho
"Para a convocação, a gente observa os jogos, o rendimento dos jogadores, o que podem trazer de positivo. O Marcelo voltou a ser titular no Real Madrid, tem tido um rendimento constante, tem experiência de Copa do Mundo. Quanto ao Fabinho, a gente tenta abrir o leque mesclando jogadores experientes e mais novos. Deixando claro que ele é lateral-direito, apesar de nos últimos jogos ter atuado como volante porque seu treinador deseja. Ele pode jogar em diversas posições. Tentamos abrir o leque para os jogadores irem se auto afirmando na Seleção. Quanto mais jogadores observarmos, melhor. Teremos Copa América, Eliminatórias... Temos que ter o leque maior para, quando precisar, o jogador entrar sem problema."

Marcelo Grhoe
"É a mesma coisa, para abrir o leque. A gente traz o jogador para participar de jogos, treinos... Nós temos o Taffarel como treinador de goleiros que pode nos passar observações. Nem preciso falar o goleiro que ele foi, assim como o Gilmar. A gente vai observando a qualidade técnica e como se comporta. O jogador tem que viver esse ambiente e crescer."

Primeira convocação de um jogador que atua na China
"É uma situação do futebol globalizado, principalmente pela questão econômica. Ouço falarem que o jogador brasileiro não está valorizado por que não tem ido para a Europa, que está indo para a Ásia. Mas na Europa há países que não têm mais condições econômicas para comprar jogadores. A China é um país emergente, não é surpresa para ninguém, está investindo muito, levando jogadores e uma escola de treinadores para crescer no futebol. Da China é a primeira vez, mas eu, (César) Sampaio e Jorginho fomos quando estávamos no Japão. Não é uma coisa normal. Conversei com o Tardelli quando ele me ligou perguntando o que eu pensava. Não me comprometo com ninguém. Só com a Seleção, não posso falar para ir ou não. Só falei para conversar com clube porque são muitas horas de voo, ele vai ter que pedir para vir um, dois dias antes para descansar e enfrentar um jogo de Seleção, de Eliminatória, muito competitivo. E que ele sempre tem que estar no melhor condicionamento físico. Se render, vai jogar sem problema. Antes, a Europa comprava jogadores com 28, 29 anos. Depois, os países da cortina de ferro, como a Ucrânia, passaram a contratar com 20. Agora, o mercado asiático está levando experiência porque precisa de divulgação e referências. É a história do futebol atual. Temos que nos adaptar sem causar prejuízos à Seleção."

Jarzinho e o combate à Neymar-dependência
"O que nós observamos é que todas as vezes que fomos campeões do mundo, tivemos o coletivo forte, e aí surgiram individualidades. Nós não esperamos que a individualidade resolvesse tudo. Se o jogador está na Seleção é porque é bom, é exceção, fez algo diferente dos demais. Tem que ter atitude, tomar decisões. Estamos tentando valorizar os ídolos do passado e usá-los como referência. Nós temos que buscar o resgate do futebol brasileiro. Às vezes a gente vai buscar na Europa o que temos em casa. Sempre se falou em improvisação. Eu chamo de criatividade. O jogador faz porque treinou. Na primeira convocação, usamos o Mauro Silva porque sempre trabalhou em equipe e teve o reconhecimento de todos. Na segunda, foi o Edu, para valorizarmos o drible, a criatividade do futebol brasileiro, atitude, leitura de jogo. O Oscar Bernardi, na terceira, porque passou por diversas situações, para mostrar que tem que cobrar do companheiro porque o seu sonho depende dele também. E agora o Jairzinho, um cara altamente determinado, que fez sete gols na Copa, mas que foi gandula, jogou com Garrincha e não se intimidou, e na Copa tinha Pelé, mas não esperou ele resolver, fez a sua parte. Pensou: estou aqui porque tenho méritos, sou tão bom quanto ele. Quanto mais força, energia e decisões coletivas tivermos, mais a individualidade vai aparecer. O Neymar é a nossa referência, mas os outros também têm valor, são destaque no Chelsea, no Liverpool, no Botafogo... Decidem por seus clubes e têm que decidir aqui."

Eliminatórias no foco
"O nosso objetivo maior é a disputa das Eliminatórias, mas, para chegar lá, temos dois amistosos e a Copa América que temos que jogar para ganhar. A Seleção, além da qualidade técnica e do que o futebol moderno cobra, tem que ter mentalidade ganhadora. Não só no futebol como em qualquer outra profissão. Se não tiver uma mentalidade vencedora, de competitividade, não chega. Às vezes as pessoas se surpreendem com algum nome, diz que o outro é mais técnico, mas falta isso a esse outro, a vontade de ganhar. A gente vai observando, abrindo o leque, mas tem que ter uma base, uma estrutura para dar respaldo ao mais novos que estão chegando. Mas a gente não consegue abrir de fato se os que estão fora não mostrarem que podem jogar na Seleção, e se os que estão na lista não estiverem correspondendo. A determinação é abrir o leque, mas sempre por meritocracia."

Observação nos mercados em desenvolvimento
"Temos profissionais brasileiros que trabalham nesses países. É uma dificuldade maior e nova para o cargo de treinador da Seleção. Falaram que vou sentir inveja dos treinadores na Europa assistindo jogos sem precisar viajar, mas faz parte do trabalho. Vamos buscar informações e, quando possível, em jogos importantes, tentar estar presente."

Como superar o 7 a 1
"Trabalhando em equipe, conversando com os jogadores, mostrando que cada um tem seu valor, que está aqui porque merece. Nada supera o trabalho. Tendo tempo e trabalho, os resultados vêm. Tentamos explicar isso. Teremos resultado se formos fortes coletivamente, se cada um colocar seu talento em prol da Seleção e, principalmente, se fizermos o que treinamos e cada um colocar a sua ideia e pensamento para contribuir. Temos que aproveitar o que não deu certo, repetir o que deu certo e melhorar. Tem que ser no dia a dia, com sacrifício coletivo. Tem que saber que no futebol globalizado o sistema é único, em bloco. Todo mundo tem que participar. No futebol moderno além da qualidade técnica, imprescindível, há fatores importantes. Primeiro, tem que ter velocidade com e sem a bola, ser participativo atacando e defendendo. Se um não o faz, o time joga com um menos. Segundo, inteligência e percepção tática. Ser altamente competitivo e ter mentalidade vencedora. Ganhou uma, tem que já pensar na próxima. Não pode se acomodar, querer ficar vendo a imagem na TV e falando do passe que deu, do gol que fez. Se fizer o gol no primeiro minuto já está bom? O jogo tem que continuar, são 90 minutos."

O calendário e a proximidade entre a fase final das competições europeias e a Copa América
"Não encaramos com normalidade, mas o problema está aí, e temos que buscar soluções. Temos feito reuniões periódicas com a comissão técnica e a direção para tentar minimizar isso. Fica uma situação constrangedora. Por um lado, você quer o jogador logo, mas terá que torcer para ele perder. Por outro, sabe que se ele vencer, chega com mais energia e vontade, com motivação. Sem dúvida, a Copa América é importante, tem que jogar para ganhar, mas o calendário já está montado, não foi feito por nós, temos que viver com isso. A nossa ideia era ter tempo para treinar, mas vamos nos reunir dia 1º. São dois dias de exame, tem que fazer a preparação e em quatro, cinco dias já tem jogo. Temos que ter muito cuidado. Muitos vão estar em final de temporada. A nossa vontade é treinar, treinar e treinar, mas tem que ter sensibilidade para não causar lesões. Logo em seguida tem Eliminatórias. É um quebra-cabela difícil."

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