Ídolo no Japão, Alcindo quer repetir seu sucesso com o futebol feminino

Ex-jogador virou mangá e gravou dois cds no idioma oriental

Por O Dia

Rio - Ele não foi craque, mas até hoje é reverenciado como um dos grandes ídolos do futebol japonês. Nas cinco temporadas em que jogou na Terra do Sol Nascente, o atacante Alcindo fez história. Virou personagem de quadrinhos, o Mangá, gravou dois discos, mesmo falando um péssimo japonês, vendeu milhares de perucas e virou símbolo sexual, apesar de não ser um galã.

Fama e popularidade conquistadas com muitos gols e um carisma descomunal fora dos gramados, nos anos em que a J-League, a Liga Japonesa, dava os seus primeiros passos no planeta bola. Dezoito anos depois de deixar o Japão e 15 após pendurar as chuteiras, Alcindo tenta redescobrir novos caminhos. Aos 47 anos, o ex-jogador de Flamengo, São Paulo, Fluminense e Grêmio agora quer repetir o sucesso no futebol feminino. Mais precisamente no Foz Cataratas, clube no qual assumiu há dois meses a função de técnico.

Alcindo tenta sucesso como treinador de futebol femininoArquivo Pessoal / Divulgação

“É um desafio, estava afastado do futebol, triste, só acompanhava os jogos do meu filho (Igor Sartori). Eu me motivei com o convite. É uma experiência nova. Cada dia aprendo alguma coisa com as meninas”, ressalta.

Para fazer um bom trabalho, Alcindo tem consultado técnicos mais experientes, como Renê Simões, do Botafogo, um dos pioneiros, ciente de que há muito por fazer. “É preciso que olhem com mais carinho para as meninas, temos um potencial enorme, mas precisamos de incentivo e atenção”, ressalta.

GOL PARA A HISTÓRIA

Ao optar por treinar as mulheres — recusou logo depois um convite para trabalhar no futebol paranaense —, Alcindo uniu o útil ao agradável. Morando em São Miguel do Iguaçu, a 40km de Foz do Iguaçu, ele fica perto da família e pode cuidar melhor dos negócios: “Tenho uma fazenda de soja e milho na região. Meu pai já tinha lavoura e investi todo o dinheiro que ganhei no futebol nessa área.”

Se hoje os tempos são de bonança, o passado foi de sacrifícios e trabalho duro. Desde criança, ele aprendeu com os pais a sofrida lida na roça, mas sem abrir mão do sonho de vencer no futebol. Tudo mudou quando foi tentar a sorte nos juniores do Cascavel, no Paraná, e chamou a atenção do técnico Elói Kruger. Um ano depois chegava à Gávea para fazer testes. E ficou.

Alcindo está nos corações do FlamengoArquivo

“Cheguei ao Flamengo em 1985, subi para o profissional com o Sebastião Lazaroni. Joguei na época do Bebeto, do Zinho. Eu era um curinga. Era difícil me firmar, pois o Flamengo só tinha craques”, relembra. Apesar da forte concorrência, Alcindo fez bonito.

Marcou 32 gols em 213 jogos pelo clube. Um deles entrou para a história. Foi dele o primeiro gol na edição inicial da Copa do Brasil, em 1989: “O Zico passou a bola para mim e marquei contra o Paysandu. Foi 2 a 0. Nunca imaginava que ficaria famoso por esse gol.”</CW>

POP STAR NO JAPÃO

Começava ali uma parceria com o Galinho e com Telê Santana, técnico do Flamengo. Pouco depois, Alcindo foi emprestado ao São Paulo, onde reencontrou Telê. “Ele foi demais, acreditou em mim e passou a me treinar à parte. Eu era normal, nunca fui craque, mas o Telê colocou muitos jogadores limitados para jogar”, conta, com gratidão.

No Japão%2C ex-jogador gravou até CDarquivo pessoal

Em 1991, Alcindo foi vendido para o Grêmio,que atravessava grave crise financeira. No fim do contrato, foi convidado por Zico para se aventurar na recém criada J-League e não se arrependeu.
Em 1993, Alcindo chegava ao Kashima Antlers para jogar ao lado do ídolo e fazer história. Em pouco tempo, conquistou a torcida com gols e muito estilo. Não demorou para que os longos cabelos, em contraste com a vistosa careca, fossem associadas ao Kappa — folclórica lenda japonesa, que tinha o mesmo visual — e virassem marca de peruca e mania nacional.

Como Midas, o personagem da mitologia grega, tudo que Alcindo tocava virava ouro. Até um simples cantarolar de um samba-enredo do Salgueiro, no vestiário, o transformou em cantor de sucesso: “Gravei dois discos com as crianças mal sabendo falar a língua, até bonito fiquei.”

Alcindo ainda jogou no Verdy Kawasaki e no Consadole Sapporo. De volta ao Brasil, passou por Corinthians e Fluminense, até encerrar a carreira em 2000, no CFZ: “Só tenho a agradecer por tudo o que conquistei, principalmente no Japão, que é a minha segunda casa. Lá, aprendi a ter educação, cultura, tive fama, dinheiro e respeito. Até hoje me tratam como um rei. Não tem preço!”

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