Por fabio.klotz

Rio - De bermuda e chinelo, o argentino Rubén Magnano caminha na areia da Praia da Barra para tirar fotos e brinca com o próprio visual. “Pensei em vir de calça de linho e camisa social, mas achei melhor, não”, diz, bem-humorado. Morando há pouco tempo no Rio - desde o início do mês - o técnico da Seleção masculina de basquete tem sofrido com o calor na cidade, mas incorporou alguns hábitos, como andar no calçadão à tarde. Ele deixou São Paulo e se mudou para o Rio para estreitar laços com o Comitê Olímpico do Brasil e ajudar na preparação da Confederação Brasileira de Basquete para os Jogos de 2016.

Rubén Magnano já incorporou alguns 'hábitos cariocas'Maira Coelho

Sua relação com o Brasil começou há muito tempo, em viagens com a mulher. A ligação, desde 2010, quando assumiu a Seleção, é ainda maior, turbinada pelo desejo de conquistar uma medalha na Olimpíada. Ele mostra confiança de que é possível. Nesta entrevista, falou sobre o novo lar, planos para os Jogos, intercâmbio com o COB e fez uma cobrança à Fiba sobre a vaga direta à Olimpíada: “Não podemos depender da resposta da Fiba. Precisamos que ela responda rapidamente. Não podem e não devem jogar com essa ansiedade.”

IMPORTÂNCIA DE ESTAR NO RIO

“Ajuda muito no tema de comunicação. Fico mais perto da condução da CBB e muito mais perto de todas as ações do Comitê Olímpico. Hoje, falaria que tenho contato diariamente, até pessoal, que ajuda bastante a coordenar, a tomar decisão. É mais produtivo”.

A VIDA NO RIO

“Ainda estou me adaptando à situação de viver no Rio. Não é a mesma coisa do que morar em São Paulo. Estou sofrendo um pouco com o clima. Está muito quente. Minha vida pessoal não muda muito. Todo mundo associa o Rio à praia. Para mim, São Paulo, Rio, Espanha, Itália, Argentina... é basquete. Então, não é que vai mudar muito a minha vida como profissional de basquete. É verdade, estou aproveitando muito o calçadão à tarde, venho fazer uma caminhada de uma hora que me faz bem, por questão de saúde. Fazia um pouco de esteira na academia que tinha no flat (em São Paulo), mas isso (praia) é muito mais agradável”.

HÁBITOS CARIOCAS

“No domingo, por exemplo, vim com minha mulher e fiquei três, quatro horas, na praia. Não sei falar de hábitos, mas aproveitar o que é bonito. Vamos aproveitar, mas quando der tempo. Não me reconheceram nas ruas. Mas nem pretendo e não penso nisso”.

COBRANÇA POR CONVOCADOS

“Isso é assim no Rio, na Rússia, em Munique, em Barcelona... Você não pode fugir dessa responsabilidade. Não pode caminhar pelo mundo pensando no que os outros pensam de você. Você tem de tomar decisões, por isso está no posto de treinador. E pegar também a responsabilidade das circunstâncias das decisões que toma. Eu sei como é a equação e me responsabilizo por isso, pelas coisas boas e erradas”.

LADO EMOCIONAL NO MUNDIAL

“A análise é mais ampla. Não podemos colocar que somente por uma questão emocional o Brasil não continuou no Mundial (de 2014, quando perdeu nas quartas para a Sérvia). Existe uma quantidade de variáveis que incidiu nesse resultado, ainda mais com um panorama dentro do Mundial muito bom. Para falar de perspectiva, temos de olhar muito seriamente para a parte emocional, mas temos de avaliar todas as outras questões”.

EVOLUÇÃO

Magnano mostra confiança em conquistar uma medalha na Olimpíada de 2016Maira Coelho

“Se você olhar a sequência que o basquete teve em quatro, cinco anos, vai enxergar que estamos crescendo ano a ano. Infelizmente, como em outros esportes, não temos tanto tempo juntos. Cheguei aqui em 2010 e o Brasil vinha de um 16º lugar. Depois, evoluímos e ficamos em nono no Mundial da Turquia, quinto nos Jogos Olímpicos, depois de 16 anos sem jogar, sexto no Mundial, ainda com uma sensação de que a equipe estava para lutar por uma medalha e ficou muito perto”.

SENSAÇÃO DO MUNDIAL DE 2014

“Ainda não terminamos de absorver (a eliminação nas quartas de final). Seria mentira falar: ‘Já foi embora’. Sempre você assiste ao jogo novamente e fala onde poderia ter melhorado. Estamos na luta por uma medalha, tem também o fato de que não estamos longe de ninguém. Se você falar dos Estados Unidos, ok, mas jogamos de igual para igual com todas as seleções. Se você analisar, o Brasil ficou em quarto em eficiência e teve o terceiro aproveitamento nos chutes (arremessos) de quadra. A segunda melhor defesa, com 68 pontos contra. São números que mostram que fizemos um torneio muito bom. Claro, temos que melhorar uma coisa ruim que aconteceu em um momento importante no Mundial, que foi o aproveitamento nos lances livres”.

PÓS-MUNDIAL

“Minhas visitas (aos jogadores) vão começar no fim deste mês, nos Estados Unidos, e, depois, na Espanha. Uma das coisas que vou falar é sobre qual a sensação, em que coisas precisamos melhorar para ter a possibilidade de medalha mais perto. Temos de ter a capacidade de escutar os atletas, qual a sensação que ficou neles, do ponto de vista técnico, tático e emocional”.

MEDALHA EM 2016

“As perspectivas são boas. Nosso desafio, nosso comprometimento e nosso discurso têm de ser isso: lutar por uma medalha no Rio. No último Mundial, deu para ver que o aspecto teórico de que vamos lutar por uma medalha está com conteúdo de ações reais, de jogo, de capacidade de jogo. Falamos que vamos lutar por uma medalha num contexto bastante real, que aconteça. É difícil? Claro que é difícil, mas não é uma coisa impensada”.

JOVENS VALORES

“Todo jogador brasileiro tem possibilidade de jogar na Seleção. Estou muito perto de todos os jogadores, do que está acontecendo com cada um deles, nas diferentes partes do mundo, para depois, no futuro, tomar a decisão de quem deve ser convocado e finalmente jogar a Olimpíada”.

INDEFINIÇÃO DA FIBA

“Isso basicamente está atrapalhando muito nossa ideia de preparação, para definir os jogadores que vão para as competições: Mundial Universitário, Pan-Americano e Copa América. Estamos esperando ansiosamente e precisamos dessa claridade para poder direcionar o nosso trabalho. Basicamente, vamos falar com nossos jogadores, com documentação da Fiba, qual é a nossa situação atual. Vamos ter planos A e B. Não podemos ficar dependendo de uma resposta da Fiba. Precisamos que a Fiba responda rapidamente. Não podem e não devem jogar com essa ansiedade”.

INTERCÂMBIO NO COB

“A ideia do COB é criar um ambiente, primeiramente, de muita camaradagem, mas acho que está criando um ambiente de aprendizado, onde cada um tem capacidade de entender e aproveitar satisfatoriamente a experiência de outro treinador que conta alguma situação, pode ser esporte individual ou coletivo, para você aproveitar em futuras ações com sua equipe. Muitos são de universos diferentes, mas todos se resumem a uma só matéria-prima: as pessoas. São diferentes palestras. É preciso estar preparado para ver e ouvir”.

LEGADO MAGNANO

“Falar de legado é muito forte. Se for ver matematicamente, em cinco anos, seis anos, tivemos o atleta por quatro, cinco meses. Não dá para fazer tanta coisa com esse atleta, mas acho que a seleção brasileira joga de um jeito, quebrou antigos paradigmas. São coisas importantes. O fato de o jogador chegar à Seleção e saber que ninguém está acima dele, que vamos jogar um jogo muito solidário”.

APRENDIZADO NO BRASIL

“Não vou falar nada novo. O povo brasileiro é muito alegre. Alegre no bom sentido. Falamos em alegria todo ano no Carnaval. Não, não. Morei em São Sebastião do Paraíso (MG), em São Paulo, agora aqui. Não é um povo tão dramático. Na vida, não precisa dramatizar tudo. Culturalmente, é um povo muito feliz e isso para mim não deixa de ser um aprendizado. Não é pouca coisa. Agora estamos falando de basquete, mas o objetivo de todo mundo é tentar ser feliz. O brasileiro tem isso”.

PELO BRASIL

“Lembro que fui ao Nordeste, ao Recife, e vi uma placa: ‘Fique de olho no tubarão’. Uma coisa curiosa que nunca tinha visto. Não consigo me lembrar de tudo, mas vivi muitas coisas. Fiz uma viagem da qual gostei muito, a Ouro Preto, em Minas Gerais. Foi um lugar que gostei muito. Estou caminhando pelo Brasil desde a viagem de bodas que fiz com minha mulher. Naquela época já caminhava pelo Brasil”.

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