Por pedro.logato

Rio - A notícia de que teria de operar a canela esquerda pela segunda vez no mesmo ano mudou radicalmente os planos de Natália em dezembro de 2011. Uma das principais jogadoras do vôlei brasileiro, ela havia acabado de ser contratada pelo Rexona-Ades, onde sonhava brilhar na última temporada de clubes antes da Olimpíada de Londres (2012). Mas, no lugar dos treinos exaustivos com o técnico Bernardinho, experimentou uma dura rotina de reabilitação. Surgia ali uma parceria com o fisioterapeuta Guilherme Tenius, o Fiapo.

Dia a dia, ele compartilhou a confiança na volta da jogadora às quadras e acompanhou os momentos de ansiedade, desde a liberação para deixar de usar as muletas até a hora de finalmente retomar sua vida de atleta.

“Não pude nem começar a treinar e já tive que fazer a cirurgia. O Fiapo pegou desde o início, quando eu tinha que começar a dobrar o joelho e fazer bastante trabalho de movimentação”, recorda Natália, que havia operado pela primeira vez em junho de 2011 para a retirada de um tumor benigno na canela esquerda e, seis meses depois, foi submetida a uma cirurgia no mesmo local.

A campeã olímpica de vôlei Natalia Zilio Pereira com o fisioterapeuta Guilherme Teinus%2C que a acompanhou na recuperação de uma cirurgia na canela esquerda. Maira Coelho

Nos seus primeiros contatos com a quadra, Fiapo também estava por perto. A ideia era evitar a rotina maçante, tirando a jogadora um pouco da sala de fisioterapia para ter contato com o que mais gosta de fazer. “A gente pegava um caixote e ele me dava treino. Eu sentada à beira da quadra e ele atacando. O Bernardo não deixava eu ficar parada. Fiquei mais de dois meses de muleta”, conta Natália.

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O pós-cirúrgico não era nada fácil. “Lembro dela chegando aqui (no ginásio na Urca). Ela falava: ‘Não aguento mais essa muleta’. A mão doía”, revela Fiapo, que chegou a acompanhar a jogadora nas revisões com o cirurgião em São Paulo.

A reabilitação seguia bem, mas nem sempre a resposta do médico era a que Natália queria ouvir. “Em fevereiro de 2012, eu fui lá e pensei que iria tirar a muleta. Ele disse para eu ficar mais um mês. Não estava esperando aquilo.”

ALTO ASTRAL

A recuperação era também psicológica. E nisso Natália ajudou muito. “Todo atleta lesionado é ansioso, triste e não quer nunca estar ali. No caso dela, então, era a segunda cirurgia, sem colocar o pé no chão. Mas foi muito fácil por conta do bom humor dela. Mesmo passando por tudo isso, ela não chorava”, diz Fiapo.

Até os momentos mais dolorosos rendiam risadas. “O trabalho de dobrar o joelho era muito difícil. A perna simplesmente não dobra. Ele tinha que fazer força. Eu chorava de rir, porque doía e ele perguntava: ‘Por que você está rindo?’. Eu dizia que estava doendo. E ele: ‘Então chora’. Mas, quando me dá desespero, eu começo a rir”, conta a jogadora, bem-humorada.

A confiança na volta às quadras era grande. “Eu sempre tive essa convicção. O único medo era de que o enxerto não fosse absorvido pela perna. Por isso, ela ficou tanto tempo sem pisar. A partir do momento em que foi absorvido, não tinha dúvida de que ela iria ficar boa”, afirma Fiapo.

Natália Zilio foi campeã olímpica em 2012Maira Coelho

O OURO EM LONDRES

A volta aos treinos não foi fácil. A dor fazia parte do processo. Quando saltava um pouco mais, a região ficava inchada. Mas o sacrifício valeu a pena. Natália conseguiu uma vaga na Seleção para a Olimpíada de Londres (2012) e voltou de lá com a medalha de ouro.</IP>

“Sabia que ela não estava na sua melhor condição e Natália também sabia disso. Mas o treinador confia muito nela. Achei o maior barato porque passou um perrengue. Fiquei feliz por ela. Fisioterapeuta não ganha medalha. Mas a nossa medalha é quando a gente ajuda o atleta a chegar naquele lugar no pódio e consegue vê-lo feliz”, compara.

Fiapo estava na capital inglesa como integrante da comissão técnica da Seleção masculina e lembra de um encontro com Natália na Vila Olímpica. “A final delas foi num dia anterior à nossa. Eu lembro que saí de manhã para ir à academia e cruzei com elas voltando da comemoração. Falei: ‘Isso aí, aproveita’. Lembro dessa cena exatamente”, conta ele.

Natália se curou, mas não abandonou as idas à sala de fisioterapia: “Também é nossa parte de psicologia. A gente fica ali dando risada, fofocando. Eu frequento bastante (risos)”, conta Natália.

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