O Salão do Rio: craques e clubes pedem investimentos, apoio e estrutura

Agremiações cariocas vivem uma estagnação no cenário nacional e torneios regionais estão defasados

Por O Dia

Rio - O Rio de Janeiro viveu a sua 'apoteose' no cenário do futsal no fim dos anos 90 e início dos anos 2000. Na época, o Vasco havia sido campeão da Taça Brasil e da Liga Futsal, ambos em 2000. Um ano antes, o Tio Sam conseguiu um vice na Taça Brasil. Em 2007, foi a vez de o Petrópolis repetir o feito da equipe de Niterói. Na Liga Futsal, o Iate/Kaiser conseguiu um quarto lugar em 1998. O RJ/Miécimo foi vice para o Atlético-MG no ano seguinte, e o último bom resultado foi um terceiro lugar do Flamengo, em 2001. Antes disso, os clubes de bairro já demonstravam suas forças. Hoje a situação é bem diferente. No fio da navalha, as agremiações lutam para seguir praticando e disputando os torneios, como mostra o oitavo capítulo da série O Salão do Rio.

Condomínios e campos de grama sintética: outros vilões do futsal do Rio

Manoel Tobias em ação pelo VascoBeth Santos / Agência O Dia

"Estamos sem patrocínio, então nós trabalhamos com escolinha para gerar uma renda. Se o Governo não arrumar um patrocinador para esses clubes voltarem a funcionar vai ficar difícil. As empresas precisam abrir as portas como era antigamente, como o Bradesco fez durante vários anos", disse José Cezarino, supervisor do Marã Tênis Clube, de Marechal Hermes, clube que já revelou jogadores como Edmundo e Djair.

A visão de José Cezarino sobre o atual momento do esporte no Rio de Janeiro é compartilhada por um dos maiores craques da história do futebol de salão: Manoel Tobias, três vezes eleito o Melhor Jogador do Mundo de futsal pela Fifa.

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"Sem patrocínio, sem investimento, não se faz nada. Eu sei que quem está na Federação tenta fazer um trabalho legal, mas falta investimento. Se não tem isso, um patrocínio que tem condições, principalmente o futsal que sobrevive de renda, não funciona. É muito parecido com o modelo do vôlei e do basquete, tem de ter uma empresa. Está monopolizado, no Sul e Sudeste são mais de 30 equipes de empresas com parceria com prefeitura. Aqui não pode ser diferente. Infelizmente o patrocínio é essencial para fazer um trabalho de médio a longo prazo. Eu torço muito e espero que o futsal do Rio volte o mais rapidamente possível", disse o ex-ala da seleção brasileira.

Cazuza brilhou no futsal carioca pelo Flamengo e VascoCarlos Moraes

Mantendo um projeto de Futebol 7, em parceria com o Bonsucesso F.C., com jovens da Cruzada São Sebastião, no Leblon, o ex-jogador de futsal Cazuza dá o seu diagnóstico sobre o futebol brasileiro em geral. Para ele, a categoria de base precisa reavaliar seus métodos de trabalho na revelação de jogadores.

"A base acabou. Ninguém aprende a matar uma bola. Essa falta de cuidado com a parte técnica mata o nosso futebol. Na escolinha do meu tempo tinha esse tipo de trabalho. Hoje tem profissional que não sabe fazer isso. Na base, colocam um garoto bom jogando solto e o resto do time fica em função dele. Antigamente eu ia na Gávea ver os treinos e eu via treinador fazendo isso: treino de toque de bola, dominar e armar jogadas. Era com o time todo. Lá fora, os times fazem isso já nas categorias de base", comentou Cazuza. Outro que compartilha dos cuidados com o futebol de base é o ex-goleiro Lavoisier.

"Fica uma tristeza (ver o futsal do Rio assim). A base do Rio era muito boa. Eu acompanhava os garotos no Tio Sam e no Vasco e ficava impressionado. No fraldinha o garoto já sabia se posicionar e tinha disciplina tática. O pré-mirim era a mesma coisa. Eu achava surpreendente. Um dia desse eu encontrei o Souza, quando ele estava no Grêmio (hoje, volante do São Paulo), e ele me perguntou se eu lembrava dele. Eu disse que não. Aí ele me contou que era um dos gandulas que ficava atrás do meu gol catando bola nos jogos. O Vasco tinha essa tradição de colocar os garotos da base para ser gandula nos jogos do adulto. E hoje ele está onde está (Souza já esteve na seleção brasileira com o técnico Dunga). É uma satisfação ter participado disso. Vários outros surgiram no futsal do Rio e vão surgir", disse o ex-goleiro do Vasco e do Tio Sam, de Niterói.

O Salão do Rio: o supertime dos sonhos de uma época de ouro do futsal carioca

Vander Carioca recorreu ao F7 por conta da falta de clube de futsal do RJ em torneios nacionaisDivulgação

A modalidade de Futebol 7, jogado em campos de grama sintética, também "ganhou" neste ano um outro craque do futsal: Vander Carioca, que disputa torneios de F7 pelo Vasco.

"Infelizmente o futsal virou um mercado. Os pais, eu vejo isso porque meu filho também joga, colocam as crianças como uma solução para vida. A criança vira a "última folha de cheque do talão" daquela família. Mas criança é criança. No nosso país infelizmente é assim. O garoto de 8 anos vira um produto e o empresário quer logo tirar do Brasil. O futsal perde muito com isso", lamenta Vander Carioca.

Frente à impotência dos clubes cariocas, Vander Carioca revela que foi obrigado a retornar ao Rio de Janeiro por conta de problemas pessoais na família. E foi parar no F7 do Vasco por falta de um time de futsal na Cidade Maravilhosa. Para ele, também não há mais paixão e dedicação dos dirigentes.

"A Federação cobra taxas altíssimas, mas falta organização aos clubes. Não é possível que esses clubes de bairro não consigam mobilizar o comércio local em troca de faixas (de publicidade) na quadra. Claro que antigamente era mais fácil. Falta gente dentro dos clubes que seja mais apaixonada pelo clube e pelo futsal", disse o craque. No Mello Tênis Clube, o cenário de falta de patrocinadores se repete.

O futsal no Rio está deixado de lado, talvez só no Sul do país que não. As crianças estão no futsal para aparecer e depois ir para o campo. Nós não temos apoio financeiro de ninguém e é muito difícil atrair investidores”, disse André Luiz da Silva Machado, diretor de futebol do clube da Vila da Penha.

'O Salão do Rio' relembra os clubes cariocas no topo do futsal nacional

Célio Jardim (Treinador) e Antonio Alves (gestor), ambos do Jacarepaguá T.C. Reprodução Facebook

No salão carioca, diversos clubes sucumbiram e desapareceram. Outros seguem atuando somente em divisões de base, como é o caso do Jacarepaguá Tênis Clube.

“Hoje não temos (time adulto). O próprio Campeonato Carioca da Federação é difícil de montar um time adulto. Estadual nessa categoria tem mais fora, em São Paulo, Santa Catarina e Rio Grande do Sul. Os clubes pequenos não têm recursos e o adulto requer isso. No Rio, infelizmente, essa categoria está defasada. Tem muitos clubes com sub-20 no máximo”, admitiu o gestor do Jacarepaguá, Antônio Alves.

O tradicional Centro Cívico Leopoldinense não teve os mesmos recursos do Jacarepaguá para manter nem mesmo os times de base. Sem fontes de renda, o clube não sabe como, ou quando, retornará aos torneios de futsal.

"Basicamente é o aporte financeiro (que atrapalha). Sem isso, não conseguimos fazer nada. Uniforme, bolas, redes, salários de funcionários, nada disso temos condições de custear. Hoje os campeonatos têm custo de arbitragem, transporte de jogadores, lanche, exames médicos. É tudo muito caro. Nosso quadro social é bem pequeno, é nossa menor renda. Mantemos algumas atividades paralelas como o aluguel de quadra", comentou Celso Silva de Lemos, presidente do Centro Cívico Leopoldinense.

Com os pés no chão, o presidente do Centro Cívico não pensa em cometer nenhuma loucura financeira para retornar aos torneios de futsal.

"Os clubes em geral estão assim (quebrados). Dívidas com governo, ou com prestadoras de serviços e trabalhistas. No nosso caso, ela foi herdada. Talvez as nossas antigas administrações tenham trocado taças por essas dívidas. Hoje pagamos isso. Em contrapartida, não conseguimos montar times. Fazemos uma coisa ou outra”, completou.

Ginásio do Grêmio Rocha Miranda pode ser fechado pelo Corpo de BombeirosReprodução Facebook

O fluxo de visitantes e associados também é um fator significativo para os clubes. Alguns, até hoje, encontram nos sócios sua principal fonte de renda. Na Zona Norte, a falta de laudos e exigências do Corpo de Bombeiros podem fechar o tradicional Grêmio Social Esportivo Rocha Miranda.

"Eu estou com duas multas do Corpo de Bombeiros. Eles me avisaram que na terceira vão fechar o clube. Depois do incêndio lá na boate (Kiss) isso virou uma exigência, mas são muitas: sprinkler na quadra, saída de emergência, porta corta-fogo, essas coisas. Os extintores eu tenho, mas acho que são muitos pedidos para um clube antigo, que está precário e que só quer alugar a quadra. Não estou com condições de fazer", lamentou o presidente do Grêmio Social Esportivo Rocha Miranda, Wendell Ferreira.

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Fundador da Federação Carioca de Basquete e uma das referências do esporte em nível nacional, a A.A. Vila Isabel não disputava jogos da modalidade há 40 anos. Tabela de basquete e traves de futsal foram doadas pelo político Chiquinho da Mangueira. O clube só teve o trabalho de reformá-las e já planeja o retorno ao futebol de salão para o segundo semestre deste ano.

“Ele (Chiquinho) foi um cara espetacular no nosso caminho de retorno ao esporte. Se ele não desse isso, eu não seria o que iríamos fazer. Só a tabela de basquete custa R$ 25 mil o par. Era totalmente inviável. Nossas traves não eram no modelo exigido pela Federação. Foram vários parceiros, mas ele foi principal. Como um clube de bairro, nós estamos conseguindo envolver os pais dos atletas para não morrer. Meu filho joga no Fluminense, mas eu quero que ele venha jogar aqui. A gente precisa de gente como vocês da imprensa que procuram os clubes pequenos para dar voz, porque senão nós vamos acabar”, disse Jorge Mendes, vice de esporte da Associação Atlética Vila Isabel.

“As pessoas entram no clube e tratam com desleixo, não zelam e ver isso não é fácil. É uma missão muito grande. Estamos com uma Olimpíada batendo na nossa porta. O Carioca de basquete feminino são quatro times, no masculino são oito, e como faz? Se o Vila não entrasse, não teria campeonato por falta de times em várias categorias. O futsal ainda consegue se destacar mais um pouco”, completou o dirigente de Vila Isabel.

Equipe de basquete do Vila Isabel%2C antes de iniciar seus treinamentos no ginásio reformado e com novas tabelasRafael Arantes / Divulgação

Para quem viveu os tempos áureos do futebol de salão no Rio, como José Marcos Braziellas, vice de esportes do Sport Club Mackenzie, a falta de apoio das entidades públicas e empresários privados é angustiante.

"Eu sou muito saudosista. Sou treinador desde 1978. Esse esporte era muito mais agradável. Tinha muito mais apelo. A captação dos recursos é muito difícil. Não sei se é pelo fato de não ser um esporte olímpico, apesar de ter bastantes países praticantes e confederações pelo mundo. Acho que essa é a grande dificuldade. As empresas não apostam no possível retorno. Nem elas, nem o Estado, nem o Governo. É questão de botar o dinheiro e ajudar. Tem criança aqui, e se tem criança envolvida merecia um apoio. Não é um desabafo. É um lamento", disse o dirigente.

Na briga para achar um culpado pela queda de rendimento do futsal no Rio, sobra até para os clubes grandes e para os pais dos aspirantes a atletas.

"Os times de camisa (Botafogo, Flamengo, Fluminense e Vasco) inscrevem 80 jogadores. Eles vão em cima de você e pegam os seus atletas. Com essa quantidade de crianças em uma categoria, nem todo mundo consegue jogar. E ficam lá inscritos, só treinando. Mas na verdade, a culpa é dos pais que se submetem a isso. Eles acham que a criança será o trampolim da família só porque está em um clube desses", disse o vice de esportes do Mackenzie, que também contou como faz para manter seu departamento em atividade.

"Eu não tenho patrocinador master. Faço ações pontuais de publicidade: banner, estampa em camisas, apoio sem divulgação... É uma "cambalhota" para sobreviver. Mas estou no Mackenzie há 13 anos e tem dado resultado", encerrou o cartola do clube do Méier.

Marco Antônio Cabral(Secretário estadual de Esporte%2C Lazer e Juventude) e Marcos Braz (Secretário municipal de Esportes e Lazer)Divulgação / SMEL

Secretaria Municipal de Esporte e Lazer responde revindicações

A reportagem do DIA entrou em contato com a Secretaria Municipal de Esporte e Lazer, gerida pelo secretário e ex-dirigente do Flamengo Marcos Braz, para buscar algumas respostas, ou soluções, no intuito de ajudar o futebol de salão a se reerguer na cidade. Entre as promessas ouvidas, destacam-se: aproximação com a Federação e exoneração de taxas, além do pedido para a criação de uma associação das federações de diversas modalidades esportivas.

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O departamento jurídico da Secretaria já trabalha na elaboração de um estatuto para a criação de uma associação ou de uma liga de federações capaz de receber investimentos e repassar aos seus filiados os recursos que serão captados, mantendo contato com as seguintes federações: basquete, vôlei, ginástica, esportes aquáticos, caratê, remo, tênis, beach soccer, judô, boxe, futsal, atletismo e handebol.

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Devido à falta de certidões negativas de débito (CNDs), elas ficam impedidas de receber esses investimentos. Como suas dificuldades são muito grandes para que possam regularizar suas situações, a Secretaria está buscando um meio legal de socorrê-las. Por isso a ideia da criação de uma associação ou de uma liga de federações, nova e livres de pendências, para que por meio dela se possa captar esses recursos e repassá-los às federações.

Pontapé para a criação de uma associação de federações já foi dado. Projeto promete auxiliar na captação de recursos financeiros para os esportes, Na foto, os representantes de algumas federações carioca junto aos secretários, Marcos Braz (Prefeitura) e Marco Antônio Cabral (Governo do Estado)Divulgação / SMEL

Seguem as respostas reunidas em uma nota.

“A Secretaria Municipal de Esportes e Lazer do Rio de Janeiro tem como missão fazer inserção primária no esporte e inclusão social com atividades esportivas e de lazer. Não temos hoje o foco voltado para o trabalho com alto rendimento.

No entanto, sensíveis às dificuldades de todas as modalidades praticadas no Rio, dentro dessa linha da iniciação esportiva, a SMEL e a Secretaria Estadual de Esportes, Lazer e Juventude, através dos secretários Marcos Braz e Marco Antônio Cabral, têm mantido reuniões com os presidentes de federações (inclusive Kennedy Abrantes, presidente da federação carioca de futsal), na tentativa de ajudá-los a viabilizar a produção da base.

A SMEL é responsável por 21 Vilas Olímpicas e mais de 460 núcleos de Projeto Rio em Forma Olímpico. São mais de 100 atividades, entre esportivas e de lazer, com mais de 60 mil alunos inscritos, entre crianças, jovens, adultos e terceira idade, com ou sem deficiência física. Dentro desse universo desenvolvemos atividades de futsal para convencionais e para PCDs (pessoas com deficiência).

O objetivo da SMEL é aproveitar o advento olímpico para deixar um legado social para a cidade do Rio de Janeiro. Oportunizar possibilidades de melhora nas condições sociais do cidadão carioca, usando o esporte como meio. Estimular a criança carente a desenvolver carreira (acadêmica ou de campo) no esporte, proporcionando os primeiros passos. Incentivar o público adulto e da terceira idade a se movimentar e a deixar de lado o sedentarismo, melhorando sua qualidade de vida. Facilitar a socialização e a integração da pessoa com deficiência ao seu meio e ao mercado de trabalho.

Mas nossa preocupação com o futsal é tão grande que há uma parceria em andamento, estudando ações coordenadas entre as secretarias municipal e estadual de esportes, no sentido de desonerar os clubes, subvencionando algumas cargas (taxas de arbitragem, por exemplo). Com essa economia, os clubes passariam reinvestir o que se deixou de pagar na melhoria da sua produção de base.

Enxergamos que o esforço para fortalecer os clubes precisa ser coletivo, envolvendo o poder público, as federações, os próprios clubes e a iniciativa privada. Para isso, estamos dispostos a ajudá-los na captação de recursos privados e na utilização da Lei de incentivo. Para isso, sugerimos a criação de uma associação de federações que, de posse das certidões negativas de débito, possa captar os recursos governamentais já existentes e os privados também, através das Leis de incentivo ao esporte.

Uma parceria entre clube e prefeitura é viável e algumas já são desenvolvidas, como a com a Federação de Atletismo do Rio, que já utiliza a Vila Olímpica do Mato Alto para as suas competições.

Essa, inclusive, foi uma das sugestões encaminhadas aos presidentes de federações pelo secretário Marcos Braz. Ceder as instalações das Vilas Olímpicas do município, ao valor apenas de custo (iluminação, limpeza...), para a realização de competições e ações de suas modalidades. Economizando nos altos valores de aluguel, por exemplo, que são cobrados hoje pelas donas e pelas concessionárias das praças de esportes.”

Assessoria de Comunicação da Secretaria Municipal de Esporte e Lazer do Rio de Janeiro

Reportagem de Victor Abreu. Colaborou Edsel Britto

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