Contra o 'futebol moderno', torcidas de esquerda ganham apoio no Rio

Comuna Rubro-Negra e Fluminense Antifascista têm uma postura contrária à elitização e à opressão no esporte brasileiro

Por O Dia

Rio - Historicamente no futebol brasileiro, a política teve participação na construção do esporte, tanto dentro como fora de campo. Nos anos de 1930 e 1940, por exemplo, o presidente Getúlio Vargas utilizava o recém inaugurado estádio do Vasco, em São Januário, para realizar os seus discursos. Nos anos 80, a Democracia Corintiana ameaçava a Ditadura Militar com a postura firme e a rebeldia dos seus atletas. Porém, nos últimos anos, com a chamada "Modernização do Futebol", o esporte acabou perdendo um pouco no país o seu caráter politizador. Na contramão disso, nascem no Rio de Janeiro, alguns seguimentos organizados por torcedores, que têm um pensamento além do campo, e mais popular. Apaixonados pelo futebol, a Comuna Rubro-Negra e o Fluminense Antifascista entram na jogada para impedir que desigualdade no esporte transforme os brasileiros apenas em plateia de um espetáculo mercadológico.

Nos anos 80%2C Sócrates e Cia enfrentaram a Ditadura MilitarReprodução Internet

Tricolores na faixa dos 18 aos 25 cinco anos, nove jovens decidiram tentar quebrar um paradigma no Fluminense. Fundado na Zona Sul do Rio de Janeiro, por imigrantes ingleses, o clube carioca sempre teve a fama de flertar com a natureza aristocrática da cidade. Porém, como um clube de massa que é, o clube das Laranjeiras tem um lugar importante na popularização do esporte. Pensando nisso, e também no combate aos preconceitos de gênero, racial e sexual, que os jovens resolveram montar o Fluminense Antifascista.

"Sempre existiu no ideário do tricolor e frequentador de arquibancada e militante de esquerda, a vontade de criar um segmento. Todo torcedor progressista em algum momento deve incomodado com o silêncio na favela ou time de viado... Contudo, veio tomar força e fazer nos organizar com o processo de modelização estética e ideológica do nosso futebol. Quando cada vez mais reparamos que o fator que mais encantava no futebol estava se perdendo, sem rodeios: o povo. Aquele trabalhador pobre e sofrido que traz ao meu ver todo romantismo e a essência do futebol. A gente surge para mostrar que existe uma galera que está de olho nisso tudo, e que não está gostando. Surgimos com intenção de devolver, primeiramente, o esporte ao povo", afirmou Rennan Fields, um dos membros.

Fluminense Anti-Fascista fez faixa de apoio aos professores de CuritibaReprodução Internet

Recentemente, os torcedores do Flu levaram uma faixa para o Maracanã, no duelo contra o Joinville, na estreia do Brasileirão, para se solidarizar com os professores de Curitiba, devido aos atos de violência que aconteceram na capital paranaense, numa crítica ao governador do PSDB, Beto Richa.

Membro também de uma fundação aristocrática na Zona Sul do Rio de Janeiro, o Flamengo se popularizou com o futebol brasileiro. Dono da maior torcida do Brasil, o Rubro-Negro viu nascer em São Paulo um dos seus segmentos de luta contra a elitização no esporte. A Comuna Rubro-Negra, que utiliza uma página no Facebook, com mais de mil seguidores, conseguiu romper a plataforma digital para se mobilizar.

"A ideia da torcida é anterior à criação da página, pode-se dizer que é anterior até mesmo ao primeiro Grupo formado no Orkut por um militante de São Paulo. Já realizamos algumas reuniões e temos um fórum intenso de discussões pelo Facebook , pra além da nossa página que avança a cada dia e tem um alcance significativo dado seu pouco tempo. Alguns são Sócios Torcedores, Sócios do Clube (proprietário, patrimonial ou simples associados) e temos também aqueles que creem que qualquer tipo de modalidade de associação corrobora com o aumento da exclusão, como no caso dos “Geraldinos” e da população mais pobre que caracteriza nossa torcida, impedidos de irem ao estádio por uma crescente elitização. Muitos do Grupo se conhecem de movimentos sociais como o estudantil, sindical, ou do meio acadêmico. Acredito que a ideia da Comuna possa ter pairado na cabeça de várias pessoas em tempos distintos, pois é óbvia: “O Flamengo, o time do povão, unifica a Esquerda", disse Luiz Felipe Thomaz, um dos integrantes da Comuna.

Comuna Rubro-Negra se reúne para assistir jogo do FlamengoReprodução Internet

Recentemente, Flamengo e Fluminense ficaram no mesmo lado de uma luta política envolvendo a Ferj, Botafogo e o Vasco. O motivo do embate seria a questão dos valores do ingresso do Carioca. Enquanto os tricolores e flamenguistas gostariam de negociar os valores da entradas diretamente com o administrador do Maracanã, a Ferj, como o apoio do Vasco, do Botafogo, e dos clubes pequenos manteve os valores estabelecidos por ela própria. Sobre esse assunto, os dois segmentos têm uma leve discordância. Enquanto o Fluminense Antifascista vê na figura de Eurico Miranda um mal ao futebol, a Comuna Rubro-Negra enxerga em toda a cartolagem uma postura adversa às suas ideologias.

"O descontamento sobre esse assunto é geral. Na Ferj há figuras que só fizeram nosso esporte andar para trás. Eurico e cia são os maiores responsáveis pela estagnação do futebol carioca", afirmou Rennan. "Acreditamos que essa discussão seja secundária frente ao desafio imposto pela pauta do Bom Senso FC, e que foi incluída na MP do Futebol (Profut), tão combatida pela cartolagem que prefere a atual desregulamentação, pois assim podem seguir com seus poderes e privilégios intactos." opinou Luiz.

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