Reunião na CBF tem até conselho sobre o comportamento do técnico Dunga

Encontro para melhorar o futebol brasileiro aborda conceitos táticos, técnicos e até preocupação com a base. Ernesto Paulo aprova troca de experiências e conta detalhes do bate-papo

Por O Dia

Rio - Para recolocar o futebol brasileiro novamente no rumo das vitórias, a Confederação Brasileira de Futebol (CBF) promoveu, nesta segunda-feira, uma reunião de ex-treinadores com os integrantes da comissão técnica da Seleção. O encontro faz parte da pauta de tarefas do Conselho de Desenvolvimento Estratégico do Futebol Brasileiro, criado para pensar e melhorar o futebol do país e planejado antes mesmo de o Brasil amargar uma eliminação precoce na Copa América. 

Dunga ouve%2C com atenção%2C conselhos na reunião na CBFDivulgação

"Essa reunião já estava programada bem antes. As pessoas acham que só chamaram a gente porque perdeu na Copa América e não foi bem assim", declara Ernesto Paulo, que participou do primeiro encontro. Outras reuniões devem ser realizadas.

Candinho, Carlos Alberto Silva, Carlos Alberto Parreira, Falcão, Sebastião Lazaroni e Zagallo também estiveram na sede da CBF e participaram da reunião. Uma "pirâmide do futebol", idealizada por Pareira, foi estabelecida como pontapé para o debate e ajudar na melhoria do futebol brasileiro.

"Falamos muito sobre a pirâmide do futebol: na base estão os clubes e a infraestrutura; em seguida, a qualificação e formação dos treinadores; calendário; gestão, que hoje tem de ser moderna, até chegar ao topo, a seleção brasileira", disse Parreira, na saída da sede da CBF.

Ernesto Paulo teve rápida passagem pelo América, em 2014Divulgação

Ernesto Paulo, que comandou o Brasil em um amistoso contra País de Gales, em 1991, e também esteve à frente da equipe que falhou na classificação do Pré-Olímpico de 1992, falou com O DIA sobre algumas pautas do encontro na sede da CBF.

"Vimos que a melhor forma é fortalecer os clubes. A gente também precisa ver a formação de treinadores. Nós precisamos voltar a ter uma metodologia nossa de trabalho. Nós temos nossa identidade, nosso estilo de jogo, não podemos esquecer disso. Perdemos nossa identidade. Os jogadores saem cedo do Brasil. Eles vão para fora e lá é outra escola, outra forma de jogar. Aí, quando é convocado, vem diferente. Isso que precisamos resgatar", comentou. Ernesto usa uma joia do Fluminense como exemplo.

"O Gerson é um garoto que está se projetando no Fluminense. Aí ele vai para Juventus (um dos times interessados no jovem tricolor) e vai sem a nossa base técnica. Ele perde o "tempo" dele. Vai chegar à Itália, tomar um susto, pode não jogar e vai ficando afastado, sozinho... De repente a gente vai perder um jogador diferenciado. Os clubes têm necessidades financeiras e não dá para segurar. Nesse ponto que temos de achar um meio para fortificar e segurá-los", analisou Ernesto, com a experiência de quem conhece o trabalho na base de perto e que foi campeão Sul-Americano Sub-20 com a Seleção em 1991 e da Copa São Paulo de 1990, com o Flamengo.

Ernesto colaborou com suas vivências no Pré-Olímpico de 1992. Na época, o Brasil venceu o Peru (2 a 1), o Paraguai (1 a 0) e perdeu para Colômbia (2 a 0). No último jogo, contra a Venezuela, o time precisava vencer por uma diferença de pelo menos dois gols. O empate em 1 a 1 deixou uma geração, que depois rendeu bons frutos, fora dos Jogos de Barcelona.

"Na reunião, eu falei sobre o desastre do Pré-Olímpico de 1992. Mas, mesmo com o resultado ruim, nós fizemos jogadores campeões naquele time. Cafu, Júnior Baiano, Roberto Carlos, Dener, Marcelinho Carioca, Márcio Santos... todos eles foram jogadores com carreiras consolidadas. Tem gente que diz que a base precisa apenas formar. Eu já acho que tem de formar e ganhar. Você pode não ser campeão, como não fomos naquela época, mas tem de estar sempre nas primeiras colocações", disse Ernesto.

A atenção de Dunga, no encontro promovido pela CBF, também foi elogiada pelo ex-treinador. O atual comandante da Canarinha ouviu os conselhos técnicos, táticos e até comportamentais.

"Dunga ouviu tudo de forma muito aberta. Ele falou sobre as questões da parte dele. O Zagallo, Parreira e o Lazaroni falaram mais, até pela experiência maior deles. O Lazaroni falou sobre o comportamento do Dunga. Às vezes o treinador se perde um pouco, é muita gente criticando. O comandante tem de se prevenir porque ele é sempre um alvo", revelou.

Confira outros tópicos do bate-papo com Ernesto Paulo

Experiências na Seleção

Não adianta nas Eliminatórias fazer experiência, não vai ser o momento para isso. A Venezuela tem nove jogadores atuando na Europa. Futebol muda, então a Venezuela já não é mais a mesma coisa.

Ajuda de treinadores estrangeiros

É tudo bem-vindo. Mas acho que o Brasil não precisa. Temos é que melhorar nosso trabalho. o garoto de 13 anos não pode ter o mesmo treinamento do que o de 20. Nós precisamos formar atacantes, pontas, meias... e fazer centros de formação para treinadores. Nós temos que unir nossa classe para voltar a ser o que era.

Estilo de jogo

Antigamente os caras (treinadores) iam e trabalhavam os jogadores, era cabeçada, passe, finalização... hoje a gente está sem identidade. Nosso esquema não pode ser só depender do Neymar, temos de ter mais opções.

Formação de treinadores

Tem um curso na CBF que custa R$ 8 mil, um rapaz que treina o juvenil não tem como pagar isso. O Marco Polo Del Nero (presidente da CBF) ouviu isso e prometeu fazer alguma coisa.

* Reportagem de Victor Abreu

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