Em protesto contra a Confederação, brasileiros abrem mão de evento-teste

Canoístas cobram instalações melhores e atraso de oito meses no repasse de patrocínio

Por O Dia

Rio - O que serviria como um teste virou uma oportunidade de protesto. Isaquias Queiroz, Erlon de Souza, Nivalter Santos e Ronilson de Oliveira não vão disputar o evento-teste, na Lagoa Rodrigo de Freitas, para a Olimpíada do Rio. Os atletas reclamam da Confederação Brasileira de Canoagem (CBCa), que, de acordo com eles, não repassa, há oito meses, o patrocínio do BNDES. Além disso, há insatisfação com as instalações oferecidas. Os canoístas estão alojados na Escola do Exército e acordam todos os dias às 5h com o aviso sonoro, devido à rotina do local.

"Uma das causas é o respeito que o atleta deve ter e não está acontecendo na nossa modalidade. Essa decisão vem de antes do Mundial, é uma forma de protesto para a Confederação respeitar os resultados que estamos dando. E não é qualquer coisa, é vaga olímpica, medalhas em mundiais, títulos inéditos. Nosso esporte cresceu bastante e esses méritos são de todos, mas se a equipe de canoa não estiver o Brasil não alcança certo nível. Então devem ter mais respeito pela gente. Parece que não correm atrás, oito meses é muito tempo. Como vamos divulgar um patrocinador que não paga", desabafou Isaquias.

O problema vinha sendo discutido pelos atletas há algum tempo. A insatisfação só cresceu. No Mundial, os atletas não queriam usar a camisa oficial, com a logo do BNDES. Agora, resolveram protestar contra a Confederação. A entidade alega que tudo não passa de um mal-entendido. De acordo com João Tomasini Schwertner, presidente da CBCa, como o pagamento do BNDES é em forma de lei de incentivo ao esporte, aconteceu um atraso burocrático, em fevereiro, para a liberação da verba e só foi resolvido em agosto. O dirigente afirmou que fez um acordo com o COB e que o Comitê Olímpico Brasileiro pagaria, neste tempo, o salário dos atletas.

"Eles têm a posição deles, mas é lamentável. Eles entenderam mal, o Comitê cobriu o valor que deveríamos pagar durante esse atraso, ninguém ficou desassistido. Eles não ficaram sem receber os R$ 88 mil referentes a esses oito meses. Houve atraso na liberação da verba via Lei de Incentivo Fiscal, mas foi liberado em 20 de agosto. Entregamos o contrato aos atletas na quinta-feira, quando eles assinarem voltam a receber da Confederação e o Comitê para de pagar", declarou o presidente, negando que haverá qualquer tipo de punição para os quatro: "Não estou falando em punição, o Isaquias é esperança de medalha da canoagem e o Jesus (Morlán) é um excelente técnico. Estamos contanto com todos eles para a Olimpíada".

Os atletas interpretam de outra maneira, argumentando que o COB vem pagando em dia, mas não recebem nada da Confederação. João Tomasini responde que o COB está pagando, sim, por um pedido da CBCa. Um dos problemas aconteceu por causa da divisão entre as modalidades. Os quatro atletas foram para o CT de Lagoa Santa, o que teria atrasado o repasse da verba do BNDES, segundo a entidade. Entretanto, os atletas que treinam no CT de Curitiba, onde fica a Confederação, receberam sem problemas.

"O grupo do CT de Curitiba todo mundo recebe, a sede da Confederação é lá. Nosso grupo vem sempre sendo bloqueado de alguma forma. É papel que falta, prefeitura que atrasa. Até agora nada. Já se passaram oito meses e se não fosse o Comitê Olímpico e o governo com certeza não teríamos dois campões mundiais, classificações mundiais. E o presidente não enxerga isso. Queremos uma solução para o nosso problema", afirmou Nivalter.

Atualmente, os quatro atletas recebem R$ 11 mil do COB. Esse valor deveria ser de R$ 8 mil para dois deles, mas houve o nivelamente para todos receberem a mesma coisa. Além disso, cada um recebe R$ 8 mil de bolsa-pódio, um incentivo do Governo Federal. A partir de setembro, com a promessa de que a Confederação já terá o dinheiro do BNDES, Isaquias e Erlon, medalhistas de ouro no Mundial deste ano, passarão a receber R$ 15 mil. Os outros dois, entre R$ 8 mil e R$ 11 mil.

Reclamação do alojamento

Outro motivo de reclamação foi o local onde os brasileiros estão hospedados. Eles não gostaram de ficar na Escola do Exército, na Urca, queixando-se das condições do quarto e do barulho no início da manhã.

"Eles passam a imagem de que esse trabalho está sendo feito pelo BNDES e pela Confederação, mas não é isso que acontece. Nosso grupo é amparado pelo Comitê Olímpico. E a Confederação faz esse evento no Rio e coloca nosso treinador (e os atletas) para dormir em beliche, em um local em que cinco horas da manhã tem apito para acordar. Estamos fazendo trabalho excelente e precisamos de respeito. Tem dinheiro para pagar o campeonato brasileiro, R$ 550 mil, e não tem dinheiro para colocar os atletas em um local ideal? Os atores principais estão aqui, nós que vamos trazer alegria aos brasileiros", afirmou Nivalter.

Existe a possibilidade de as instalações serem utilizadas na Olimpíada. Isaquias não aceita.

"Nem a pau vamos dormir nesse local na Olimpíada, não tem como ficarmos até porque é o Comitê Olímpico que decide e ele está sempre apoiando o esporte. Quero saber em que hotel o presidente está dormindo."

O presidente da Confederação não vê problema no local onde eles ficaram: "Onde a vela ficou hospedada no evento-teste? No mesmo local. Eu estou num apartamento com a minha família, porque viemos passar o feriado no Rio."

O evento-teste na Lagoa vai até domingo e tem como utilidade avaliar pontos como o sistema de cronometragem e instalaçãoes de olho para a Olimpíada de 2016, entre outros.

Últimas de Esporte