A um ano da Paralimpíada, histórias de superação alimentam o sonho do ouro

João Vitor Teixeira e Willians Silva são esperanças de medalha

Por O Dia

João Vitor é o 11º no ranking mundial do lançamento de disco classe F37Márcio Mercante / Agência O Dia

Rio - Transpiração e superação são virtudes essenciais para quem está acostumado a irromper as barreiras da limitação física com um semblante tranquilo. Estar com o espírito em movimento, como diz o lema paralímpico, é uma necessidade e característica marcante de João Vitor Teixeira, 21 anos, e Willians Silva, 23. Ambos souberam transformar a deficiência física em ouro e são esperanças de medalha para o Brasil em 2016. A contagem regressiva de um ano para a Paralimpíada começa nesta segunda-feira e a dupla espera um futuro tão glorioso quanto o presente.

Superatleta, João Vitor é 11º no ranking mundial do lançamento de disco classe F37, mas é no arremesso de peso que ele possui seus melhores resultados. O ouro no Parapan de Toronto, no mês passado, foi um prêmio para quem viu o sonho de ser atleta quase ruir, após ser submetido a uma cirurgia na cabeça para a remoção de um coágulo. Ainda adolescente, João teve comprometidos os movimentos do lado esquerdo e precisou se reinventar. Migrou para o arremesso e transformou seu sofrimento em glória.

“A adaptação não foi fácil, mas sempre encarei com bom humor. Tinha vergonha de sair na rua, não gostava que as pessoas vissem como eu andava, mas prometi a mim mesmo que não ia parar de correr depois que voltasse a andar. Hoje eu venci a hemiplegia que tive e me considero um campeão”, diz.

João Vitor foi medalha de ouro no Parapan no arremesso de pesoDivulgação

Se João venceu com êxito os percalços que a vida o impôs, Willians Araújo enxergou com o coração para tomar a decisão mais difícil da vida. Após perder a visão, em um acidente com uma arma de chumbinho, o jovem deixou a pequena Riachão do Poço, na Paraíba, e mudou-se para o Rio. Em 2004, foi acolhido no Instituto Benjamin Constant, mas o judô só entrou em sua vida quatro anos depois. Na Urca, sua caminhada ganhou um novo rumo, que culminou com a prata no Parapan.

Willians Araújo treina de olho na medalha de ouro da ParalimpíadaCarlos Moraes / Agência O Dia

“O médico disse que se a bala tivesse acertado dois centímetros abaixo eu teria morrido. Então pensei: ‘Perder a visão é pouco perto disso’. Não adianta chorar. Tenho de ser feliz com o que sobrou”, afirma Willians. “Os nossos olhos são a nossa audição. A facilidade que tenho para me locomover vem do esporte. Eu não passei por experiência como cair do ônibus graças ao judô”, completa.

Os dois são trunfos para colocar o país entre os três primeiros no quadro de medalhas da Paralimpíada, um sonho que até pouco tempo era só ilusão.

“Eu não tinha muita fé em mim para 2016, mas eu parei para pensar que já passei por tanta coisa difícil, tantas barreiras, que coloquei na cabeça que 2016 não será um problema. Sei que sou capaz”, garante João Vitor, que treina na Vila Olímpica do Mato Alto, na Praça Seca.

Willians Silva é revelação na categoria B1 (+100kg) e, embora tenha resultados expressivos, é o ouro paralímpico que o move. Para um dia chegar ao topo, ele estruturou sua vida, deixou o Complexo do Alemão e comprou uma casa para a família em Olaria.

“Posso te dizer que tem dias que nem lembro que não enxergo, porque a minha vida é muito normal”, revela, completando: “Estive em Londres e bati na trave. Por isso, desde 2012 que eu durmo e acordo sonhando com uma medalha olímpica”, revela, emocionado.

Willians Silva é esperança de medalhas para o Brasil na Paralimpíada Divulgação

Projeto inovador em busca de talentos

Com a proximidade do Rio-2016, o Clube Esperia, em São Paulo, tornou-se uma das poucas opções para a preparação dos paratletas e surge como oásis no meio do deserto. Na última semana, a direção do clube anunciou que disponibilizará as instalações para cinco modalidades: atletismo, basquete em cadeira de rodas, tênis em cadeira de rodas, tiro com arco e vôlei sentado. Tudo sem apoio.

“Os investimentos são próprios, não temos patrocinadores ou recursos de leis de incentivo. O clube já vem há quatro anos com um programa de futebol para deficientes visuais e por dois anos sediamos os Jogos Nacionais Escolares Paralímpicos”, disse o presidente Armando Perez Maria.

Entre os paratletas que utilizam as estruturas está Sivaldo de Souza, 23 anos, que disputa a categoria T13 do atletismo nos 800m rasos. Líder do ranking brasileiro, ele acredita que a Paralímpiada deixará um legado: “É a chance que mais pessoas terão de conhecer melhor o esporte paralímpico”.

Colaborou Edsel Britto

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