Preocupado com futuro da seleção, Vadão caça jogadoras nas redes sociais

Futebol feminino deverá ter dificuldades quando geração de Marta parar. Seleção permanente é a solução adotada na tentativa de extrair as últimas gotas de sumo das veteranas

Por O Dia

São Paulo - A reportagem não cumpriu o combinado e telefonou para Oswaldo Alvarez, o Vadão, 50 minutos depois do horário acertado. Mas o técnico da seleção feminina não perdeu tempo, que foi suficiente para ele iniciar a garimpagem de uma jogadora. "Vi no Facebook uma foto de uma brasileira que joga no Milan, a Anna Clara. Eu não a conhecia. Já mandei uma mensagem para ela", disse o treinador, preocupado com o futuro da seleção brasileira. "Depois que essa geração, que tem Marta, Formiga, Maurine e Cristiane, parar, eu não sei o que vai ser da nossa seleção".

Essa questão aflige todos que se envolvem com o futebol feminino e seus torcedores. "Nosso leque é muito pequeno. Temos poucas competições e poucos clubes. Joga-se pouco o futebol feminino no país. Não temos competições nacionais Sub-20 ou Sub-17. A captação de talentos é muito lenta", constata o treinador.

De vez em quando, Vadão recebe presentes inesperados, frutos da diáspora da jogadoras, que buscam no exterior formas de encaminhar uma carreira. É o caso da zagueira Rafaelle, que foi para os EUA, onde se formou engenheira civil pela Universidade do Mississippi. Ela abriu mão do contrato que tinha com o FC Kansas City para integrar a seleção permanente do Brasil, motivada para a Olimpíada.

Vadão vê com preocupação o futuro da seleção femininaRafael Ribeiro / CBF / Divulgação

Neste ano que antecede os Jogos Olímpicos, a preocupação de Vadão é extrair a última gota de sumo de veteranas que já proporcionaram duas pratas olímpicas (dos Jogos de 2004 e 2008) e uma da Copa do Mundo, de 2007. Por esse motivo é que foi concebido o projeto da seleção permanente, que o treinador descreve como "uma prisão".

"O (presidente da CBF) Marco Polo Del Nero chamou a comissão técnica da seleção e nos perguntou o que ele poderia fazer agora pelo futebol feminino. Sugeri, nesse momento, que se criasse a seleção permanente. Sei que não é o ideal e muita gente criticou a ideia. A quem tiver uma melhor, eu peço, sinceramente, que nos apresente", diz Vadão que, ao longo de mais de duas décadas de carreira, já comandou o Corinthians, São Paulo e Atlético Paranaense. Suas últimas façanhas foram o acesso do Guarani à Série A, em 2009, e a conquista do título catarinense pelo Criciúma, em 2013.

A seleção está instalada, desde março, em Itu, no mesmo resort em que a seleção japonesa se concentrou para a Copa do Mundo. De lá saiu para disputar o Mundial do Canadá e o Pan. "Nossos campeonatos não oferecem um nível competitivo elevado. O Brasil perdeu muito espaço no futebol feminino nos últimos dez anos. As jogadoras se apresentavam dez ou 15 dias antes de uma competição e, na hora em que a equipe era exigida, ficava a desejar física e tecnicamente. Com a seleção permanente, podemos garantir um nível de preparação física adequado e muito entrosamento".

Na avaliação de Vadão, os resultados já estão aparecendo. Na Copa do Mundo, em junho, o Brasil foi eliminado nas oitavas de final após perder um jogo para a Austrália por 1 a 0. Na primeira fase, contra Espanha, Coreia do Sul e Costa Rica, registrou 100% de aproveitamento. No Pan, competição de nível inferior, o Brasil conquistou a medalha de ouro sem dificuldades. "Somando-se o Mundial e o Pan, vencemos oito jogos e perdemos um, para a Austrália, depois de termos dominado o adversário".

A outra face da moeda é o desgaste acarretado pelo confinamento no hotel. "A gente treina todos os dias e depois cada um vai para o seu quarto. Isso cria um desgaste, é inevitável. Conversamos com as atletas no início do trabalho e criamos mecanismos para minimizar isso. A gente as libera para ir ao shopping depois do treino", por exemplo. 

Outra válvula de escape para o confinamento será a liberação para as jogadoras participarem da segunda fase do Campeonato Brasileiro. Essa etapa começa no final do mês. Haverá um draft para distribuir as jogadoras da seleção pelas equipes classificadas para as oitavas de final.

A seleção permanente, no entanto, é vítima do próprio sucesso. As boas atuações do Brasil no Mundial e no Pan propiciaram aos destaques da equipe propostas para jogar no exterior. Hoje, oito jogadoras da seleção estão atuando fora do país.

*Reportagem de Alessandro Lucchetti

Fonte: iG

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