Andrés Nocioni, o argentino que todos amam odiar, conquista o Real Madrid

Em sua vitoriosa carreira, ele já irritou muitos brasileiros em quadra, mas esbanja cordialidade fora dela. Aos 35, o ala-pivô não para vencer pelo Real e vem para sua quarta Olimpíada

Por O Dia

São Paulo - Andrés Nocioni sabe que está em reta final de carreira. Mas isso não significa que seu basquete esteja por um fio. Aos 35 anos, o ala-pivô argentino vem na sequência mais vitoriosa de sua carreira, defendendo o Real Madrid. Neste domingo, em São Paulo, ajudou o clube espanhol a derrotar o Bauru para ganhar a Copa Intercontinental, o quinto título em cinco finais seguidas. Pablo Laso, o técnico merengue, não titubeia em falar sobre sua contribuição durante este período hegemônico de sua equipe. 

"Cheguei a jogar contra ele e posso dizer que tem algo especial, que não se treina. É algo que carrega dentro de si e que sabia que poderia transmitir para o restante da equipe", afirmou ao iG. "Claro que ele tem um bom arremesso, vai muito bem nos rebotes e outros fundamentos. Mas é o modo como ele joga que faz a diferença. Algo que é difícil de explicar e que foi justamente  por isso que fomos atrás dele no ano passado. Ele nos deu exatamente o que esperávamos." 

Nocioni virá para sua quarta Olimpíada com a Seleção da Argentina no Rio em 2016Gaspar Nobrega / Divulgação/ Inovafoto

Laso, ex-armador, concorda Nocioni é daqueles atletas que você detesta ter de enfrentar, mas adora quando está ao seu lado. Vilão para uns, herói para outros. A despeito da extensa milhagem carregada, com muitas pancadas sofridas e dadas desde que passou a jogar pela equipe adulta do Olimpia Venado Tuerto, da Argentina, há exatos 20 anos, mantém o espírito combativo e a vontade enorme de buscar a vitória o tornaram sempre um personagem à parte nos constantes clássicos entre Brasil e Argentina no decorrer da década. Foram muitas faltas técnicas, provocações, pancadas e vitórias, muitas vitórias nesses confrontos. É o seu modus operandi.

O advesário pode até acusá-lo de deslealdade. Seus companheiros vão apenas destacar a raça incomprável. Foi o jogo que classificou a Argentina para a quarta edição seguida dos Jogos Olímpicos, vindo de três semifinais, incluindo um ouro histórico em Atenas 2004 e o bronze em Pequim 2008.

Por isso, entre tantas estrelas do basquete mundial do elenco madridista que desembarcaram em São Paulo para o confronto com o Bauru, o veterano argentino era das que mais chamava a atenção, mesmo que em sua seleção tenha sido constantemene colocado na condição de coadjuvante do ala Emanuel Ginóbili e do pivô Luis Scola. Pois o comportamento nos bastidores de Nocioni não poderia ser mais diferente do aquele que geralmente apresenta em quadra. 

Num time excessivamente blindado, com pouca interação com jornalistas e torcedores, o argentino destoou, como uma das figuras mais solícitas. Diante do microfone, trocou a expressão de guerreiro por uma de serenidade e cordial, com respostas longas e profundas, de alguém que soube aproveitar cada jogo decisivo em sua jornada para desenvolver uma cultura impressionante sobre o esporte.

Por isso, entre tantas estrelas do basquete mundial do elenco madridista que desembarcaram em São Paulo para o confronto com o Bauru, o veterano argentino era das que mais chamava a atenção, mesmo que em sua seleção tenha sido constantemene colocado na condição de coadjuvante do ala Emanuel Ginóbili e do pivô Luis Scola. Pois o comportamento nos bastidores de Nocioni não poderia ser mais diferente do aquele que geralmente apresenta em quadra. 

Num time excessivamente blindado, com pouca interação com jornalistas e torcedores, o argentino destoou, como uma das figuras mais solícitas. Diante do microfone, trocou a expressão de guerreiro por uma de serenidade e cordial, com respostas longas e profundas, de alguém que soube aproveitar cada jogo decisivo em sua jornada para desenvolver uma cultura impressionante sobre o esporte.

“Vim para o Madrid para isso, não? Obviamente que talvez você não esperasse ou pensasse em ganhar todos os títulos que disputou, mas vim com ambição e muita vontade de poder jogar finais. Por sorte, nesta temporada estive em todas as finais possíveis. Não tem como não ficar contente com isso”, afirma o “Chapu”, seu apelido, em referência a um dos célebres personagens do humorista mexicano Roberto Bolaños, o Chapolim Colorado. A razão é por que, quando mais jovem, tinha o cabelo ruivo.

“Estive por oito anos na NBA, e para mim foi um paraíso. Mas esse período também me impediu de ganhar mais títulos em um basquete de maior competitividade como o europeu. Tentei esses títulos em retorno ao Baskonia, mas não deu certo”, disse, citando o clube espanhol que o tirou da Argentina em 1999 anos, e pelo qual se consagrou inicialmente na Europa, antes de defender Chicago Bulls, Sacramento Kings e Philadelphia 76ers nos Estados Unidos. “Tomei a decisão de sair, e me doeu muito a princípio. Mas foi uma decisão que apenas um jogador ambicioso pode tomar. Poderia muito me acomodar, já que havia pouco o que ganhar na minha vida. Mas me faltava o título da Euroliga. Eu o queria.”

Nocioni tem essa mania: de lutar tanto pelo que ambiciona, até conseguir. Vem daí o estilo de jogo agressivo e arrojado em quadra.  É aí que o discurso de Nocioni coincide com o de seu ex-adversário e agora treinador, Laso, ainda que com um pouco de modéstia ao falar sobre seus talentos em quadra.

“Meus companheiros foram os que me levaram à final da Euroliga porque minha temporada não foi brilhante, sinceramente falando. Eles me colocaram nessa posição, e aí assumi que tinha de lutar muito para que o título não nos escapasse”, afirmou. O Real já havia perdido as decisões de 2013 e 2014. “Se uma equipe aposta em mim e me dá uma oportunidade destas, vou dar tudo o que tenho em quadra. Nunca neguei uma gota de suor. Não sei jogar de outra maneira. Vim dar algo distinto à equipe, e todos sabiam o que era isso. Tenho uma marca registrada e não vou mudá-la agora.”

Perguntem ao armador Sergio Rodríguez, e ele certamente vai dizer que não há por que alterar, mesmo. “Tê-lo agora em nossa equipe é uma benção”, afirma. “Nos meus tempos de juvenil, quando estava no Bilbao e ele jogava pelo Baskonia (ambos os clubes na região do País Basco), todos queríamos o Chapu. Depois pude coincidir com ele em Sacramento e descobri como era grande. Quando o reencontrei o Real, tinha a confiança de que nos momentos importantes, ele se imporia com caráter, e tem sido assim.”

Esse caráter também segue à disposição da Argentina. Por anos se especulou quando chegaria Nocioni e alguns dos protagonistas da chamada “Geração Dourada” se despediriam da seleção. Com responsabilidades reduzidas pelo Real, sem precisar ser o protagonista a cada jogo ou semana, o veterano chegou em plena forma ao final da temporada e foi crucial na classificação do país ao Rio 2016. Ao lado de Luis Scola, conduziu um renovado grupo à final da Copa América, valendo a vaga.

“Foi um torneio incrível no qual conseguimos nossa classificação olímpica para manter um projeto, uma ideia de seleção argentina que já dura há muitos anos. Será nossa quarta edição de Jogos Olímpicos. Sinceramente me sinto muito orgulhoso de todo esse processo. Fomos com uma equipe jovem, de inexperientes em sua maioria, mas conseguimos uma classificação incrível. Obviamente que tivemos um sabor amargo ao não conseguir o título no final contra a Venezuela. Para nós, porém, terminou sendo um torneio importantíssimo, porém, para manter a equipe no maior nível mundial.''

A não ser que um acidente, como uma lesão grave ocorra, Nocioni voltará às quadras brasileiras em breve. Apesar da inesperada cordialidade fora de quadra, quando a bola subir, os torcedores já sabem o que esperar: um esforço desmedido em quadra. Ele não vem a passeio, doa a quem doer. 

Giancarlo Giampietro

Fonte: iG

Últimas de Esporte