Na rodada natalina da NBA, Curry tenta confirmar novo status diante de LeBron

Armador dos Warriors é favorito para ser o MVP da temporada. Pelos Cavaliers, James tenta provar que não é bem assim

Por O Dia

Estados Unidos - Quando se preparava para o Jogo 6 das finais da NBA da temporada passada, LeBron James ainda se mostrava confiante. Tanto de que seu Cleveland Cavaliers ainda tinha chances de virar o placar geral contra o Golden State Warriors, que estava a uma vitória do título, como de que, para conseguir a virada, ainda poderia se impor em quadra. “Eu me sinto assim porque sou o melhor jogador do mundo”, justificou. “Simples assim.”

Era 15 de junho deste ano, e o craque dos Cavs vinha numa sequência tão arrasadora, que tinha o direito de bradar o que bem entendesse. Suas médias eram de impressionantes 36,6 pontos, 12,4 rebotes e 8,8 assistências. No duelo decisivo, nem seus 32 pontos, 18 rebotes e 9 assistências adiantaram. Os Warriors foram campeões.

Lebron James e Stephen Curry são os principais nomes da NBA e se encontram na noite de NatalEfe

Naquela série, a impressão geral era a de que o melhor time havia vencido, superando o melhor jogador. Cinco meses depois, contudo, em Oakland, casa dos Warriors, no reencontro entre os dois últimos finalistas na sempre especial rodada natalina da NBA nesta sexta-feira, a equação parece ter mudado. O jogo começa às 20h (de Brasília). A ESPN Brasil transmite.

Os Warriors seguem como a melhor equipe da NBA, com 27 vitórias em 28 partidas, numa campanha já histórica. Quanto ao melhor atleta, hoje está difícil apontar qualquer outro nome que não seja Stephen Curry, o armador da franquia californiana.

Revolução Curry

Até mesmo os companheiros de elenco se surpreendem com o nível de jogo apresentado pelo superastro, por mais que o acompanhem no dia a dia de treinos. Com mais de um quarto da temporada completo, Curry aparece como o favorito disparado ao prêmio de MVP (Jogador Mais Valioso) pelo segundo ano seguido, mas não só.

“Ele também deve faturar o prêmio de o Jogador que Mais Evoluiu”, diz o pivô Andrew Bogut, australiano dos Warriors. “Ele é obviametne o melhor jogador em nossa liga, e eu não achava que ele poderia melhorar muito em relação ao que fez na campanha passada. Mas aconteceu”, afirma David Lee, ala-pivô dos Celtics, ex-Golden State.

No momento, Curry tem as maiores médias de sua carreira em pontos (31,2), rebotes (5,4), e roubos de bola (2,2), ainda que fique em quadra por apenas 34,9 minutos. É o cestinha da liga, ao mesmo tempo em que atinge níveis altíssimos de eficiência, com 51,6% nos arremessos gerais de quadra, 44,8% de três pontos e 90,2% nos lances livres.

Stephen Curry é jogo após jogo o destaque do Golden State Warriors nesta temporada da NBAUSA Today Sports

O que mais chama a atenção é o modo singular como ele alcança estes números, combinando muita habilidade com a bola no drible e a mecânica de arremesso perfeita, e veloz. “É como seu eu não soubesse que fosse possível o que ele está fazendo. Porque nunca vi isso”, diz Steve Nash, ex-armador, consultor dos Warriors e ele próprio considerado um dos melhores arremessadores da história.

“Ele pegou o que seus antecessores fizeram e elevou a um patamar inacreditável. Alguns dos chutes que ele tenta seriam impensáveis há 10 ou 20 anos. Quando você leva em consideração o simples fato de ele conseguir arriscar esses arremessos, e ainda põe na conta a pontaria que ele tem, é mais que uma revolução. Acho que ele é o jogador mais habilidoso que já tivemos."

Alvo: Jordan

São palavras fortes as de Nash, e é o que Curry tem ouvido constantemente a cada parada que faz durante as viagens com os Warriors. Isso faz sua confiança crescer, e dá para dizer que ele já estava cheio de moral depois de conquistar seu primeiro título. “Quando estou em quadra, acredito que sou o melhor, pode ter certeza”, afirma. “Não fico pensando nisso, sobre em que ponto seria melhor e esse tipo de coisa. Mas isso é a motivação que tenho quando vou trabalhar.”

O padrão de jogo a que o armador chegou nesta temporada, aliás, já faz analistas, jogadores e a comunidade da NBA em geral a colocar outro tipo de desafio em seu caminho. O astro não joga mais apenas para ser o melhor desta temporada, mas, sim, com a chance de se inserir entre os grandes da história. Afinal, tem apenas 27 anos e está em clara curva ascendente. “É uma montanha alta para escalar, mas estou bastante motivado para encarar esse desafio. Seja lá o que isso signifique ou como você tenha chegado a essa montanha, por que não tentar escalá-la? Tem de tentar, e ao seu modo”, diz.

Stephen Curry tem sido a estrela da temporada da NBA até o momento e vem liderando os Warriors em busca do bicampeonatoEfe

Mas a ideia é escalar até que ponto? Até o topo? Seria possível deixar Michael Jordan para trás? “Sim”, responde, sem papas na língua. Do contrário, por que motivo eu estaria jogando? Você tem de tentar ser o melhor que pode. E, se o melhor que você pode alcançar é algo melhor do que ele, então por que não? Essa é uma boa motivação.”

Aí é um ponto em que Nash discorda. Mas não por considerar Curry incapaz da tarefa. “Não o compararia a Michael Jordan. Não compararia ninguém a Michael”, afirma. “Mas diria que Steph está se transformando numa categoria histórica particular, ao seu jeito.  Ele está no auge de sua carreira, e isso ainda vai durar por alguns anos. Do jeito que ele está melhorando, e o nível em que ele está, é um jeito que nunca foi feito. Sua habilidade para acertar os arremessos e ainda levar a bola e conduzir o time é histórico.”

Sim, não há como equiparar Jordan e Curry, não só por currículo, mas principalmente pelas habilidades completamente diferentes em quadra. Fato, porém, é que os figuram na categoria de atletas que causam um grande impacto para a NBA, para o jogo como um tudo, além do aspecto cultural e econômico. “Se Michael uma coisa completamente diferente, este cara também é. E isso é maravilhoso para o basquete”, afirma Kevin Garnett, pivô dos Timberwolves, que entrou na liga em 1995 para ver o mítico número 23 dos Bulls ainda no auge e agora caminha para a aposentadoria com Curry no topo, em diversos sentidos.

Queridinho da América

O sucesso em quadra se traduz automaticamente par ao mundo dos negócios. Sete das oito camisas mais vendidas da liga neste início de temporada são variações do número 30 do jogador dos Warriors. Em 38 estados norte-americanos, sua camisa é a mais vendida. Além disso, produtos ligados ao astro já foram vendidos em 26 países diferentes, com o Brasil entre eles.

Fora o faturamento com o merchandising, a febre em torno de Stephen Curry passou a ser dimensionada durante os jogos dentro e fora de casa dos Warriors, com algo bastante incomum para as arenas multiuso da NBA: os ginásios estão ficando cheios bem antes de a bola subir. O motivo? Os torcedores chegam cedo para ver a rotina de aquecimento do armador, já legendária.

Geralmente leva uns 15 minutos, nos quais Curry ensaia sua coreografia de dribles, passes e exercícios de arremesso que se tornaram espetáculo obrigatório, encantando o público. “Em relação aos torcedores entrando para ver o aquecimento, nunca vi nada parecido. É como se ele fosse um animal de zoológico”, diz o técnico interino Luke Walton, que já foi companheiro de equipe de Kobe Bryant por oito temporadas em Los Angeles.

E aí entra um fator bastante relevante para entender a popularidade de Curry. Por mais habilidade que exiba, o que ele faz em quadra ainda é considerado factível para muita gente, ao contrário das cravadas estonteantes de Michael Jordan. “Jordan levava a bola lá no alto e finalizava. Mas você não precisa enterrar para tentar ser como Steph. Todo garoto agora olha para e ele e pensa: ‘Posso arremessar e driblar’”, diz o ex-ala e comentarista Reggie Miller. “Você não precisa mais ser como Mike. E Mike era um escroto em quadra. Eu era difícil também. Mas você não precisa ser um escroto para ter sucesso. Steph é a prova disso”, completa.

Curry entende isso. “Eu sou eles, mesmo”, diz. “Obviamente não sou o mais alto ou o mais forte. Então eles me veem em quadra, e eu pareço uma pessoa normal. É so comparar com os outros que estão jogando.”

Apesar de ser a estrela dos Warriors, Curry não tem o maior salário da equipe da CalifórniaEfe

Barganha

E pensar que, em 2012, quando os Warriors renovaram seu contrato, muitos avaliavam que o clube estava fazendo uma aposta de alto risco. Na temporada 2011-12, o armador havia sofrido com lesões crônicas no tornozelo, tendo disputado apenas 26 de 82 partidas possíveis. Sua durabilidade estava seriamente em dúvida.

A franquia decidiu, então, lhe oferecer um contrato de US$ 44 milhões por quatro anos. É uma bolada, certamente. Mas que, para o time, acabou se tornando uma barganha. Para se ter uma ideia, hoje ele é apenas o quinto mais bem pago do elenco, recebendo menos do que Bogut, os alas Klay Thopmson e Andre Iguodala e o ala-pivô Draymond Green.

“Tenho de me esforçar para me lembrar de qual era o contexto na época e desencanar. Talvez pudesse ter tido outra perspectiva e pensar em ganhar o máximo que pudesse, entrando no mercado de agentes livres. Quem sabe o que teria acontecido? Mas, para mim, um contrato US$ 44 milhões ainda é algo que mais do que paga as contas da minha família. Tomei essa decisão e disse para mim mesmo que era a melhor naquele momento.”

O vínculo de Curry com os Warriors vai até 2017. Logo mais, ele poderá compensar o lucro perdido. “Agora estou mais forte, não estou pensando mais em meus tornozelos.”

O outro lado

Em Cleveland, LeBron está faturando US$ 22,9 milhões nesta temporada. Seu plano é exercer uma cláusula contratual ao final do campeonato e aproveitar a elevação do teto salarial da liga para assinar o contrato mais caro da NBA. Sua camisa pode não vender mais como a de Curry, mas sua marca ainda é considerada extremamente valiosa, a ponto de ele ter assinado um contrato vitalício com a Nike que, especula-se, vá lhe pagar US$ 30 milhões por ano.

Aos 31 anos, mas já em sua 13ª temporada, seus números ainda são muito acima da média, com 26,4 pontos (quarto no geral), 6,3 assistências (12º, e segundo entre os alas) e 7,6 rebotes. Ainda está na conversa para o prêmio de MVP, mas um degrau abaixo de Curry, ao lado de nomes emergentes como os de Kawhi Leonard (ala dos Spurs), Paul George (ala dos Pacers), além do armador Russell Westbrook (Thunder).

Ele se sente confortável a ponto de dizer que é bobagem a preocupação com sua média de 36,3 minutos por jogo. “Estou jogando em alto nível, arremessando muito bem e não machuco meu time quando estou na quadra. Se fosse o caso, aí ficaria sentado no banco. Mas me sinto bem. Se a gente fizer nosso trabalho e bater firme em um time, posso descansar no quarto período, não tem problema. Mas, se o time precisa, tenho de jogar.”

LeBron James está motivado em tirar a coroa de Curry e dar primeiro título aos CavaliersWilliam Lucas / Inovafoto / Divulgação

Interna e discretamente, segundo relatos da mídia de Cleveland, o astro dos Cavs manifesta incômodo com o fato de o consenso estar direcionado a Curry, hoje, como o melhor da liga. Em público, porém, ele prefere comparar os times, reiterando desde as primeiras semanas do campeonato que os jogadores do Golden State “parecem mais famintos do que nós”. “Não estou sentado aqui dizendo que é o Armageddon, ou algo assim, mas temos de jogar melhor. Se não nos apegarmos a isso, não vamos evoluir. Nós perdemos as Finais. Não vencemos, perdemos. E o time que nos derrotou está jogando com mais fome. Não era para ser assim.”

Agora, no tão aguardado duelo de Natal da NBA, os Cavaliers, que lideram mesmo assim a Conferência Leste, com 19 vitórias em 26 jogos, têm a chance de atender ao recado do “Rei James” e fazer frente aos Warriors, tentando impor apenas a segunda derrota dos atuais campeões. Pessoalmente, é sua oportunidade de confirmar a frase de alguns meses atrás. Quem é o melhor do mundo? 

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