Por marlos.mendes

Rio - Eu devia ter uns cinco anos quando ouvi falar da Chapecoense pela primeira vez. Lembro que meu pai, Cezar Dal Piva, estava com uma bandeirinha com o brasão do clube todo animado. Acho que tínhamos ganhado um um jogo importante no Campeonato Catarinense, mas isso eu não recordo bem. Ele pegou eu e a minha irmã, Carolina, nos braços. Depois, sentou nos degraus de entrada de casa e explicou que a gente torcia para aquele time verde e branco do índio condá. Eu já curtia o esporte e passei a ser a companheirinha do futebol.

Nossas idas ao estádio eram feitas em uma meia hora de caminhada, coisa que eu nem sentia. A gente ia falando dos jogadores, chutando o tamanho do placar e quando se dava conta já estava lá, na "curvinha" da geral. Os anos 1990 foram tempos de altos e baixos. E teve época de vacas muito magras. O clube até organizava uns bingos para arrecadar dinheiro e fechar as contas. Esse era outro programa que eu e meu velho adorávamos. Nunca ganhamos nada, mas era super divertido. Toda final de Campeonato Catarinense era uma briga. Eu queria ir, mas minha mãe tinha medo da multidão e não deixava. Fiquei aos prantos algumas vezes, torcendo de casa pela TV.

Torcedores foram até a Arena Condá nesta terça-feira em busca de informaçõesEFE

Podia contar mil histórias. Não tem como explicar as emoções provocadas pelo furacão do oeste no meu coração desde a infância. Mas nos últimos anos muita coisa especial estava acontecendo. Uma família de gente competente se formou para dar profissionalismo ao sonho de quem queria ver a Chapecoense ser grande, jogar na série A.

Com os filhos crescidos, meu pai resolveu realizar um sonho de infância e trabalhar com futebol. Começou como voluntário, auxiliando na estrutura física e na organização das categorias de base do clube. O esforço logo foi notado pela diretoria, sobretudo pelo presidente Sandro Pallaoro, e ele se tornou diretor da categoria de base. Meu irmão, Luiz Felipe, já treinava como goleiro nas categorias de base. A coisa foi se transformando, virou familiar e se tornou séria. Todos juntos fomos sonhando um pouco mais.

Meu último jogo na Arena Condá esse ano foi na final do Catarinense em maio, quando ganhamos do Joinville. Enfim a minha conquista desde os tempos da infância. Estive nas finais de 2009 e 2013, mas perdemos as duas. A primeira para o Avaí e a segunda para o Criciúma. Estava quase me achando uma Mick Jagger. Esse ano, espantei a nhaca. Ganhamos em casa de um jeito para ninguém botar defeito. Tiramos foto e tietamos o nosso heroi, o Danilo, um guerreiro atento, simpático e humilde. Não é fácil ser goleiro. Todo mundo lembra de quem faz o gol. Poucos se recordam daqueles que evitam e garantem resultados. Danilo guardou nesse tempo cada defesa incrível... teve até um chute à queima roupa do Robinho do Santos, no ano passado.

Foram muitas festas, churrascos e momentos incríveis que passamos juntos. Sandro Pallaoro é uma das mais gratas surpresas que minha família teve ao conhecer. Um homem batalhador, simples e apaixonado pela Chapecoense. Na semana que vem estaríamos todos juntos em Curitiba sonhando ainda mais alto. Não deu. Hoje infelizmente perdemos grande parte dessa família. A dor é indescritível. De algum modo é como se todos nós estivéssemos um pouco lá. Mais que um time, eram uma família. Algo muito difícil de se encontrar no futebol e o que para a Chapecoense fazia toda a diferença.


Juliana Dal Piva é jornalista apaixonada pela Chapecoense

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