Rogério Micale revela: 'Tenho o sonho de ser campeão brasileiro da Série A'

Após ouro olímpico projeta outros desafios ousados na sequência da carreira

Por O Dia

Rio - Só o inédito ouro olímpico nos Jogos do Rio-2016, em agosto, garantiu a Rogério Micale um capítulo de destaque na vitoriosa história do futebol brasileiro. O regulamento do COI não estende aos técnicos o direito de receber uma medalha olímpica. No entanto, a renovação da esperança do torcedor brasileiro, após o fracasso na Copa do Mundo de 2014, é o maior prêmio que o técnico poderia receber. O orgulho de torcer pela Seleção foi uma importante semente plantada por Micale, que, aos 47 anos, projeta outros desafios ousados na sequência da carreira.

Rogério Micale sonha com conquistas no futebol profissionalRafael Ribeiro / CBF / Divulgação

VIDA PÓS-OURO

“Houve mudanças significativas. Em todas as áreas, com o reconhecimento das pessoas nas ruas. Antes, como treinador de base, não tinha tanta exposição. Depois da Olimpíada, a coisa ganhou uma proporção grande pela conquista.”

NOVAS PROPOSTAS

“O futebol é um meio especulativo. Toda hora aparece uma situação nova, até por nossa característica de mudança a todo momento, diante de um resultado inesperado. Sempre há conversa de saída. Mas me sinto tranquilo na CBF. Tenho possibilidade de levar o trabalho até os próximos Jogos Olímpicos. Se vier a acontecer, seremos claros, mas a princípio estou satisfeito. Eu me sinto feliz de estar numa Seleção. Nada me fez mudar de ideia.”

PLANO DE CARREIRA

“Meu próximo passo é voltar a trabalhar em clube, mas estou no órgão máximo. O sonho de todo treinador é a Seleção. Trabalhei e conquistei algo importante. Estou vivendo o momento intensamente. Parece que tenho muito tempo de CBF, mas é só um ano e meio. É uma etapa da minha carreira e, é lógico, que, como acontece com todo mundo, vai passar e vou viver outra. Tenho o sonho de ser campeão brasileiro da Série A. Trabalhei e estudei para isso. Hoje tenho a tranquilidade de escolher bem. Também tem uma etapa que é trabalhar fora do país para me aperfeiçoar. Quero viver essa etapa na CBF de forma intensa e, quando tiver que mudar, sair para uma situação em que possa realizar o sonho de ser campeão brasileiro.”

Micale abraça Neymar%2C após título olímpicoEfe

RENOVAÇÃO DE TÉCNICOS

“Como em qualquer área, precisa de renovação. O mercado é para todos. Não quer dizer que a nova geração seja melhor ou pior. Mas como tudo na vida é preciso a reciclagem. Esses treinadores estão conquistando espaço: Marquinhos Santos, Roger, Zé Ricardo, Jair Ventura e outros que fazem parte desse momento.”

OBSERVAÇÃO DE PROMESSAS

“Visitamos os clubes no Brasil. A ideia é conversar com todos os profissionais que cuidam do futebol no clube, estreitar o relacionamento e ter feedback dos envolvidos no processo. Temos um banco de dados com informações com todos os jogos que vimos. Temos cinco observadores espalhados pelo Brasil, alimentando esse banco que nos dá referência para convocações.”

OBSERVAÇÃO FORA DO PAÍS

“Temos monitoramento constante fora país. Neste ano, convocamos um zagueiro do Salernitana, Luiz Felipe (da Segunda Divisão da Itália). Trazemos o atleta para treinos para avaliar a qualidade. Há seleções que não têm o nível da nossa. É uma luta porque temos um meia do Barça, o Lucas, que atua na seleção espanhola. Não podemos forçar nada. Ganhamos o Lyanco, que estava na Sérvia e optou por jogar pelo Brasil. Quando tem qualidade e percebemos o potencial, entramos na briga.”

PRESSÃO NA OLIMPÍADA

“Tudo tirou meu sono. Por mais que tenha me preparado, tínhamos a exposição de um evento como esse, vestindo a camisa da Seleção, pela pressão da conquista inédita, pelo que aconteceu na Copa... Sou ser humano, temos nossos medos. Era difícil dormir. Mas tinha um remedinho que garantia seis horas de sono pelo menos. Depois que os jogos começaram, todo momento foi difícil. O ápice foi depois dos dois empates, as críticas foram muito pesadas em cima de todos e controlar esse cenário era muito difícil. Todos estavam com medo de um novo fracasso. E nos fechamos.”

FAMÍLIA NOS JOGOS

“Sou treinador de base e a família não estava acostumada com tanta exposição. Existem os dois lados da moeda: elogios e críticas pesadas, algumas infundadas e injustas. Após o jogo contra o Iraque, minha esposa estava chorando como nunca vi. Achei que tinha acontecido algo em casa. Ela chorou pelas críticas pesadas que escutou na televisão. Eu disse que é normal e que teria que se acostumar. Aconselhei a assistir à TV sem som e não se deixar influenciar.”

COBRANÇA SOBRE OS JOVENS

“Somos humanos. Não existe super-herói, nem técnico nem jogador. Esse cara quando está em seu quarto refletindo tem as mesmas fraquezas de qualquer cidadão. Por viver muito isso, adquirimos proteção maior, talvez um escudo, mas sentimos. A gente teve que conversar com alguns, desabafar, ter uma troca. A pressão era desproporcional pela idade daqueles jogadores. Mesmo os mais velhos eram jovens: Weverton e Renato com 28 anos. E o Neymar com 24.”

TRABALHO COM NEYMAR

“A vida dele foi queimar fases. Lembro dele na Copinha de 2008. Eu estava no Figueirense. Ele tinha 16 anos, mas nos juniores. Aos 19 anos, já era expoente da Seleção principal. Isso não aconteceu com antigos ídolos. Ronaldo não jogou a Copa (1994). Neymar já foi o principal cara. Sempre preparamos o nosso principal jogador, com exceção do Pelé. Por ser precoce, nossa cobrança sobre o Neymar é pesada. Em algumas situações em que peca, em que é provocado, revida ou quando falam sobre ele fora de campo, eu penso que essas pessoas imaginem que, se tivessem dinheiro, fama e tudo o que ele tem, se seriam tão conscientes como ele é. Ele é equilibrado. Tem deslizes de uma pessoa jovem, que tem muito dinheiro, que é famoso, que o mundo idolatra. Vejo caminho para ele ser o número 1 do mundo. Ele amadureceu nos Jogos Olímpicos.”

CONTATO COM TITE

“Trocamos mensagem por celular. Em função do calendário, nos encontramos pouco. O momento está muito bom, com a liderança das Eliminatórias, com essa medalha...”

BASE X PROFISSIONAL

“Gostei demais de trabalhar com os caras mais velhos. Jovens, mas com rodagem. É até difícil para retomar o processo formativo. A absorção de informação é diferente. O mais velho já vivenciou aquilo mais vezes. O jovem é um projeto de se tornar realidade. Se as pessoas em volta não souberem passar essa informação, esse jogador não vai se tornar uma realidade, por má influência de quem está ao seu redor. É mais difícil do que trabalhar com o jogador pronto. Vejo que jogadores como esses do nível da Seleção olímpica nos deixam mal-acostumados porque o nível deles é muito alto.”

TRAGÉDIA COM A CHAPECOENSE

“Meus sentimentos aos familiares. Que dessa tragédia possa ficar um legado que está estimulando a todos, esse sentimento de humanização das torcidas, nos clubes, nas confederações. Que isso não seja momentâneo, que seja uma coisa que nos faça refletir.”

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