Renan: 'Respiro, como, durmo e sonho só pensando na Seleção'

Novo técnico da Seleção masculina de vôlei vive ansiedade por sua estreia na Liga Mundial

Por O Dia

Rio - Nas horas de lazer, o beach tennis e o futevôlei são os esportes que ganham espaço na rotina de Renan dal Zotto. Mas o trabalho nas quadras ainda move esse gaúcho de São Leopoldo que se tornou um dos principais jogadores da Geração de Prata do vôlei brasileiro. Aos 56 anos, ele pensa a todo instante no desafio à frente da seleção brasileira masculina e vive a ansiedade pela estreia na Liga Mundial, que terá sua fase decisiva na Arena da Baixada. No início do ciclo rumo aos Jogos de Tóquio-2020, Renan pretende ter a ajuda de Bernardinho, que marcou uma era muito vitoriosa no esporte nacional, e quer contar com os campeões da Rio-2016, com exceção do líbero Serginho, que se aposentou da Amarelinha na Olimpíada.

Renan foi anunciado como técnico da Seleção masculina de vôlei em janeiro.Divulgação CBV

ODIA: O que mudou na sua rotina desde que foi anunciado na Seleção?

Renan Dal Zotto: Foi uma correria danada, tentando acompanhar cada vez mais de perto, mantendo contato, falando com treinadores, atletas, aqui no Brasil, fora. Fiquei uns 10 dias na Itália acompanhando alguns clubes. Foi muito produtivo. É bacana porque tive a chance de falar com quase todos os atletas que estavam na Rio-2016, até para entender um pouco o que se passa na cabeça deles. A ideia era tentar contar com a maioria dos atletas que estava nos Jogos Olímpicos principalmente para a Liga Mundial. Depois vamos ver de que forma vamos conduzir as coisas. Nesse primeiro momento, a ideia é que todos estejam à disposição. Só tenho certeza de que o Serginho está fora.

ODIA: Como foi a conversa com os jogadores?

Renan Dal Zotto: Foi muito legal, muito bacana. Todos demonstraram bastante interesse. E, nesse período, também trabalhamos muito para fazer o planejamento junto com a comissão técnica, com o Bernardo. Quero buscar bastante da experiência dele para a gente minimizar o máximo possível qualquer possibilidade de erro.

ODIA: Você sente saudade de estar à beira da quadra?

Renan Dal Zotto: É a nossa essência, nossa vida é essa. São mais de 40 anos que a gente está no vôlei, de diferentes formas. Primeiro como atleta, depois como treinador e gestor, depois como treinador, gestor e agora como treinador de novo. Todas as situações que a gente passa servem de aprendizado. Não sinto saudade de jogar. Mas de estar ali, vivenciando o dia a dia.

ODIA: Não pega na bola?

Renan Dal Zotto: Só para brincar. Mas nada de sério. Sério é com eles. Meu hobby é o beach tennis. Vôlei de praia ou vôlei mesmo são um sacrifício muito grande. Não sei se é a gente que está diminuindo, mas parece que a rede está cada vez mais alta (risos). No beach tennis, a rede é menorzinha, então dá para brincar mais. E tem o futevôlei. São os dois esportes que gosto de praticar. E a musculação para manter.

Renan foi um dos principais jogadores da Geração de Prata do vôlei brasileiro.Arquivo O Dia

ODIA: Você trabalhou com o Bruno no início da carreira dele. Como vê o papel dele na Seleção?

Renan Dal Zotto: O Bruno começou com a gente em Florianópolis bastante jovem, foi campeão por muitos anos com a gente. Depois, foi para Rio, Itália, Sesi. Um jogador que já provou todas as suas qualidades, mas, acima de tudo, a liderança positiva dele no dia a dia do trabalho é fundamental. Acompanhei o trabalho do Bruno durante muitos anos e não posso dizer um dia que ele não tenha dado o máximo. O Bruno é um capitão nato, um líder nato. Ele inspira as pessoas e lidera pelo exemplo. É um cara muito importante para a gente nesse processo.

ODIA: É natural que ele continue como capitão?

Renan Dal Zotto: Independentemente de estar usando a tarja, é um capitão nato. Com certeza, o Bruno naturalmente exerce essa função. Estando bem, indo para a Seleção, dificilmente perde essa condição de capitão.

ODIA: Você vê o cubano Leal, do Cruzeiro, com chances de defender o Brasil?

Renan Dal Zotto: Tecnicamente, é um jogador extremamente qualificado. Pelo que me consta, tem um regulamento que ele precisaria de mais dois anos para ter condição de jogo. Então, não adianta a gente ficar planejando alguma coisa sem ter essa possibilidade real.

ODIA: A fase final da Liga Mundial será na Arena da Baixada. Qual é a expectativa?

Renan Dal Zotto: A gente já teve algumas experiências. A primeira delas no Maracanã, contra a União Soviética. É um pouco estranho na hora que você faz uma competição. Teve o Mundial num estádio na Polônia (em 2014). Você perde um pouco as referências. Mas espero que seja um evento muito bacana. Quanto ao lado técnico, todas as equipes vão sofrer um pouco no início por questão de tempo de adaptação. Mas espero que a gente se adapte rápido (risos).

ODIA: Qual a lembrança do desafio entre Brasil e URSS em 1983, no Maracanã?

Renan Dal Zotto: Aquilo ali foi um fato histórico que fica na memória da gente. Um dia chuvoso, o Maracanã lotado. De vez em quando eu vejo as fotos e é difícil de acreditar que aconteceu aquilo. Foi uma coisa que marcou muito. Todo mundo recorda com carinho muito grande. 

ODIA: Está ansioso pela estreia na Liga Mundial?

Renan Dal Zotto: Estou, mas não gostaria que fosse tão rápido assim (risos). O tempo é curto. Queria um pouco mais de tempo para poder treinar. Neste ano, a Superliga masculina termina um pouco mais tarde. Mas mexe, sim. Hoje, eu respiro, como, durmo, sonho só pensando na seleção brasileira.

ODIA: O Bernardinho terá mais tempo com a família sem a Seleção. Já você ficará mais longe de casa. Como sua família reagiu à chance de assumir a Seleção?

Renan Dal Zotto: O Bernardo se engana quando acha que vai ter tempo porque vou puxá-lo para ajudar a gente lá (risos). Depois dos Jogos Olímpicos, já era um compromisso com a família de eu voltar a morar em Florianópolis. Quando acabou a Olimpíada, eu saí (Renan era diretor de Seleções da CBV). Estava tranquilo até receber o convite. Em princípio, era até uma função minha renovar imediatamente com o Bernardo e com o Zé (o técnico da Seleção feminina, José Roberto Guimarães). O Zé foi mais rápido. O Bernardo tinha essas dúvidas e acabou saindo. A família no início também não queria. Mas, na terceira vez em que o presidente falou comigo, aí balançou. Questionei novamente a minha esposa e ela falou: ‘Se você está perguntando é porque está em dúvida’. Os filhos já estão crescidos. Um com 23 (Gianluca), o outro com 18 (Enzo). Eles apoiaram. Tudo certo.

ODIA: Como surgiu a escolha por Florianópolis no fim do tratamento de Gianluca (o filho de Renan teve leucemia aos dois anos)?

Renan Dal Zotto: Quando ele estava acabando o tratamento, quando eu parei de ser treinador pela primeira vez, a orientação médica era morar perto de praia. A gente escolheu Jurerê para morar. Já gostava muito de ir, como todo gaúcho. E escolhemos Floripa. Foram uns anos bem difíceis. E não tinha como conciliar treinador e tratamento. Foi muito difícil. A pressão, na condição de treinador, é muito grande. O treinador é o cabeça, está dando os caminhos. E não tinha como naquele período em que a gente estava vivendo. Eu estava como técnico de Chapecó. Foi até muito legal porque eu morava em Chapecó e o presidente da Chapecó levou o time para São Paulo para eu acompanhar a equipe e o tratamento. Mas não dava, não tinha como continuar.

ODIA: Como você se define como treinador?

Renan Dal Zotto: Não sei. Isso é uma coisa que eu vou poder responder daqui a alguns anos, olhando para trás. O dia a dia vai construindo sua imagem. Sou um cara muito participativo, idealista, me cobro muito.

ODIA: O grupo atual esteve no topo na Rio-2016. Você pretende conversar com eles sobre as armadilhas desse sucesso?

Renan Dal Zotto: A palavra é essa: armadilha. Mas o grupo é muito bom. Essa garotada é muito pé no chão. Claro que tem que estar constantemente em estado de alerta. Talvez um ou outro, possa, em algum momento... Mas nós estamos ali para isso, para dar uma puxadinha de orelha. Mas eles têm uma cobrança muito grande entre eles. Ninguém vai tirar isso deles. São campeões olímpicos com méritos. Mas a gente sabe que o Brasil, na história, em todos os grandes resultados, chegou porque ralou muito. Eu tenho certeza de que eles sabem disso e jamais vão cair nessa armadilha. Vão ter que continuar ralando bastante.

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