Por sarah.borborema

Rio - O sonho de se tornar um jogador renomado e de alto nível, como o pai Jairzinho, não foi conquistado, mas não impediu Jair Ventura de se reinventar no futebol e escrever a própria história no Botafogo. De estagiário da preparação física a técnico ‘sensação’ do Brasileiro, ele colhe os primeiros frutos de um novo sonho iniciado ao decidir se aposentar com apenas 26 anos. Com uma campanha assombrosa, o Botafogo lidera o returno, com 31 pontos e uma vitória a mais do que o líder geral Palmeiras, e se mantém firme no G-6 às vésperas do clássico com o Flamengo.

Jair Ventura falou sobre a trajetória no BotafogoVitor Silva / SS Press / Botafogo

TRAJETÓRIA

"Minha trajetória no Botafogo começou em 2008. Cheguei como estagiário e fui efetivado como quarto preparador físico. Era o auxiliar, do auxiliar, do auxiliar da musculação. Estava no fim da fila (risos). O que tinha para fazer era coletar pesos, cones, alongar os jogadores doloridos."

A VIRADA DE JOGO

"Aquela situação não me deixava confortável e falei: 'Preciso mostrar o meu trabalho.' E comecei a fazer o scout dos jogos. Sempre fui apaixonado pela parte tática. Isso foi me dando uma entrada com Ney Franco, que fez o convite para ser um de seus auxiliares. Disse que era meu sonho. O clube não tinha um auxiliar permanente e mudei de função."

BAGAGEM

"Após a saída do Ney, tive minha primeira oportunidade como interino em 2010. Estevam (Soares) estava chegando, me abraçou e ganhei espaço. Ele acabou saindo e tive outra chance no Carioca, contra o Tigres. Joel Santana foi efetivado, assistiu à preleção e disse que eu faria o jogo. Em 2012, assumi os juniores (após trabalhar com Caio Júnior). Fui campeão invicto na primeira competição, gol do Sassá. A experiência foi muito boa, um crescimento e voltei confiante à comissão técnica em 2013 com Osvaldo de Oliveira. Fomos campeões carioca e levamos o time à Libertadores."

DEMISSÃO E MÁGOA

"No fim de 2013 fui demitido e segui com o Estevam para o CSA. Depois fiquei sete meses estudando. Fiz curso de análise de desempenho, de coaching. Tinha como maior título, mais do que os dois Cariocas (2010 e 2013) e o Carioca sub-20, a classificação à Libertadores. O Botafogo se classificou quatro vezes na história e participei da última. Fica uma mágoa, pois a gente vê que o trabalho não foi avaliado dessa maneira. Foi outra questão que até hoje não sei a justificativa. A resposta veio em 2014, o pior ano do Botafogo."

Jair contou que optou por buscar seu espaço sem se apoiar na carreira do paiVitor Silva / SS Press / Botafogo

JAIRZINHO X JAIR

"Não fui trabalhar porque precisava, pois meu pai sempre me deu as melhores condições. Foi uma opção minha não ficar na sombra do meu pai. Poderia, pois não é ruim ser filho de um tricampeão mundial, mas optei por buscar o meu espaço, ser alguém. O orgulho que tenho dele quero que meu filho sinta de mim, pois planejo ser pai. Não me incomoda ser filho do Jairzinho. Quando jogava, sofria pressão, sim. Agora não vejo comparação. Ele era ponta-direita e eu sou treinador."

REALIDADE DO FUTEBOL

"Decidi parar não pela pressão, mas pelo meu nível de exigência. Estava longe da excelência, na Segunda Divisão do Rio. Não era o que queria, Afinal, 97,98% dos jogadores no Brasil são os assalariados, da Terceira e Quarta Divisões. Joguei a Terceira na França. Você trabalha e não recebe. No Bonsucesso, bebia água da bica. Fui o verdadeiro jogador de futebol, o que sofre, recebe mal... Decidi estudar, iniciar nova carreira. Estou com 37 anos e feliz com a escolha."

PERFIL

"Sou um eterno aprendiz. Não estou pronto hoje e não estarei aos 65 anos. Busco a transparência, a honestidade, olhar nos olhos. Ganho os jogadores pelo conteúdo, leitura de jogo. Não fico engessado num sistema. Aprendi com cada treinador com quem trabalhei, mas fui criando minha filosofia."

LIBERTADORES

"Prefiro dizer que não sei se vamos à Libertadores do que se não sei se vamos cair. Alcançamos os 46 pontos e agora estamos em outra briga, uma pressão gostosa. Quando assumi, a pressão era para nos livrar da queda. A briga agora é para levar o Botafogo ao lugar mais alto. No fim do ano, veremos."

DESCONFIANÇA

"Penso que há espaço para todos. Tenho treinadores amigos com 65 anos que estão superatualizados, mas vejo treinadores jovens que não estão preparados. Existe uma restrição ao novo. Quando assumi, todo mundo disse: ‘Tá louco, é nepotismo, só está lá porque é filho do Jairzinho’. As pessoas agridem antes de te conhecer. A única maneira de entrar no mercado foi com as vitórias. Sabia que só tinha uma bala e tive que usá-la da melhor maneira. Se eu não tivesse conquistado os resultados, não estaria dando esta entrevista."

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