Um clássico para unir duas tribos

Divididos em campo, Fluminense e Vasco contam com a força dos povos indígenas, na Amazônia

Por O Dia

Rio - Seguindo a música imortalizada da cantora Baby do Brasil “Todo dia era dia de índio”, Fluminense e Vasco entram em campo neste domingo, às 16h, na Arena da Amazônia, para um clássico decisivo, na antevéspera do Dia Do Índio. O Estado do Amazonas, conhecido mundialmente pela exuberância de suas florestas, recebe a partida que define o campeão da Taça Guanabara, segunda fase do Carioca.

Denílson — vascaíno da etnia Baniwa — e Anápuáka — tricolor da etnia Tupinambá Hã Hã Hãe — estão com a emoção à flor da pele ao verem um clássico sendo disputado em um local com muita identidade para seu povo.

Os dois foram removidos à força da Aldeia Maracanã em 2013 e moram em um prédio do conjunto Minha Casa Minha Vida, no bairro do Estácio, na zona central do Rio.

Denilson Baniwa e Anápuáka Tupinambá torcem por equipes diferentes André Mourão / Agência O Dia

“O futebol sempre uniu as pessoas. E é uma grande festa. Eu vejo esse jogo como uma questão de unir os povos por uma paixão. Esse esporte é o símbolo do Brasil, e futebol e índio têm tudo a ver”, afirmou Denilson.

Denílson e Anápuáka criaram, em 2013, a rádio Yandê, que transmite pela Internet. É a primeira do segmento voltada para questões indígenas.

“Yandê” significa “todos nós” na língua tupi e remete a um sentimento de união, mas os amigos não deixam as provocações de lado quando o assunto é o clássico.

“O Vasco é fundado por portugueses, que desbravaram oceanos e continentes. Você acha que o Fluminense, na Amazônia, vai conseguir a vitória?”, brincou Denílson. Anápuáka invocou os fenômenos naturais da região do clássico para responder à altura. “Os navegadores dominaram os mares, não os rios. Lamento, mas vai ter pororoca”, provocou o tricolor.

Assim como os nativos que estavam em nossas terras quando o País foi descoberto, Denilson e Anápuáka elegeram os caciques dos seus times de coração. Se pelo lado vascaíno não há contestação, nas Laranjeiras há insatisfação. “O cacique do Vasco é o Nenê”, sentenciou Denilson, diferentemente de Anápuáka: “O Fred pode até ser o cacique do Fluminense, mas quem manda na tribo é o pajé, Levir Culpi.

Denílson e Anápuáka vibram com o jogo deste domingo%2C na terra onde vivem outros povosAndré Mourão / Agência O Dia

Dura realidade para os indígenas

No jogo dos direitos constitucionais, os indígenas vêm sofrendo uma dura e constante derrota. Tricolores e vascaínos de todas as tribos se unem quando o assunto é a demarcação das terras indígenas.

“O indígena no Brasil tem seus direitos violados. O que acontece, atualmente, é um retrocesso. É preciso fazer uma reparação para que haja, de fato, uma demarcação de terras indígenas”, afirma Anápuáka, coordenador da Rádio Yandê.

Denílson, colaborador da rádio, aponta um implacável adversário. “Além da briga política recente em Brasília, que encerrou nossos avanços, temos que lutar contra a bancada ruralista da Câmara”, afirma.

Além de todos esses problemas sociais, o indio no brasil também tem que viver tentando apagar a visão caricata que muitos tem na cabeça: o indigena que só vive pelado e faz dança da chuva. Essa é uma das principais funções da rádio, mostrar todo valor cultural indigena para os brasileiros.

"Se você é indio e que pertence a alguma tribo no brasil você é totalmente excluído do noticiário e quando aparece algo é denegrindo nossa imagem ou fazendo referência aquele indio de 1500 quando os portgueses chegaram aqui ou dançando a dança da chuva. E pensamos que tinhamos que mudar esse cenário, pois entre os indios há todas as questões da sociedade, como direitos, politica, violência e tinhamos que criar um canal de comunicação nosso", afirmou

Em Manaus, Fred é o mais festejado

A briga com Levir Culpi e os dias afastado do elenco não influenciaram na recepção calorosa dos tricolores de Manaus com Fred. O camisa 9 foi o jogador mais festejado pelas centenas de torcedores no desembarque do time na cidade e precisou até voltar à sala dos passageiros para diminuir o tumulto no aeroporto.

Fred está confirmado na decisão de hoje, mas Levir Culpi pode ter um problema. Henrique sentiu um incômodo no adutor da coxa esquerda e ficará em observação, mas deve jogar.

Rodrigo treina e deve jogar o clássico

Sob sol forte, o Vasco fez seu último treino antes da decisão no palco do jogo de hoje. E a boa notícia foi a participação de Rodrigo, recuperado de dores na coxa direita e que poderá jogar o clássico contra o Fluminense graças a um efeito suspensivo dado pelo TJD-RJ.

Em compensação, Julio Cesar não participou da movimentação de ontem e dificilmente irá a campo. Henrique deve ser o titular.

“Rodrigo é o capitão, é um líder, jogador de extrema importância”, elogiou Andrezinho.

Colaborou o estagiário Yuri Eiras