Por rafael.arantes

Rio - A Grande Tijuca convive com uma só certeza: vai ter Copa. As ruas do bairro da Zona Norte já começam a se colorir com o tradicional verde e amarelo e não poderia ser diferente na famosa Carlos Vasconcelos. A rua que desemboca em plena Praça Saes Peña não deixou para trás o costume da personalização às vésperas de um Mundial em solo brasileiro. Agora, no entanto, a história ganha novos capítulos. Após seis edições correndo contra o tempo para decorar a rua onde cresceu, o designer gráfico Alex Maia, de 34 anos, vê a filha Clara seguir seus passos aos apenas cinco de idade. Renovação até na torcida pelo Hexa.

Família canarinho! Alex%2C Renata e Clara são protagonista do tradicional ritual da Carlos VasconcelosRafael Arantes / Agência O Dia

O costume sempre foi uma marca registrada por toda a Cidade Maravilhosa, mas agora os antigos artistas já enxergam as novas gerações assumindo a arte verde e amarela. Decorar a Rua Carlos Vasconcelos sempre marcou a vida do artista. Após participar pela primeira vez na Copa de 90, o primeiro desenho no asfalto tijucano aconteceu no ano do Tetra (1994). O costume seguiu firme e, quatro anos depois, foi no mesmo chão que o vascaíno Alex conheceu Renata, a visitante quase "estragou" o desenho, mas ganhou o coração canarinho do designer.

"Cresci aqui e sempre participei das decorações. Comecei em 1990 e cada Copa marcava de uma maneira diferente. Em 1998 conheci a Renata e hoje vejo nossa filha dar sequência à tradição de toda minha infância", contou.

O mutirão sempre foi intenso. Ao lado de Vitinho, Marcio, Sandro, Digão, Flavio, Lucena e dos irmãos Marquinho e Daniel, Alex liderava os pedágios e as arrecadações pelos prédios. Agora, após ver o costume quase ficar para trás no último Mundial, o desenhista oficial da galera vê a tradição ser reerguida pela garotada da rua:"É bem legal ver a molecada se unindo. Enquanto a gente se desesperava para fazer tudo eles estão até bem tranquilos", analisou.

Rua começa a ganhar forma verde e amarelo para a Copa do Mundo%3B Senna ganha homenagem Rafael Arantes / Agência O Dia

HOMENAGEM E COMBATE AO RACISMO

Entre os 12 desenhos feitos por Alex e o amigo Daniel a Copa recebe traços de homenagens e pensamentos. Pelo chão da Carlos Vasconcelos, Ayrton Senna ganha espaço entre Fuleco (mascote do Mundial) e Marvin (líder da torcida), personagem escolhido para representar o combate ao racismo no futebol.

Além do mascote da turma dar o recado com a frase "somos iguais", pinturas de bonecos representando os jogadores da seleção brasileira contam com a presença de Daniel Alves segurando uma banana, reproduzindo a atitude do lateral do Barcelona ao repudiar o ato racista de um torcedor rival que atirou a fruta em sua direção.

"O Senna é um dos grandes ídolos, mas não podíamos deixar passar esse fato do racismo. Escolhemos alguns jogadores para estar presentes e o Daniel Alves tinha que estar com a banana. Além disso temos o nosso mascote passando essa mensagem contra o racismo. É muito importante", declarou Alex.

PREMIADO PELO 'O DIA' NA COPA DA FRANÇA

A Copa de 1998 só não foi completa em razão do vice-campeonato da Seleção. Durante o Mundial da França, Alex conheceu a atual esposa, deu início ao relacionamento e ainda viu a arte dos amigos ser premiada pelo O DIA. Na época, um concurso era organizado pelo jornal e a decoração da Carlos Vasconcelos ficou com a terceira colocação.

"Guardamos o troféu até hoje. Aquele ano foi bem legal e aquela garota que estragou o desenho todo acabou ficando aqui de vez", brincou Alex sobre o dia que conheceu a esposa Renata.

Agora, os amigos se reúnem para celebrar mais uma Copa de união. Mesmo não morando mais na rua em que viveu toda a infância, Alex volta à residência dos pais para reencontrar os parceiros de decoração e dar sequência ao costume. Ainda sendo um dos responsáveis pelos desenhos no asfalto, o designer acredita que a tradição ainda tem grande valor pelas ruas da cidade.

"Não tem mais aquela história do pessoal das outros lugares aparecerem para estragar o que fazemos e é bacana ver essa renovação e a continuidade disso tudo. Não dá para passar em branco um momento assim".

Torcedores da Rua Carlos Vasconcelos se reúnem e posam com o troféu dado pelo 'O DIA' em 1998Rafael Arantes / Agência O Dia


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