Por pedro.logato

Rio - Enquanto Marcelo usa confortável e bonito agasalho Nike e desfila, elegante, com sua chuteira zebrada Adidas nos campos verdes da Granja Comary, o lateral-esquerdo Alexis Mentalo, de 18 anos, mexicano de Guerrero, bate o queixo de frio antes do treino no campo esburacado do Teresópolis FC. Há um mês morando no alojamento do clube, que fica a poucos minutos do luxuoso CT da Seleção, o rapaz sabe a enorme distância que separa o seu caminho da realidade milionária de Marcelo e de outros craques de Felipão.

Assim como ele, o diretor de futebol Kaio Sagaz, de 27 anos, adoraria diminuir essa distância. Nem que fosse por poucos minutos. Há alguns dias, ele vem tentando com a Prefeitura de Teresópolis oferecer a Felipão jogadores para completar o time nos treinos. Sem sucesso. Agora, tenta apenas visitar a Granja.

Teresópolis FC tem instalações precáriasMartha Esteves / Agência O Dia

“Seria uma experiência muito importante para todos os jogadores. A gente queria mesmo um joguinho, conhecer um craque, mas estamos aceitando até um passeio. Mas até agora não consegui nem passar das barreiras que colocaram nas ruas de acesso à Granja”, lamenta Kaio.

A outra preocupação, ainda mais séria, é conseguir levantar os R$ 25 mil mensais que precisa para manter a estrutura ‘Padrão Futebol Carioca’ do clube. Kaio arrecadou no início do ano R$ 10 mil da prefeitura e mais nada em dinheiro — e também o empréstimo de ônibus para o time se deslocar e disputar os jogos da Série C do Estadual.

O CT Álvaro Menezes tem um vestiário precário, um armário de ferro, usado pelos 48 jogadores (o clube tem divisão de base também), dois banheiros, 14 quartos (onde dormem de quatro a cinco atletas) sem televisão, e uma cozinha que serve comida simples, mas de qualidade para todos.

Ninguém recebe salário, só ajuda simbólica: R$ 100 para a maioria e R$ 150, para os mais ‘qualificados’. Kaio corre atrás da ajuda de comerciantes que queiram anunciar na camisa em troca de auxílio financeiro. Quer aproveitar a súbita fama com a Seleção na cidade: “A hora é essa.”

Dureza não abala o sonho

Se a vida é dura para os profissionais, imagina para os 30 meninos das divisões de base do Teresópolis? Eles têm o mesmo sonho e dividem a mesma dureza. No frio cortante que fez na quinta na serra fluminense, o solidário Jonatan, zagueiro de 16 anos, emprestou seu casaco para um companheiro.

Quem sofre com o clima é o baiano Vitório, meia de 15 anos. Mas diante da possibilidade de realizar o sonho de ser jogador, vale qualquer sacrifício. Até não ter ajuda de custo.

Em troca de casa e comida, eles trabalham para atravessar os dois quilômetros que separam o pobre Teresópolis da rica Granja Comary. “Ser Neymar é sonho. Vale qualquer sacrifício”, diz Vitório.

Fama e riqueza de Marcelo e R10, as referências

O lateral-esquerdo Thiaguinho, de 21 anos, saiu de Duque de Caxias e foi longe. Aos 18, atuou no futebol sueco — no Kristianstad. Não se adaptou e voltou. Ficou parado até mandar DVD para um amigo do presidente do Teresópolis. Há quase dois meses mora no clube, ganha pouco, mas sonha alto.

Fã de Marcelo, ele deixou o cabelo crescer e tenta imitar o ídolo em campo — é chamado pelos ‘parças’ de Marcelo. Às vezes gosta, às vezes tem medo de perder a identidade. “Meu nome é bonito, fico com medo de ter como apelido o nome de outro jogador”, diz

Camisa 10, Lennon veio do Ipatinga e tem nome de ídolo. Mas, em campo, é chamado de Ronaldinho. Embora admire o craque, acha injusto o apelido. “Não sou tão feio”, frisa, sonhando assim como Thiaguinho, ter o que Marcelo e Ronaldinho conquistaram: fama e riqueza.

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