Por pedro.logato

Rio - A partida entre Uruguai e Itália preencheu uma lacuna. Ainda não havia ocorrido, nesta Copa disputada na América do Sul, um jogo com mais sangue e suor do que lágrimas. A peleja foi semelhante às epopeias típicas de Libertadores das Américas: em alguns momentos, a moderna Arena das Dunas parecia o velho estádio Defensores Del Chaco, de Assunção.

Revoltado com o cartão vermelho para Marchisio, o goleiro Buffon quase expulsou o juiz de campo. Nos acréscimos, abandonou seu gol e passou a jogar no ataque. O jogo teve cai-cai, cera, catimba. Jogadores se faziam de atores: um reles empurrão era encenado com a dramaticidade de tragédia grega. Herói-bandido, o atacante Luis Suárez, autor de dois gols contra a Inglaterra, voltou a morder um adversário. A marca dos dentes do uruguaio ficou impressa no ombro do italiano Chiellini, marca da derrota e da eliminação da Azzurra.

Suárez mordeu Chiellini e reclamou de cotovelada no denteReuters

O duelo deve ter despertado saudades em Anselmo, aquele atacante do Flamengo que, em 1981, na última partida da decisão da Libertadores, entrou em campo para, com um soco, nocautear Mario Soto. No jogo anterior, o jogador do Cobreloa chegara a ferir rubro-negros com uma pedra.

Não se trata de elogiar a canalhice, o anti-jogo, a falta de espírito esportivo. Suárez, que já foi suspenso por racismo, merece ser punido pelo que fez ontem. Mas a quase batalha de Natal resgata um componente importante no futebol, evoca a cotovelada de Pelé no uruguaio Dagoberto Fontes na Copa do México, remete ao suposto tapa de Obdulio Varela

Sem Bigode na final de 1950, no Maracanã. Esta agressão não existiu, mas ao longo dos anos foi repetida como verdade absoluta — o futebol também se alimenta de lendas. Copas não são lembradas apenas pelos grandes jogos, vão além dos hinos cantados a capella e do fair play protocolar; histórias pouco edificantes, o pé na cara, a mordida e o dedo no olho também fazem parte do enredo. São até episódios inocentes se comparados ao jogo sujo e às tramoias que ocorrem nos bastidores.

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