Cacau Cotta afirma: 'O Flamengo não pode abrir mão de ter o seu estádio'

Ataque inicia série de entrevistas com candidados a presidência do clube

Por O Dia

Rio - O Ataque começa, nesta quarta-feira, a publicar entrevistas com os concorrentes à presidência do Flamengo. Aqui, o leitor confere, na íntegra, as respostas de Cacau Cotta publicadas no jornal O Dia. O candidato promete trazer o público de baixa renda de volta ao estádio. Para isso, tentará ampliar os setores mais baratos do Maracanã, com a retirada de cadeiras. Também planeja reformar o estádio da Gávea, que abrigará jogos de pequeno porte e erguer o Urubuzão, com 80 mil lugares, provavelmente na Zona Portuária, ou na Baixada Fluminense. A popularização do programa sócio-torcedor também faz parte de sua plataforma, assim como manter a austeridade financeira, com contratações pontuais, sem fazer experiências e tampouco trazer atletas que venham de lesões graves.

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Cacau Cotta é candidato a presidência do FlamengoReprodução Internet

O DIA: Como pretende administrar o clube, financeiramente falando? A atual política será mantida e os acordos cumpridos?

Cacau Cotta: Acordos são feitos para serem cumpridos. A atual política de austeridade é lei, não é bandeira de ninguém. Trata-se de um projeto de lei aprovado na Câmara e depois sancionado pelo governo. É o Profut, a Lei de Responsabilidade Fiscal do futebol brasileiro. Vou trazer dinheiro novo através de um programa de sócio-torcedor forte, plural, e que atenda a todas as classes sociais. Não vou trocar a dívida pública (impostos e indenizações trabalhistas) por privada (bancos).

O DIA: De que forma vai conciliar a responsabilidade nas finanças com os investimentos no futebol?

Cacau Cotta: Não transformando o Flamengo num centro de recuperação de atletas. Vide atletas como Carlos Eduardo, Armero, Ederson, entre outros. Foram contratados quase 40 atletas em três anos e tivemos oito técnicos (Dorival Junior, Mano Menezes, Jayme de Almeida, Ney Franco, Jorginho, Vanderlei Luxemburgo, Cristovão e, por último, Oswaldo de Oliveira). O que está faltando é conhecimento de Flamengo, de futebol e, principalmente, falta comando. Vamos romper com esse modelo de Conselho Gestor. O futebol do Flamengo não será gerido mais pelo Whatsapp. Cachorro que tem dois donos morre de fome. Não é possível que o clube tenha um centro de inteligência na base e não identifique a ascensão do lateral Jorge, mesmo o garoto tendo sido convocado mais de uma vez para as seleções de base. Enquanto isso, o clube contratou Anderson Pico, Talisson e Armero. Quanto desperdício!

O DIA: Quais os planos para concluir as obras do Centro de Treinamento?

Cacau Cotta: Vamos transferir o futebol profissional do Flamengo para a Gávea enquanto durarem as obras do CT profissional. Serão feitas em seis meses, em dois turnos. Vamos usar a verba carimbada do Casarão de São Conrado para concluir o CT George Helal. Será feita uma concessão do imóvel em São Conrado, que tem alto valor agregado. Os recursos não passarão pelo Flamengo. Vão seguir direto para a conclusão do Ninho do Urubu.

Conclusão das obras no Ninho do Urubu está na pauta de CacauAndré Luiz Mello/Agência O Dia

O DIA: Como vê o programa sócio-torcedor e como fazê-lo render ainda mais recursos para o clube?

Cacau Cotta: Esse programa foi lançado pela Ambev em todos os clubes brasileiros, sendo que, no Flamengo, houve um grave erro de gestão. O programa é elitista, pois segrega um imenso contingente da torcida rubro-negra que não tem cartão crédito. Fora o fato de que o pagamento somente com cartão compromete o limite daqueles poucos torcedores que o têm. Na comparação com os programas dos demais clubes brasileiros, o Flamengo pratica um dos preços mais caros entre os modelos existentes. E o clube ainda garante que o seu programa de sócio-torcedor é uma importante fonte de arrecadação. Com o modelo vigente, isso não é verdade. As despesas associadas ao programa consomem 33% da receita bruta. Se compararmos o Nação Rubro-Negra com o sócio-torcedor do Internacional, que tem algo em torno de cinco milhões de torcedores, o do Flamengo teria que ser oito vezes maior, uma vez que o clube carioca reúne 40 milhões de torcedores. Temos que buscar soluções capazes de alavancar o programa sócio-torcedor do Flamengo em definitivo, e não a reboque do momento atual da equipe ou da contratação deste ou daquele jogador. A popularização do programa passa obrigatoriamente pela renegociação do contrato com a empresa que o administra. Vamos fixar o valor de R$ 14 para aqueles torcedores que moram fora do município do Rio de Janeiro e que, por razões óbvias, não têm como assistir aos jogos com frequência. Defendo a implementação do débito em conta, além do pagamento via boleto bancário. Os céticos argumentam que poderá haver um índice de inadimplência. Em contrapartida, o clube ganhará na quantidade proporcionada pelas novas adesões. Vamos procurar a Caixa Econômica Federal, que já é nossa parceira, para garantir que o sócio-torcedor do Flamengo, independente de onde esteja, possa pagar sua mensalidade através das casas lotéricas espalhadas por todo o país. Essa capilaridade proporcionada pelo banco estatal é de fundamental importância para alcançarmos as metas estabelecidas.

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O DIA: É possível levar os torcedores de baixa renda de volta aos estádios? Como?

Cacau Cotta: Claro que sim. A equação é simples. Temos que promover uma reengenharia nas chamadas arenas padrão Fifa se quisermos ter o povo de volta aos estádios brasileiros. No caso específico do Maracanã, vamos lutar para ampliar os setores Norte e Sul, com a retirada das cadeiras nesses locais. Pretendo ainda ampliar a capacidade do setor Leste, reduzindo em 70% o número de cadeiras ali existentes, mas mantendo o espaço destinado à chamada área Vip. Só assim poderemos garantir a ocupação de 80% do estádio em todos os jogos. O tíquete mais barato nos setores Norte e Sul não pode custar mais do que o valor do ingresso do cinema, algo em torno de R$ 20 a R$ 25. O que não se pode admitir como natural é o ingresso custar 10% do valor do salário mínimo. O torcedor não vai para o estádio sozinho. Além do valor do ingresso, ele tem um custo agregado com alimentação e transporte.

O DIA: Que projetos tem para a sede social?

Cacau Cotta: A sede social será tratada como a nossa casa. O sócio do Flamengo tem que voltar a ter orgulho das instalações esportivas e sociais do clube. O futebol do Flamengo tem que voltar a estar perto da sua torcida e dos sócios. Criamos o PERG (Plano Estratégico de Recuperação da Gávea), que tem por objetivo promover o retorno do sócio ao clube, proporcionando conforto e segurança aos seus frequentadores. A ideia é centrar esforços na reforma e na modernização das instalações sociais e esportivas do clube, além da criação de novas áreas de convivência. A experiência adquirida no triênio 2010/2011/2012 será fundamental para alcançarmos as metas estabelecidas. Defendemos a ampliação do ginásio Hélio Mauricio e somos frontalmente contra a criação de uma nova arena (a Arena McDonald’s). No nosso entendimento, a realização da obra representaria a extinção de espaços sociais e esportivos importantes do clube, como o Fla-Tênis. Penso que, com a realização da Rio-2016, a cidade ganhará vários equipamentos poliesportivos, fazendo com que a nova arena torne-se desnecessária.

O DIA: Como lidar com a crise de relacionamento com a Federação de Futebol do Estado do Rio de Janeiro? Pretende manter a ruptura? É possível diálogo?

Cacau Cotta: Temos de buscar o diálogo sempre. Nessa luta não há vencedores e nem vencidos. É óbvio que o Campeonato Carioca tem de ser repensado, com menos datas e um número adequado de clubes participantes. Vou lutar sempre em defesa do interesse do Flamengo. O clube tem de ser o protagonista. Nenhuma competição sobrevive sem a participação do Flamengo. O Campeonato Carioca sempre teve o seu charme por conta da rivalidade regional. Quando se ganha da Chapecoense, com todo respeito à agremiação catarinense, no dia seguinte se esquece, passou. Quando se ganha do Vasco, do Botafogo, do Fluminense, a brincadeira com o amigo, o porteiro, o colega de trabalho se estende por toda a semana. Não podemos perder isso, essa magia, esse encanto que alimenta a rivalidade entre os torcedores.

Contratações como a de Armero foram criticadasDivulgação

O DIA: Qual a sua visão em relação à posição de não disputar o Campeonato Carioca com o time principal?

Cacau Cotta: Penso que o Flamengo tem de disputar o Estadual com o seu time principal desde que atendidas as exigências de mudanças profundas no seu regulamento, para que a competição seja ao mesmo tempo competitiva, rentável e atraente aos olhos dos torcedores e investidores.

O DIA: Qual a previsão de receita para o ano? É possível montar um time capaz de ganhar títulos de expressão e também trazer um nome de impacto? Como?

Cacau Cotta: Apesar da gravidade da crise econômica que atinge o país e do fato de a maior parte das verbas de publicidade estar direcionada para a disputa da Rio-2016, estamos trabalhando para manter, no mínimo, o faturamento de 2015. O GuaraMix já adiantou que será nosso parceiro a partir do ano que vem. Estamos estudando de que forma a empresa de refrigerantes irá estampar sua marca no manto sagrado, se nas mangas ou no peito. O Flamengo só vai contratar pontualmente jogadores em alto nível técnico e físico. Não vai haver experiências. Vamos encerrar a era de trazer para o Flamengo atletas que se encontram em recuperação física.

O DIA: A torcida pode sonhar com um estádio próprio? E quais os planos em relação ao Maracanã?

Cacau Cotta: O Flamengo não pode abrir mão de ter o seu estádio próprio. O clube tem que deixar de ser inquilino. O Flamengo quebra se assumir a gestão do Maracanã hoje, que tem um custo mensal de manutenção de R$ 5 milhões. Propomos uma parceria entre o clube e o poder público. O estádio precisa ser rentável e voltar a ter 70% do seu espaço destinado às áreas populares. Defendo a redivisão do espaço destinado à torcida com a retirada dos assentos dos setores Norte e Sul e a ampliação do Setor Leste (mantendo-se a área VIP). Com essa iniciativa, aumenta-se a capacidade de público e consequentemente a arrecadação. Já temos um projeto pronto de reforma e ampliação do estádio José Bastos Padilha, na Gávea, para os jogos de menor porte. Quero reviver os jogos na Gávea. Simultaneamente, estamos em entendimentos na busca de um terreno na Baixada Fluminense ou na Zona Portuária para a construção do Urubuzão, com capacidade para cerca de 80 mil pessoas. Venho conversando com o arquiteto Aníbal Coutinho, que foi o responsável pela concepção do projeto da Arena Corinthians, em Itaquera. Estive conhecendo o estádio deles há uma semana e fiquei muito bem impressionado com o que vi. Para viabilizarmos o projeto, penso no Morro da Viúva, no Aterro do Flamengo. O clube tem um bem de altíssimo valor, que pode ceder em forma de concessão pelo prazo de 50 anos, renováveis pelo mesmo período. O clube não perde o seu patrimônio. Localizado numa das áreas mais valorizadas da cidade, de frente para o Pão de Açúcar, o Morro da Viúva está avaliado em torno de R$ 600 milhões, e sem sombra de dúvidas é de fundamental importância para darmos início à concretização do sonho do estádio próprio.

O DIA: Como será a postura da diretoria em relação ao comportamento dos jogadores do elenco? Haverá patrulha para evitar problemas como o recente afastamento de cinco jogadores?

Cacau Cotta: Jogador é um trabalhador, um profissional como qualquer outro. Tem direitos e deveres. Tem metas a cumprir. Tem de trabalhar, treinar, cumprir horários, ter assiduidade. Mas também tem que ter a sua liberdade de curtir seus momentos de folga da forma que lhe convier, desde que sua postura fora de campo não comprometa a imagem da instituição, que está acima de todos. Que fique bem claro isso. Jogador de futebol, sobretudo do Flamengo, é uma pessoa pública, que tem de redobrar seus cuidados para não se expor e não expor a imagem do clube. Admito até o fim da concentração, exceto em jogos de maior importância. Defendo a apresentação do elenco no hotel no dia dos jogos, a exemplo do que ocorre na Europa. Mas, para que isso ocorra, os resultados esportivos têm de ser satisfatórios, dentro do programado, do esperado. Quem define a forma de tratamento são eles (os atletas), que são funcionários do Flamengo. São os resultados esportivos desses jogadores dentro de campo e o comando do futebol. No caso ocorrido, o ideal seria treino em tempo integral e concentração antecipada e multa. E não punir o clube, que ainda mantinha chances remotas de classificação no G4.

Cacau prometeu Flamengo mais forte como clube formado nos esportes olímpicosNewton Nogueira/Divulgação

O DIA: Qual será a importância dos esportes olímpicos na sua gestão? Que tipo de investimento será feito? Em quais esportes? E a arena multiuso na Gávea sairá do papel?

Cacau Cotta: O Flamengo sempre foi um clube formador de atletas. Isso não ocorre mais por causa da política atual que privilegiou o pagamento de boletos, em detrimento dos investimentos nos esportes olímpicos. Defendo o retorno dos investimentos em todas as categorias olímpicas. Ginástica olímpica, esportes aquáticos, judô, futsal, tênis e remo. Temos de forjar uma política que direcione os investimentos em infraestrutura e desenvolver um programa voltado para repatriar os atletas que se transferiram para outras agremiações e para os sócios Laureados. Temos de manter os investimentos no basquete e não permitir a perda do espaço destinado ao tênis para a construção de obras de qualquer natureza (Arena McDonad’s). Penso em revigorar o espaço Maestro Junior para o retorno das competições do beach soccer. O remo, modalidade que tem de voltar a ser tratada com prioridade, conforme determina o estatuto do clube, não pode perder a sua hegemonia histórica no estado. As escolinhas do clube se encontram abandonadas. Vamos reativá-las, por entender que elas são fundamentais para a formação de novos atletas.