'Ganhar aqui no Flamengo vai ser diferente', avisa Muricy Ramalho

Técnico é apresentado na Gávea, exalta Zico, o clube e brinca com período de inatividade: 'Estou invicto há oito meses'

Por O Dia

Rio - Muricy Ramalho chegou leve, mas colocando na mesa o peso de seu currículo, na noite desta terça-feira, em sua apresentação, na Gávea. Aos 60 anos, o técnico, quatro vezes campeão brasileiro, embora pense a longo prazo, se mostra consciente de que, no Flamengo, a lógica brasileira de demitir quando o resultado demora a aparecer é regra. Porém, apoiado em seu histórico de conquistas, afirma que se garante e promete congestionar ainda mais a sala de troféus do clube. Do intercâmbio de 13 dias no Barcelona, o treinador trouxe conceitos que podem, para ele, revolucionar o esporte no país. Resta saber se terá tempo e autonomia para isso, como promete a diretoria rubro-negra, reeleita na última segunda-feira. O contrato de dois anos indica que sim.

'Aqui é trabalho!' Muricy Ramalho é apresentado pelo FlamengoAndré Mourão / Agência O Dia

Volta ao futebol

É um prazer, a gente ficou afastado do futebol para cuidar da saúde e da família. Foram vinte e poucos anos sem parar, não é fácil. Depois, fui estudar, que é importante, olhar com carinho a tendência no mundo em todas as áreas, não só no futebol, mas na parte administrativa, da base, que é super importante. A conversa que tivemos é de unificar todas essas categorias, escolher um modelo de jogo e sobre isso realizar os treinamentos específicos para todas as categorias. Não é tão rápido, mas é importante para o jogador, quando chegar, já ter a maneira de jogar, estar mais adaptado. Isso me chamou atenção, a autonomia, isso é muito legal, e claro que, junto dos projetos, não adianta se não ganhar, tem que ter resultados, isso que vamos tentar fazer.

Ninho do Urubu

Eu estive agora à tarde lá para conhecer. Acho importante aproveitar esses dias para começar a trabalhar. Uma das coisas foi conhecer o CT. Claro que falta muito, mas foi falado isso. Tem projeto emergencial para janeiro, já vai estar melhor, e daqui a um ano, definitivo. Esse é o caminho. Não tem futebol de alto rendimento sem resultados. Pode ganhar um, ou outro, na sorte, mas hoje não dá. Temos que melhorar, ver números, quem está na frente, por que está na frente. É só observar os que estão ganhando sempre. Esse é o caminho, a gente percebe que isso vai acontecer. A primeira etapa foi de saneamento das finanças e agora é da estrutura. É um caminho sem volta. Por isso estou aqui, para ajudar também, tenho experiência nisso, acredito, isso é importante.

Maior desafio

O desafio maior é conquistar. Tudo é importante. Planejamento, projeto, essa palavra tão desgastada já, ideias, mas se não tiver resultado, não dá para caminhar só com isso. O projeto vai junto. Estamos num país que não tem como, num grande clube como o Flamengo, não dá para esperar muito tempo sem resultado. Claro que sempre tentando melhorar a estrutura.

Cirino e Guerrero

Jogadores com a história que eles têm no futebol, o Guerrero e o Cirino, no Atlético-PR, não podem ter esquecido de jogar. Às vezes faz parte, tem que melhorar todos os sentidos. As pessoas olham só domingo e quarta. Tem que saber, converar, ver os números, para ver o problema dos jogadores, analisar e tentar corrigir. São jogadores muito importantes, com certeza vou estar com eles no ano que vem.

Trocas constantes de técnico no Fla

Não sou inseguro, ao contrário, sou muito seguro do que eu faço. Na minha carreira, sempre escolhi bem os lugares que trabalhei. Por isso que conquistei muito. Acho que fiz a escolha correta de novo. Contrato de dois anos, podem estender, e se virem meu histórico, a maioria dos meus contratos eu termino, dificilmente saio antes. Porque sou um cara que conquista, só tenho essa chance. Aqui não é diferente, devo ficar uns dois anos, um pouco mais, acredito nisso.

Muricy não se assusta com ciranda recente de técnicos no FlamengoAndré Mourão / Agência O Dia

Reforços e barca

Nesse momento agora, ainda é curto o período para se arrumar, damos mais importancia aos que vão chegar. A outra parte fica para depois. O que estamos pensando não é fácil. Acho que não podemos contratar por contratar, para justificar. Tem que ter bagagem, tem que ser um grande jogador para jogar no Flamengo.

Mudanças no tempo fora do futebol

Acho que a gente vai ficando mais experiente, estamos sempre aprendendo no futebol, na vida. O tempo que tive para parar um pouco, repensar a vida, o futebol, estudar, claro que você melhora. Mas falando, fica muito na conversa. Tem que esperar o dia a dia, os jogos, e aí vamos ver se foi válido. Acho que estou melhor. Estudar, ver jogos, conversar, isso tudo é importante.

Período sabático

Estou invicto, tem oito meses que não perco um jogo (risos). Como muitos que falam de futebol, como vocês (jornalistas), que nunca perdem. É muito bom não trabalhar também. Não sabia que era tão bom. Foram 22 anos sem um período desse. Treinadores, comissões técnicas, nós não temos férias. Tem contratação, reunião, há 22 anos eu não tinha isso, tinha esquecido. O futebol é incrível, uma bolha, difícil sair. Graças a Deus saí um pouco. Hoje estou feliz, renovado, com força de vontade e invicto.

Admiração pelo Zico

Zico, depois do Pelé, que é de outro planeta, foi o mais completo que eu vi jogar. Joguei contra ele várias vezes. É uma admiração, além do grande jogador, pelo homem. Temos que ter bons exemplos. Temos poucos no país. Ele é um deles. Participei da campanha dele para presidente da Fifa. Eu falava para ele que era melhor ser presidente da CBF, mas participei. Quando ele vai para São Paulo, temos um amigo em comum, o Mílton, vamos sempre jantar. É um grande prazer sempre. Trabalhar num clube que teve o Zico é fantástico. É diferente jogar contra, ter toda essa nação contra. Agora, graças a Deus, será a favor. É fundamental entederem isso. Vou dar meu melhor, sou desse tipo. Visto a camisa.

Aprendizado no Barcelona

Aproveitei para ver um pouco da parte técnica, de treinamento, mas o que mais me chamou a atenção foi a gestão profissional. Não tem mais volta no futebol, lá é tudo profissional. De manhã, via a parte técnica, no almoço, a administrativa e, no final da tarde, a base. Passei muito tempo com os professores e diretoria. Também dá para fazer aqui, unificar tudo, ideias de futebol, escolher um modelo e trabalhar com os professores. Tem que identificar o que é o Flamengo e trabalhar em cima disso. O técnico não vem impor a sua filosofia ao clube, tem que se adaptar ao clube. O clube tem que achar a ideia e econtrar um técnico para desenvolver. Aqui, troca toda hora de filosofia. Aqui, chega terça para ganhar na quarta. Conversei com a diretoria, agora tem que conversar com o pessoal da base, porque eles têm que aceitar, não dá para impor.

Pressão

Num time gigante como esse, tem que entrar sempre para ganhar. Não é pressão, é obrigação. Para treinador, comissão técnica e jogadores isso é normal. Fica sempre essa desculpa de que tem que ter tempo. Tenho dois anos, preciso ganhar. É Brasil, sou realista, não é pressão. É obrigação. Ou então, fico acomodado, com dois anos de contrato, mas não é bem assim. Se eu olhasse com carinho para a parte financeira, não estaria aqui. Mas é um desafio bom, vencer aqui vai ser diferente.

Evolução do futebol

A maneira de jogar muda. Hoje, as linhas são mais longas, controle de jogo e intensidade, transição rápida e velocidade. Vai mudando. As coisas acontecem naturalmente. Bola parada tem que treinar. Vi nos números que nós tomamos muitos gols bolas parada. Entao tem que treinar, tem que fazer sempre. Não é por altura, então tem algo errado. Mas vai mudando. O que jogamos lá atrás, o que era o São Paulo, essa época é outra.

Base

Não dá para acreditar que um sub-10, sub-12 perde campeonato, e o técnico é mandado embora. É um absurdo. Não tem filosofia de nada, é falta de convicção. Claro que é importante o resultado, tem que ensinar a ganhar, mas o principal é fazer jogador. Muda toda hora de filosofia. Por isso que quero tentar implantar isso de achar o modelo. A diretoria da base tem que entender isso. Se forçar só a ganhar troféu é complicado. Até na base mandamos técnico embora. No Barcelona todos treinam igual, sub-8, sub-10, sub-12, até as meninas. Pode entrar outro presidente, não vai mudar, está lá escrito, vai ser daquele jeito.

Time alternativo no Carioca

É uma estratégia do clube. Técnico não é dono do clube. Não sou de cuidar de jardim e comida, cuido do time. A ideia era separar, mas aí não conheço os jovens. Vamos levar todos para Mangaratiba. Muita gente, mas vamos alternar, com alguém, pode ser o Jayme, que é meu parceiro, joguei com ele no São Paulo, é amigo da minha família, fui no casamento dele não sei quando, estou ficando velho (risos). Não posso ficar longe do futuro. Tenho que acompanhar, ver os jogos, mas uma pessoa vai dirigir.

Número de reforços e posições

Difícil falar. Você fala quatro, cinco, seis, aí aparece um sétimo bom negócio. O mercado é assim, o Flamengo está aberto para isso. Temos setores que temos que olhar com carinho. No meio, pensador, um defensor também, mas tudo falando de nível A. Ou não adianta trazer. Difícil, é impressionante, tem muitos jogadores, mas não dessa qualidade.

Cartilha Muricy

Acho que não é cartilha, nada autoritário, mas com certeza o básico de um grande time que quer conquistar alguma coisa. Faz parte do trabalhador, são profissionais, recebem para estar aqui trabalhando, têm que ser disciplinados, se comportar bem, ter comprometimento com a camisa, trabalhar muito e dar resultado, porque vai ser cobrado. Isso é muito ramântico, jogar bonito, mas tem que dar resultado. O treinador dá objetivos e cobra, e isso vai ser cobrado. Não sou super disciplinador, cobro o que tem ser cobrado. E cobro mesmo.

Sheik

Fomos campeões no Fluminense. Agora se mudou para onde eu morava, vou ter que encontrar, aquela mala, mas é um cara que eu com certeza gosto de trabalhar, vencedor, tem personalidade, não pipoca, é parceiro, quando tem que treinar, treina, quando tem que jogar, dá a vida. É um cara com quem estou super feliz de trabalhar. Só ver o currículo.

Kaká

É um fora de série, tive a felicidade de voltar a trabalhar com ele no São Paulo em 2014. Ele fez a diferença, além de grande jogador, é um exemplo positivo, comanda dentro do campo, mas não falamos o nome dele, sinceramente. Ele tem contrato com o Orlando City, não foi um nome que foi falado.

Acabou a farra?

Não é a partir de agora, não sou dono de nada. Não dá para existir jogador que não responde, que tanto faz ganhar ou perder. É profissional, é cobrado por isso, natural, não estou fazendo nada excepcional. Não sou pai de ninguém, não é possível ficar cuidando, mas vou exigir o mínimo. Tem que pensar no torcedor. Esse tipo de jogador hoje não convence. Quando você vai contratar, tem que ver quem é. Só vir aqui por um bom contrato, e o resto? Estamos estudando isso também. Está vindo para dar resultado e vai ser pressionado para isso. Não quer, fica em Ibiúna, como eu estava, bebendo cerveja.