O guerreiro da Maré

Nascido e criado na favela carioca, o pugilista Roberto Custódio dá duro para alcançar o sonho do ouro olímpico

Por O Dia

Rio - Do balcão de uma locadora de vídeos na Maré para os ringues da Arena Olímpica do Rio. Em um espaço de 15 anos, o sonho de Roberto Custódio está muito próximo de se tornar realidade. Nascido e criado na favela da Zona Norte, há 28 anos, o pugilista conheceu o boxe graças ao projeto social Luta Pela Paz, que usa o esporte para afastar os jovens da violência — uma realidade tão rotineira na comunidade. Atualmente na seleção brasileira da modalidade, Roberto alimenta o sonho de uma medalha no ‘quintal de casa'.

“Eu cheguei no Luta em 2001, por conta de um ex-aluno me convidou para conhecer o projeto e praticar boxe. Naquela época tinha o Mike Tyson como estrela do esporte e logo eu pensei: 'Pô, vou aprender a brigar'. O intuito todo era aprender a brigar para eu me defender.O projeto fazia e ainda faz alguns eventos internos e eu vendo aquilo, vendo os meninos que lutavam sendo reconhecidos dentro da comunidade, todo mundo comentava e eu via que aquilo era uma coisa que chamava atenção tanto quanto o pessoal do tráfico, que andava armado, atraía do pessoal. Inclusive as meninas. Por isso eu coloquei na cabeça que tinha que ser lutador. A partir daí comecei a treinar sério para conquistar esse objetivo”, conta.

Roberto Custódio posa na laje de uma das casas na Maré. Ele conheceu o boxe através do projeto social Luta pela Paz Divulgação

Hoje, ele vibra com a chance de disputar a Olimpíada no Rio. Mas não foi fácil chegar até aqui. Em muitos momentos, Roberto pensou em desistir. “Quando cheguei à Seleção, não tinha a bolsa da Petrobras e ganhava muito menos do que hoje”, lembra.

“Eu ganhava muito mais como camelô, vendendo roupas, do que com o boxe”, revela o pugilista, que se imaginou enriquecendo com o esporte, como se fosse um jogador de futebol. “Mas está muito, muito longe disso. Ainda continua longe da realidade dos jogadores tops, mas conseguimos sustentar nossas famílias e ter planos além do boxe”, diz, orgulhoso.

Além do auxílio que recebe do Luta pela Paz, Roberto conta com a bolsa que recebe da Confederação Brasileira de Boxe (CbBoxe), graças ao patrocínio da Petrobras; o Bolsa Atleta — fornecido pelo Ministério do Esporte — e o salário no Exército. E se não tivesse conhecido o Luta Pela Paz? Nem mesmo Roberto imagina o que teria acontecido.

Roberto luta por uma das vagas na categoria até 69kg. A seletiva será no Pré-Olímpico das Américas%2C em marçoDivulgação

“Eu mesmo me pergunto o que seria de mim. Eu fui criado desde os 14, 15 anos no projeto e ficava o tempo to do por lá. De vez em quando eu pergunto ao meu treinador, o Gibinha: 'Eu estou aqui no projeto desde 2001, já vi vários garotos passando por aqui, entrando, saindo, indo para o crime, outros morreram. E eu ainda aqui'. Graças ao projeto eu tive meu primeiro emprego, ensinando as crianças e ajudando meu treinador. Toda vez sempre me perguntam a mesma coisa e nem eu sei o que responder. Uma certeza que eu tenho é que não teria ido para o mundo do crime de jeito nenhum. Amo minha liberdade. Eu sempre passo o mesmo recado para os meus alunos:'O esporte só depende de nós mesmos. As vezes você não tem educação, mas através do esporte, com dedicação, abraçando a oportunidade, você tem uma alternativa para crescer na vida'. É o que eu estou fazendo. Sei que a minha carreira vai ser curta, mas estou dando tudo de mim para chegar no fim, olhar para trás e ter certeza que dei tudo de mim no ringue, meu suor, meu sangue e aproveitei tudo que tinha para aproveitar”.

Roberto Custódio sonha com a possibilidade de conquistar a medalha de ouro nos Jogos no ‘quintal de casa’Divulgação

Para o menino de 15 anos que entrou para o Boxe porque só queria aprender a brigar, Roberto espera que possa conseguir uma vaga na Olimpíada do Rio, no 'quintal de casa', justamente para mostrar e provar para os seus alunos no Luta Pela Paz que se ele conseguiu, eles também podem.

"Com certeza vai poder mostrar tudo que eu falo para eles sobre acreditar no seu sonho, vai confirmar que se você se dedica e acredita no seu potencial, pode chegar longe no esporte e incentivar eles a acreditarem. Eles vêem os ídolos dele na televisão e não fazem idéia de como eles conseguiram chegar ali. Eu sou a prova viva para eles o que você precisa fazer para chegar lá. Eu acredito muito nesse tipo de legado. Pelo exemplo mesmo. Me sacrifiquei, me dediquei ao esporte e consegui chegar no objetivo de qualquer atelta sonha. O que eu quero é passar a esperança para juventude através do esporte".

Chance para realizar o sonho será em março

Para realizar o sonho de disputar uma Olimpíada em casa, Roberto Custódio precisará se dedicar ao máximo em março. Entre os dias 8 e 20, acontece o Pré-Olimpíco Continental de Boxe, em Buenos Aires. Será a melhor oportunidade de Roberto para garantir sua vaga no Rio, na categoria até 69 kg.

Por enquanto, o Brasil só possui um lutador garantido na Olimpíada: Robson Conceição, na categoria até 60kg. No total, o Brasil tem direito a cinco vagas no masculino e uma no feminino por ser o país-sede.

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