Vadão aposta em um Brasil menos dependente de Marta na busca do ouro

Inspiradas pela seleção feminina de vôlei, meninas brasileiras tentam superar os traumas de Pequim e Londres para buscar a medalha inédita para o futebol nos Jogos Olímpicos do Rio

Por O Dia

Rio - Desde a superação das derrotas dramáticas em decisões à relação entre comandado e comandadas, a Seleção feminina de vôlei serve de inspiração para as meninas do futebol que tentarão o inédito ouro olímpico. Vadão espera seguir os passos de José Roberto Guimarães e conseguir fazer com que o fantasma das pratas em Atenas-2004 e Pequim-2008 não volte a aparecer no Rio. E aposta em uma Marta com menos ‘responsabilidade’ como protagonista.

Na expectativa pelo ouro na Rio-2016%2C Vadão aposta em uma Martha com menos responsabilidadeMárcio Mercante / Agência O Dia

ODIA: A Seleção feminina tem duas pratas olímpicas. Você sente nas meninas mais experientes uma ansiedade pelo ouro?

VADÃO: O trabalho que a gente está fazendo é desconectar o passado. A gente só não desconecta o passado quando aprende com aquela derrota. Se aquilo te ajudar a ganhar, é importante. O que não pode é não desconectar o passado e levar aquilo pensando: ‘Será que vai acontecer a mesma coisa?’. Não tem será. Quem fala ‘será’ não vai ganhar. O passado só serve para te fortalecer, para ganhar o futuro e o presente que você está vivendo. Se não canalizar isso para o lado bom, faz mal.

Vocês tiveram uma palestra com o técnico da Seleção feminina de vôlei, José Roberto Guimarães. Como foi esse contato?

O Zé Roberto foi muito feliz, acertou onde tinha que acertar. E acertou porque tem experiência, vivenciou e relatou fatos verdadeiros. A trajetória dele é muito parecida com a nossa. Ele falou que as meninas tinham que entender que a gente perdia na força, no último set porque já estávamos esgotados... Tem que aprender a defender, a fazer tudo. A nossa cultura não está funcionando mais, de que o jogador talentoso decide. Tem que ter um time organizado. O que o Zé Roberto fez no vôlei a gente fez aqui. A única coisa é que ele já ganhou a medalha (risos).

O que você imaginava do trabalho com a Seleção feminina quando assumiu o cargo, em abril de 2014?

Para mim, foi um mundo novo. Eu imaginava: ‘Nunca fiz isso e vou ter que ser rápido, aprender rápido’. Enfim, me passavam duas mil coisas na cabeça ao mesmo tempo. Mas era uma chance que eu não podia desperdiçar. Era a chance de vir para a CBF, disputar um Mundial, uma Olimpíada, um Pan. Tem sido muito bom.

O que representa na sua carreira a disputa de uma Olimpíada?

É um privilégio você ser escolhido, ainda mais pela seleção brasileira, que representa muito. O futebol ainda é o mais popular, o mais cobrado. O fato de a gente ainda não ter ganho uma medalha de ouro motiva ainda mais. Pode ser que a gente vá lá e ganhe. Ganhar uma medalha de ouro com uma seleção que ainda não ganhou seria o segundo privilégio.

O que a torcida brasileira pode esperar da Marta na Olimpíada?

Se nós jogarmos aquilo que estamos treinando para jogar, não precisa se preocupar com a Marta, porque ela não vai ficar com a responsabilidade sozinha. O que não podemos é o time não estar bem e falar: ‘Ela que se vire’. O Barcelona leva a bola para o Neymar resolver. Nós que temos que ter um time forte, organizado, e que a Marta fale: ‘Jogue em mim que aqui perto da área eu resolvo’

Você já acompanhava a Marta, mas como é trabalhar com ela?

Trabalhar com a Marta é fácil, tranquilo. Ela é top de linha. Não abusa do prestígio que tem. Taticamente, se precisar trocá-la de posição, pelo bem da equipe, ela faz. A gente sabe onde ela prefere jogar, mas, às vezes, estrategicamente, a gente tem que mudar. Ela não abusa. Tudo ela respeita. Eu não a conhecia. Achei que poderia ser difícil porque a gente não sabe, né? Curiosamente, as duas que todo mundo quer entrevistar, a Formiga e a Marta, são muito fáceis de lidar.

Quando você assumiu, perguntaram muito sobre a sua expectativa de trabalhar com as mulheres. O convívio com elas era o que você esperava?

Foi bom. Elas me ajudaram bastante também. Mulher é assim, se elas não botarem muita fé em você, demora para as coisas andarem. Não sei se elas botaram muito ou pouca. Mas eu fui pisando aos poucos, fui tomando meus cuidados até conhecê-las melhor. Eu tenho duas mulheres em casa, minha filha e minha mulher. Mas com 30 é diferente, né? (risos).

Sua filha quis ser jogadora de futebol...

Ela fica contando essas histórias (risos). Ela gostava. Era criança praticamente, tinha 11, 12 anos. Depois, ela jogou handebol. Fez balé um bom tempo. Eu morava em Mogi Mirim, então fui ver o ambiente para ela jogar e não dava. Imagine 24 anos atrás. Se hoje o futebol feminino está brigando para melhorar e melhorou, imagina como era lá atrás. Ela lembra disso porque gosta de ficar me cutucando. Mas não jogava nada, se ainda fosse craque (risos).

Ao assumir a Seleção feminina, você passou a ter uma preocupação maior com a divulgação da modalidade?

A gente teve que se preocupar com tudo. Eu tinha uma imagem no masculino, principalmente no Estado de São Paulo, e as pessoas me entrevistaram mais por ser eu do que pelo futebol feminino. Eu falo da Seleção permanente porque eu tenho que dar ênfase. A CBF paga salário para as atletas e vem dando ótimos resultados. Tem que ser um projeto contínuo.

Como é a adaptação das meninas que vêm dos times de fora com as da Seleção permanente?

Cada uma vem de uma forma. A China trabalha de um jeito, os Estados Unidos de outro. Nós vamos monitorando para saber o nível em que estão de força e na questão orgânica, de velocidade. Depois fazemos trabalhos específicos para cada uma com a intenção de todas chegarem ao mesmo nível.

Você tem no seu currículo o lançamento de estrelas como Kaká e Rivaldo. Existe alguma promessa na Seleção feminina?

Já fiz essa proeza no Mundial quando coloquei a Andressinha, que é tecnicamente privilegiada. Ela vai ser uma das melhores jogadoras. Só que todo mundo a compara com a Marta. É o grande engano que a gente comete. A Andressinha prepara a jogada para a finalizadora. Se começar a comparar com a Marta, daqui a pouco vão querer que ela faça 100 gols pela Seleção. Ela não é artilheira , ela é a organizadora.

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