No gatilho, Guilherme Paraense abriu as portas da história olímpica do Brasil

Tenente do Exército conquistou a 1ª medalha de ouro do país

Por O Dia

Guilherme Paraense abriu o caminho de ouro do BrasilDivulgação

Rio - Ele abriu, à bala, o caminho para uma legião de campeões olímpicos no Brasil. Em 1920, nos Jogos da Antuérpia, o tenente do Exército Guilherme Paraense imortalizou seu nome na história ao conquistar a primeira medalha de ouro para o país, no tiro esportivo (naquela época chamado de tiro ao alvo), na categoria pistola rápida. Noventa e seis anos depois a façanha pode se repetir no Rio com Felipe Wu, que tem boas chances de mirar a dourada medalha na pistola de ar 10 metros e 50 metros. Se depender da família Paraense, torcida não faltará.

“A história do Brasil na Olimpíada não tem como ser contada sem citar meu avô. Foi dele a primeira página. Uma nova medalha de ouro só remeteria ao feito dele, o que enalteceria muito o tiro esportivo e acabaria com a fama de que é um esporte politicamente incorreto”, diz Valéria Paraense, neta de Guilherme e que cuida com extremo zelo do acervo do avô.

Em seu apartamento na Tijuca estão guardadas algumas relíquias que contam a trajetória do atirador, nascido em Belém, e que começou, por acaso, a levar o tiro a sério. Para agradar à netinha de um oficial, que cismou em presentear a mãe com uma orquídea pendurada no alto de uma palmeira, vários atiradores tentaram, sem sucesso, acertar a haste da flor. A última tentativa coube a Paraense, que fechou o olho esquerdo e atirou, acertando em cheio. Nascia ali o futuro campeão. Até o final dos anos 1910 ele já havia conquistado o Campeonato Brasileiro e o Sul-Americano e ainda por cima ajudou a fundar no Rio de Janeiro, com outros atiradores, o Revólver Club.

Valéria exalta a história do avôMárcia Vieira / Agência O Dia

Conhecido pela tranquilidade e pontaria precisa, Paraense foi convidado a fazer parte da delegação brasileira de tiro na estreia oficial do país em Jogos Olímpicos. Foi no campo do exército belga, perto de Waterloo, onde Napoleão Bonaparte sucumbiu em 1815, que o brasileiro fez história. Nem o forte vento foi capaz de impedir que seu último tiro, na prova de pistola rápida 25m, acertasse o alvo. Ao somar 274 pontos, dois a mais do que o favorito, o americano Raymond Bracken, Paraense conquistou o mundo.

“Depois da série, vovô ficou cansado e sentou perto de uma moita para descansar e esperar o final da prova. Acabou cochilando. Era a cara dele”, lembra a neta: “Foi acordado aos gritos de campeão. Os americanos tentaram impugnar alegando que ele era militar. Mas os belgas não deram bola. Foi a glória”.

Uma odisseia para disputar a Olimpíada

Festejados como heróis nacionais no retorno ao país, os integrantes da delegação de tiro enfrentaram várias adversidades para chegar à Antuérpia. A bordo de um navio de segunda classe, o Curvello, eles tiveram que optar por dormir no chão do bar para fugir do calor infernal das modestas acomodações. Para piorar, a viagem atrasou e os atletas tiveram que chegar à Bélgica de trem.

Durante o percurso, ainda foram roubados e perderam parte da munição, alvos e armas. “Muitas publicações dizem que a arma do meu avô foi emprestada pelos americanos. É lenda. A arma que o atirador Afrânio da Costa ganhou a prata pode até ser, mas a do vovô era a mesma que ele guardava com o maior carinho na garagem de casa”, garante Valéria.

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