Por cadu.bruno

Rio - O Rio de Janeiro esperou sete longos anos pela Olimpíada, entre o anúncio oficial da cidade como sede dos Jogos, em 2009, e a cerimônia de abertura, na última sexta-feira. Mas o clima de festa que se esperava nas ruas, a exemplo da catarse que aconteceu na Copa do Mundo, está demorando a chegar. Famoso pelo seu espírito esportivo, uma expressão que, a rigor, nada tem a ver com esporte, o carioca ainda não adotou outro espírito, o olímpico.

“É uma grande oportunidade que estamos perdendo. Adoro esporte, também gosto de política e não faço vista grossa para os problemas da cidade. E nem renego as conquistas que tivemos. Mas não aproveitar um evento desta grandeza é um desperdício. A gente tem que viver esta Olimpíada intensamente. Não vai ter outra”, diz Antônio Carlos Laffargue, o Toninho, vascaíno e mangueirense que comanda a cozinha do famoso Bar do Momo, na Tijuca.

O historiador Marcos Alvito, rubronegro, doutor em antropologia social pela USP e especialista em cultura popular carioca, tem uma explicação para a desconfiança não só do Rio, mas do Brasil com os Jogos.

“O país vive praticamente uma monocultura esportiva. A gente gosta de futebol e, quando muito, do esporte que ganha, que pode ser Fórmula 1, surfe ou peteca. E a Olímpíada não gira em torno do futebol. E o povo também está ressabiado com a seleção após os 7 a 1 da Copa”, brinca Alvito, que é um apaixonado por esportes.

A crise política e o legado de elefantes brancos deixados pela Copa do Mundo também contribuem para um inesperado mau humor do carioca em plena Olimpíada, explica o historiador.

“O carioca é tudo, menos otário. Os Jogos causaram muitos problemas à população, mas a gente vinha levando, confiando num processo de recuperação da cidade, fruto de uma aliança entre os governos que era vista como positiva. Mas a Copa mostrou que estes megaeventos foram uma gastação de dinheiro e uma roubalheira. O somatório destes fatores explica um pouco do clima que estamos vivendo, infelizmente”, completou.

Moradora do Complexo da Maré, a jornalista e fotógrafa Rosilene Miliotti vive na pele a realidade descrita por Alvito. Ex-jogadora de handebol e casada com um judoca, ela está na torcida pelo Brasil, irá assistir às competições, mas sabe que ao seu redor tem muita gente com pé atrás em relação aos Jogos. Como ela.

“Não sou contra as Olimpíadas, mas sou contra muita coisa que é feita em nome dela. Convivo com muitas remoções, com violações de direitos diárias, tiroteio, chacina. Além disso, em nome da tal mobilidade, tiraram o transporte do subúrbio justificando que seria a solução para os engarrafamentos. E foi? Não. A cidade ficou completamente parada nos últimos dias. Que legado foi esse?”, questiona Rosilene.

À espera de resultados 

Há quem diga, no entanto, que o carioca vai descer do muro em relação à Olimpíada, à medida que o país for subindo ao pódio nos próximos dias. Se a seleção de futebol ajudar, melhor ainda. A noite de hoje pode ser um divisor de águas, com a partida contra o Iraque.

“A gente ainda está com a ressaca da Copa do Mundo na cabeça. A paulada foi grande. Está todo mundo desconfiado. Mas, se a gente golear o Iraque, o Neymar e o Gabigol arrebentarem, amanhã já entra todo mundo no clima e vamos comemorar até golfe”, brinca José Agripino, o Ruço, folclórico balconista da padaria Gran Rio, na Lapa.

Este também foi o clima registrado na pesquisa do Datafolha encomendada pela Fecomércio (Federação do Comércio do Estado do Rio) e divulgada pelo DIA na edição de sexta-feira. Apesar da desconfiança em relação à capacidade do Rio em receber os Jogos (apenas 49% do cariocas creem que a cidade está preparada), 61% confiam no êxito da Olimpíada.

O produtor cultural Raphael Vidal é um dos que se encaixam perfeitamente neste perfil traçado pela pesquisa. Carioca apaixonado pelo Rio, já ganhou o apelido de “maluco fundamental da cidade”.

Inicialmente crítico aos Jogos, na noite de quinta-feira era mais um na multidão de boêmios que foi à Copacabana prestigiar a condução da Tocha Olímpica pelo garçom Agnaldo, algo que só foi possível graças a uma campanha feita pelos clientes e amigos do Galeto Sat’s, que conseguiu seduzir o Comitê Rio 2016 às vésperas da cerimônia da abertura.

“Este é o espírito do carioca, do Rio de Janeiro. Não seria diferente. Somos a cidade que celebra os Jogos Olímpicos ao mesmo tempo que critica. Não há nada de novo nisso. São as contradições que vivemos diariamente”, brincou Vidal, entre um chope e uma espiada nas competições na TV.

Você pode gostar