Por pedro.logato

Rio - Thiago Braz tinha o sonho de voar. Na noite de segunda-feira, no Estádio Olímpico, ele conseguiu com a ajuda de uma vara. Mais do que os 6,03m que alcançou, o atleta segue nas nuvens com o inesperado — até para ele — ouro conquistado. Com apenas uma hora e meia de sono, Thiago ainda não sabe bem o que é ser campeão e recordista olímpico. Sem tempo para curtir o momento e comemorar com a família, já planeja voos cada vez mais altos. Se antes nunca havia chegado aos seis metros, agora ele quer muito mais.

“Meu técnico fala que nosso corpo não tem limite. É uma prova de superação. Espero conquistar medalhas em mundiais e meu sonho também é ser um recordista mundial”, afirmou Thiago, que derrotou o atual dono da marca, o francês Renaud Lavillenie (6,16m).

Thiago Braz concedeu entrevista coletivaAna Patrícia/COB

Se depender do técnico ucraniano Vitaly Petrov, Thiago vai chegar ao recorde mundial em até dois anos. Responsável por treinar desde pequeno a lenda do salto com vara Sergei Bubka, que quebrou o recorde mundial 35 vezes, e a russa Yelena Isinbayeva, ele vê o brasileiro com alguns aspectos melhores que o multicampeão ucraniano.

“Se Bubka saltou 6,14m, por que o Thiago não pode? Ele já tem vários parâmetros em que é melhor, por exemplo a empunhadura (o brasileiro segura a vara 10cm mais alto do que Bubka). Já melhorou a corrida e o que precisa aperfeiçoar é o número de passadas (dá 18 e o ucraniano quer 20). Daqui a um ou dois anos ele bate o recorde mundial”, profetizou Petrov, que após a derrota do brasileiro no Pan de Toronto pediu ajuda de um bioquímico para melhorar a alimentação para que o atleta ganhasse massa e chegasse ao peso ideal: 83kg, o que conseguiu.

“Ele come de cinco a seis vezes ao dia e a mulher dele ajuda muito (a atleta Ana Paula de Oliveira). A saída do amadorismo para o profissionalismo foi importante para o Thiago”, analisou.

Thiago Braz conquistou o ouro inédito para o Brasil no salto com varaAlexandre Cassiano / O Globo / NOPP

AVÓS COMO PAIS DE CRIAÇÃO

Além do técnico, chamado pelo campeão olímpico de pai, outro ponto de apoio foi a família. Abandonado pelos pais quando tinha dois anos, Thiago teve nos avós paternos, Maria do Carmo e Orlando, o pilar amoroso e educacional para se desenvolver, e no tio Fabiano, atleta de decatlo, a base esportiva.

Com o tempo, Thiago voltou a ter contato com os pais, mas ainda assim distante. Agora, com a conquista, vê a possibilidade de uma aproximação maior.

“Eu não sei exatamente da história completa dos meus pais, acho que eles brigavam bastante. Eu passei por essa situação, mas minha avó me acudiu, me explicava que, apesar dos erros, eles mereciam o perdão. E foi o que fiz, mas, meu vínculo amoroso é com meus avós. Agora, acho que todos da minha família vão se aproximar. Não posso tirar o gostinho deles. Gostaria de poder comemorar com todos juntos, o que não sei se será possível”, afirmou.

FICHA NÃO CAIU

Antes de comemorar, Thiago quer curtir o momento especial que, admite, ainda não entende direito. Aos 22 anos e em sua primeira Olimpíada, ele começou a competição se contentando em conquistar um bronze. Veio a medalha de ouro com o recorde olímpico, o que promete mudar definitivamente a sua vida a partir de agora.

“Não consigo entender o que está acontecendo, estou meio perdido. Eu não imaginava ganhar o ouro, queria pegar o bronze porque seria importante para mim e para a carreira. Só quando cheguei a 5,93m eu comecei a acordar para a prova e sabia que poderia conseguir um bom resultado”, contou Thiago, que agradeceu o apoio dos torcedores no Engenhão: “A torcida brasileira foi extraordinária. Nós todos ganhamos a medalha de ouro juntos.”

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