Por pedro.logato

Rio - Com estratégia arrojada, as velejadoras Martine Grael e Kahena Kunze fizeram história ao conquistar a primeira medalha de ouro feminina na vela brasileira, na estreante classe 49 erFX. Foi o ouro da ousadia. De quem confiou nos instintos para decifrar a direção do vento, virou o jogo na última boia e venceu nos últimos metros, em uma chegada emocionante. Dois segundos atrás ficaram as neozelandesas Alex Maloney e Molly Meech, que ganharam a prata. O bronze foi das dinamarquesas Jena Hansen e Katsja Steen Salskov-Iversen. A consagração em casa, aos pés do Pão de Açúcar, na deslumbrante Baía de Guanabara, foi à altura da façanha.

“Foi na hora, o vento muda muito aqui. Tem que ter um olho para fora da raia. A gente já tinha a prata garantida. Foi uma decisão difícil, porque resolvemos ir sozinhas para um lado e abandonamos as duas primeiras do outro lado. Mas foi a única chance que a gente teve de ultrapassá-las e deu certo”, revela Kahena, ainda em êxtase com a conquista: “Não caiu a ficha ainda, eu preciso respirar um pouco e admirar essa medalha maravilhosa.”

Martine Grael e Kahena conquistam a medalha de ouro Severino Silva

Com os olhos marejados, Martine Grael contou o quanto a observação de todas as regatas ajudou a dupla a tomar a decisão certa na última volta: “A gente esperou o vento e veio a rajada. Conseguimos cruzar ainda atrás e aproximar de novo. No último contra-vento fomos com tudo para à esquerda, porque a bandeirinha do Brasil, lá no forte, estava tremulando e a gente viu que ia ser bom”, revelou.

SANGUE FRIO E PACIÊNCIA

De longe, na Praia do Flamengo, a torcida foi à loucura quando viu o veloz barco brasileiro deslizando sob uma poderosa rajada de vento rumo à vitória improvável. Ao começar a regata, a dupla brasileira estava empatada com as espanholas Tamara Echegoyen e Berta Betanzos, e as dinamarquesas Jena Hansen e Katsja Steen Salskov-Iversen, com 46 pontos perdidos, e seguidas bem de perto pelas neozelandesas Alex Maloney e Molly Meech com 47 — e precisava chegar na frente das adversárias se quisesse vencer, pois a pontuação da prova era dobrada.

Brasileiras comemoram a medalha de ouroSeverino Silva

Mesmo passando a maior parte atrás, as brasileiras tiveram sangue frio e muita paciência para vencer. Provando que, apesar dos sobrenomes famosos, têm luz própria para velejar por muitos anos no topo do esporte.

Se Kaena é filha de Cláudio Kunze, campeão mundial júnior da classe Pinguim, e com a sua conquista consolida a tradição vitoriosa da família, com Martine então nem se fala. A filha do bicampeão olímpico Torben Grael, dono de cinco medalhas em Olimpíadas, mostra que tem talento suficiente para manter viva a dinastia dos Grael.

Orgulhoso com a conquista da filha, Torben estava emocionado com a primeira medalha de ouro de Martine. Ao ser perguntado se ela poderia ultrapassá-lo no futuro nem titubeou. “Ela já me passou, eu só fui ganhar uma medalha de ouro bem depois do que ela, que já tem o título de velejadora do ano antes de mim. Essa comparação só serve de incentivo a ela. Mas cada um faz a sua história”, disse, emocionado.

Ao saber da declaração do do pai, Martine foi modesta. “O meu objetivo é ser uma velejadora melhor independente de resultados e medalhas”, disse a velejadora, que celebrou a conquista correndo em direção à torcida tremulando uma enorme bandeira do Brasil.

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