Por fabio.klotz

Rio - Faz tempo que o Vasco não vence o Flamengo. De abril de 2012 para cá, Felipe, autor de dois gols naquele 3 a 2 e herói do último triunfo, por exemplo, mudou de vida. Hoje aposentado, o eterno maestro trocou o gramado pela areia e não falta mais tempo para o bom e velho futevôlei. A sinceridade e a língua afiada, entretanto, são as mesmas.

Felipe brilhou na última vitória do Vasco sobre o Flamengo%2C em 2012Ernesto Carriço

Com a experiência de quem viveu mais de 20 anos jogando profissionalmente, Felipe, em entrevista exclusiva, fez uma análise do clássico deste domingo, falou sobre o jejum de nove jogos do Vasco e sobre a pressão que o time sente ao pegar o arquirrival. Com 37 anos, o ex-jogador também já começou a planejar o seu futuro e não descartou atuar fora das quatro linhas.

O DIA: O jejum de nove jogos sem vitórias (cinco derrotas e quatro empates) é um adversário a mais para o Vasco superar?

FELIPE: O clássico entre Vasco e Flamengo sempre foi um campeonato à parte. A rivalidade é muito grande. E não importa a situação das equipes, o estádio vai estar cheio. O jejum atrapalha, mas o Flamengo está invicto há um bom tempo (desde abril de 2012) porque, de repente, acaba sendo mais audacioso. O Vasco respeita demais. Existe aquele medo do ‘será que vamos perder de novo’. Essa preocupação acaba inibindo e tirando a ousadia do time. Por isso que o importante é a torcida comparecer e apoiar durante os 90 minutos. A paciência dos vascaínos será fundamental.

Você marcou dois gols na última vitória do Vasco sobre o arquirrival. O que lembra daquela 3 a 2 na semifinal da Taça Rio de 2012?

O time do Vasco tinha vindo muito bem no Campeonato Brasileiro de 2011 e a gente estava na Libertadores. O Flamengo não vinha em momento bom, mas o Vagner Love provocou, disse que a vitória era certa, que ia fazer gol mesmo se o Dedé jogasse. Isso nos motivou ainda mais. Mexeu muito mesmo com a gente e fomos felizes. Tínhamos um time melhor, mais entrosado e que conhecia suas limitações. Após o jogo, com a vitória garantida, lembro que mandei um recado para eles. Disse que futebol se ganha em campo e não com a boca. Quem ganhava alguma coisa com a boca era cantor (risos). Ninguém pode cantar vitória antes do tempo, ainda mais em um clássico. A gente ganhou e eles foram eliminados e ficaram 28 dias sem jogar.

Foi a grande atuação em um clássico na sua carreira?

Foi diferente por ter feito os dois gols, algo que foge das minhas características. Ainda mais contra o Flamengo, nosso maior rival. Foi um ponto fora da curva. Por isso acho que ficou marcado para os torcedores. Fomos superiores o clássico todo. Fizemos 1 a 0 e comandamos o duelo. Em um jogo de nível alto, sair na frente é importante. É um jogo de xadrez e qualquer vacilo pode ser fatal. É só lembrar que o Vasco perdeu o título do Estadual do ano passado na última bola, em um lance impedido.

Você acha que o histórico de erros nos últimos clássicos, principalmente contra o Vasco, aumentará a pressão sobre João Baptista Arruda?

A pressão sobre o árbitro sempre existe. Ainda mais tratando-se de clássico. Os dois lados reclamando. Mas acho que eles têm de ser profissionais. Não podem errar, ainda mais para um mesmo lado. Quero acreditar que não fazem de propósito, mas são muitas as coincidências. O nível é baixo, erros acontecem e mostram que a profissão precisa ser levada a sério, ser melhor remunerada para que os árbitros não dependam de outro sustento. No caso do árbitro do clássico de hoje, o clima será desfavorável. Se errar a favor do Flamengo, vão achar que está mal intencionado. Acredito que ele vá errar. Infelizmente tornou-se algo normal, mas espero que não seja decisivo a ponto de estragar o espetáculo.

O que você acha que acontece em campo?

O Vasco vem fazendo um bom campeonato, mas ainda é uma equipe em formação. Estão chegando umas peças importantes e o entrosamento vem com o tempo. Os resultados já são satisfatórios, mas o nível é bom apenas para o Estadual. Para o Brasileiro falta muito. O Estadual não é parâmetro e espero que eles vejam isso. O Flamengo aparece com o time melhor posicionado, pois manteve a espinha dorsal e fez contratações pontuais. Espero que seja um ótimo espetáculo, com casa cheia e que vença o melhor: o Vasco (risos).

Felipe está na torcida por uma vitória do Vasco Ernesto Carriço

Na dá aquela vontade de entrar em campo e jogar?

Não penso mais em voltar a jogar. A chance é zero (risos). Não tenho do que reclamar da nova vida. Jogadores de referência, como Edmundo, foram ter a despedida quase cinco anos após pararem. Não tenho essa preocupação nem frustração se me aposentei no Vasco ou não - Felipe pendurou as chuteiras quando estava no Fluminense. Se tiver um jogo de despedida estou tranquilo, mas não é algo que fique pensando.

A imagem que você deixou no Vasco é a que você gostaria?

Tive uma carreira muito legal e, felizmente, pude escrever o meu nome na história do Vasco. O clube tem mais de 115 anos de fundação e eu sou o atleta que mais conquistou títulos. Sou um privilegiado por isso. Pude conviver com jogadores sensacionais como Romário, Edmundo, Pedrinho, Juninho, Ramon... o próprio Roberto Dinamite. Importante que vou ficar marcado na história do clube e no coração da torcida. Esse é o maior presente que eu ganhei em tantos anos de carreira.

Em 2013, você deixou o Vasco e foi para o Fluminense após desentendimento com o então diretor de futebol René Simões. Ficou alguma mágoa com o Gigante?

Ainda tinha contrato em vigor. Foi uma situação que o Dinamite (presidente do clube na época) acreditou no René. Ele optou por rescindir o contrato e acabei indo para o Fluminense. Pela história que eu tinha no Vasco não tinha necessidade disso, mas não ficou nenhuma mágoa. O Vasco é muito maior que isso e a minha história é muito maior que esse episódio. Nunca fui amigo do Roberto Dinamite, nossa relação era estritamente profissional, mas ainda o respeito muito.

Por muito pouco você não voltou ao Vasco ano passado como auxiliar técnico de Joel Santana. É uma carreira que você pretende seguir?

Vou fazer um curso da CBF no meio do ano. É uma possibilidade que me atrai muito, mas, por outro lado, voltar a essa rotina de treino e concentração é muito desgastante. Vou fazer o curso, mas ainda não sei onde isso vai me levar. O mais gostoso agora é ter tempo para a minha família. Bater meu futevôlei, levar meu filho ao futebol, ao colégio. É algo que não tem preço e antes não podia fazer. Isso é bom. Ser comentarista, algo do tipo, também é uma possibilidade. Recebi um convite, mas não chegamos a um acordo. Não devo me desligar totalmente do futebol, pois vivi 20 anos profissionalmente. Estou estudando proposta.

E o que tem feito com tanto tempo livre?

Está tudo tranquilo. Tenho tempo para fazer muita coisa (risos). Também administro alguns negócios particulares fora do futebol. Existe um ditado que diz: ‘O olho do dono é que engorda o gado’. Vou estar por dentro das minhas coisas, mas essa carreira de administrar negócio, empresa, não é a minha. Trabalhar todos os dias com afinco... não levo muito jeito (risos). O futebol é mais fácil.

Pensa em matar a saudade dos gramados no Showbol?

Estou com o Pedrinho todos os dias, que é meu amigo desde os seis anos. Ele já tentou me convencer, mas não é a minha. Posso até ir para rever os amigos, bater aquela resenha no vestiário, mas para jogar não.

A atmosfera do clássico realmente não mexe contigo?

Vou ser sincero. Não estou com saudade. Já vinha me preparando para quando parasse. Minha qualidade de vida está tão boa que não dá essa saudade. Dá vontade de trabalhar com futebol, mas não de abrir mão do que abria para jogar bola. Sou muito bem resolvido sobre essa situação. Dá vontade de ver o jogo. Mas muito pouco, pois quase não vou a estádios. É no mesmo horário do futevôlei com os amigos (risos). Como abri mão do futevôlei durante muito tempo para jogar futebol, resolvi inverter agora.

Arrisca um placar?

Espero que o Vasco vença por 1 a 0, com gol marcado pelo Gilberto.

Você pode gostar