Por pedro.logato

Rio - Bernardo foi vaiado, não suportou a pressão e chorou ao deixar o gramado na partida contra o Rio Branco, do Acre. A cena surpreendeu a todos em São Januário e deixou mais uma vez evidente a fragilidade emocional do jogador. Perseguido por parte da torcida, ele paga o preço após seguidos deslizes fora de campo, mas precisa de carinho, alertam seus companheiros e parentes. E ombro amigo é o que não vai faltar em casa e no vestiário.

Além de o grupo manifestar apoio ao meia, o pai de Bernardo, o ex-atacante Hélio, que mora em Sorocaba, no interior de São Paulo, revelou que virá ao Rio, neste fim de semana, para passar tranquilidade e estar ao lado do filho.

Bernardo deixou gramado chorandoUanderson Fernandes

“Vou com a minha esposa e mais dois filhos dele — Bernardo tem quatro. Nesse momento, ele precisa de carinho e só os mais próximos conseguem dá-lo. Não existe nada igual a colo de pai e mãe”, ressaltou Hélio, que já conversou com o jogador por telefone após a partida.

“Ele disse que um pequeno grupo encheu a paciência dele e que o choro foi para desabafar. Depois de uma noite ruim, acordou melhor, e garantiu estar focado para a sequência do trabalho”, completou.

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No grupo do Vasco, Bernardo também encontrou suporte. Quando entrou no vestiário, ainda aos prantos, ele reclamou com funcionários do clube que sua situação estava complicada, pois já não tinha tranquilidade em campo. Assim que chegaram ao local, os outros jogadores, entretanto, fizeram questão de levantar o moral do companheiro com palavras de incentivo.

“Bernardo é um grande jogador, experiente, mas que está com o lado psicológico abalado. É preciso manter a cabeça fria. Vamos dar carinho, pois precisamos muito dele”, admitiu o lateral-direito Madson.

O choro incontido é mais um episódio na conturbada história de Bernardo com o Vasco. Este ano ele prometeu redenção, mas, após boas atuações nos primeiros jogos, voltou a acumular polêmicas.

Além das expulsões infantis contra o Barra Mansa e o Flamengo, o jogador foi multado e cortado do clássico com o Botafogo, após chegar atrasado ao treino da véspera por perder a hora. Na noite anterior, ele havia ido a um casamento. Uma foto tirada em uma balada ao lado de Adriano Imperador também foi alvo de críticas dos vascaínos.

Para aumentar a pressão, um grupo de torcedores recentemente chegou a criar o ‘Disque-Bernardo’, um serviço para monitorar as investidas do atleta na noite carioca.

Bernardo foi agredido por Anderson Pico em duelo com o FlaAndré Mourão

Psicanalista e pai põem lado emocional em discussão

O ocorrido com Bernardo abriu uma nova discussão: até que ponto é importante trabalhar o lado psicológico de um atleta profissional? Hélio, o pai do jogador, acredita que o Vasco deveria ter colocado profissionais para acompanhar o filho após o sequestro em 2013 — ele foi torturado por Marcelo dos Santos das Dores, o Menor P, líder do tráfico na Maré.

“Um acompanhamento era importante, até para o Bernardo se preocupar apenas com o seu futebol”, afirmou. Já o psicanalista Roberto Hallal, que cuidou de Jobson no Botafogo, foi além e abriu uma discussão mais ampla no futebol.

“Falam de injúria racial, mas esquecem que o que mais se pratica em estádios de futebol é o assédio moral, que é tão grave quanto o racismo. E o jogador não é preparado para isso. É desse tipo de coisa que surgem a depressão, o desânimo com a profissão, o luto, que é um termo que utilizamos na área”, explicou.

Doriva repete tática em treino fechado

Em campo, a estratégia ainda não deu certo. Mas assim como na semana passada e nas vésperas do clássico válido pela Taça Guanabara, o técnico Doriva, a pedido da diretoria do Vasco, voltou a fechar o treino da equipe antes de uma partida contra o Flamengo. Os jornalistas presentes só puderam entrar no clube após a atividade, para a entrevista coletiva. A decisão foi mantida para hoje à tarde e amanhã.

Entre algumas surpresas que podem pintar na equipe, a comissão técnica estuda utilizar o atacante Dagoberto desde o início. A preparação física tem intensificado os trabalhos com o jogador para aprimorar a sua forma.

Para o lateral-direito Madson, vale tudo antes de um duelo decisivo. “Com a determinação, o treinador tem a possibilidade de trabalhar com calma uma jogada. Quanto menos armas nós dermos para o Flamengo, melhor”, afirmou o atleta, sem dar muitas pistas.

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