Por sarah.borborema

Rio - A deliciosa comida caseira de dona Janete, saboreada com prazer após um convite de almoço inesperado, foi apenas o aperitivo de uma longa entrevista com o técnico Milton Mendes, em seu confortável apartamento, na Barra da Tijuca. Às vésperas da estreia do Vasco no Brasileiro, hoje, às 16h, no Allianz Parque, contra o Palmeiras, o comandante vascaíno abriu o coração. Contou sua sofrida história para chegar até aqui e revelou detalhes da vida fora e dentro de campo.

Milton Mendes abre o coração e fala sobre sonhos na carreiraCleber Mendes/Agência O Dia

No belo apartamento decorado, h√° poucos itens pessoais. Um livro sobre esquemas t√°ticos mostra que nem a vista deslumbrante para o mar consegue lhe tirar o foco. Mas √© na sala de TV que o cora√ß√£o do t√©cnico bate mais forte. No canto da mesa, um porta-retrato com a foto da fam√≠lia √© iluminado por uma vela de sete dias, envolta no ter√ßo de Nossa Senhora de F√°tima. Uma corrente de amor e sa√ļde pelo pai, Martinho Mendes, de 81 anos, que est√° internado.

"Estou rezando com meus irm√£os pela recupera√ß√£o do meu pai. Ele est√° fazendo quimioterapia para se curar de um c√Ęncer no pulm√£o. Ficou quatro dias comigo e voltou para o Sul, contente em me ver trabalhando no time dele de cora√ß√£o", emociona-se o t√©cnico, sem esconder a tristeza pelo sofrimento do homem que √© a sua maior inspira√ß√£o.

Para tentar entender um pouco da alma do t√©cnico vasca√≠no, √© preciso voltar no tempo. Precisamente √† pequena I√ßara, no interior de Santa Catarina, onde Milton nasceu e foi criado com os seis irm√£os com muito sacrif√≠cio pelos pais, Martinho e Eug√™nia. ‚ÄúA gente brincava que, quando o sapato chegava em mim, eu pisava em uma moeda e j√° sabia se era cara ou coroa, de t√£o fininha que estava a sola‚ÄĚ, conta, bem-humorado.

Mas a voz de Milton muda de tom quando lembra o dia que foi o divisor de √°guas de sua vida. "Tinha 12 anos... (a voz fica embargada). Meu pai teve a vis√£o e a generosidade dos grandes homens ao me deixar sair de casa e correr atr√°s do meu futuro. Que pai nos dias de hoje faria isso?".

Com a bênção dos pais, Milton deixou o Sul para ganhar o mundo. Passou por testes no Grêmio, Internacional, jogou no Fluminense, Vasco, onde foi campeão carioca e do Troféu Ramon de Carranza, em 1987, e depois zarpou para Portugal, onde atuou em clubes modestos, antes de começar a carreira de treinador no Machico, em 2001.

O Velho Mundo foi a sua escola. Ele aprendeu muito vendo em ação grandes técnicos como o português José Mourinho e o holandês Louis van Gaal. De volta ao Brasil, o admirador de Telê Santana, Carlos Alberto Parreira e Muricy Ramalho sonha alto. "Quero trabalhar um dia na Seleção e treinar um grande clube na Europa, pois no Brasil eu já estou em um grande."

Para atingir seu objetivo, ele aposta em um trabalho inovador, com treinos modernos, varia√ß√Ķes t√°ticas e muita observa√ß√£o. Disposto a quebrar paradigmas, n√£o se intimida com as cr√≠ticas: "Que mal h√° em um t√©cnico ir a um jogo de futebol em um dia de folga? Por que um t√©cnico n√£o pode fazer uma mudan√ßa ainda no primeiro tempo para trocar a estrat√©gia da equipe?"

Fora de campo, n√£o abre m√£o de um terno bem cortado e do perfume franc√™s Bvlgari Aqva. "√Č o segundo bilhete de identidade", entrega, admitindo ser vaidoso. "N√£o sou um metrossexual, mas gosto de me vestir bem. Tenho 17 ternos e muitos pares de sapato. Mas tamb√©m gosto de blazer."

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