Por douglas.nunes

Os gestores de fundos de investimento participações (FIP) no Brasil estão cada vez mais adotando a especialização para se diferenciar da concorrência. "Com crescimento na casa dos 20% a 30% ao ano desde 2000, o mercado está mais competitivo. A especialização é uma estratégia. Hoje, dificilmente um fundo aplica em setores tão diferentes quanto óleo&gás e distribuidoras de medicamentos", diz o presidente da Associação Brasileira de Private Equity e Venture Capital (ABVCAP), Clovis Meurer.

O foco pode ser no setor, mas também na região, no porte da empresa, na estratégia de saída (venda no mercado de capitais, a outras empresas ou fundos) ou na de entrada. No caso da gestora CRP, da qual Meurer é sócio, a opção foi pela região: "Só investimos em empresas com sede nos estados de São Paulo para baixo", afirma o gestor, do Rio Grande do Sul. A CRP tem R$ 600 milhões sob gestão, já geriu dez fundos diferentes e 100 operações, e hoje tem na carteira 15 empresas, informa Meurer.

A gestora TreeCorp, por exemplo, já nasceu especialista. Autorizada a funcionar pela Comissão de Valores Mobiliários (CVM) no ano passado, escolhe a dedo pequenos negócios com potencial de crescimento a longo prazo, com bons fundamentos. É um caso de foco na estratégia de entrada: "Nossa visão é fundamentalista. Procuramos empresas pequenas para investir - até agora, colocamos R$ 33 milhões do primeiro fundo em quatro empresas", diz Daniel Joseph McQuoid, sócio-fundador da TreeCorp. A última, que é de prestação de serviços para o setor imobiliário, está em fase de negociação. "Os sócios-investidores participam ativamente da estratégia de crescimento das empresas investidas para conduzi-las ao próximo estágio de desenvolvimento e de valor de mercado", diz.

O objetivo da TreeCorp é ficar em torno de seis anos na empresa investida. Como são pequenos negócios, a saída nunca é pelo mercado de capitais: "O mais comum é vender para outra empresa maior, que está consolidando o setor, ou para outro fundo de private equity", diz. Entre as empresas investidas pela TreeCorp, a mais conhecida é a Café Suplicy. No portfólio, já tem uma empresa B2B de TI (Mobile People), outra de embalagens farmacêuticas, a Splack (em fase final de fusão com uma maior do setor). "Planejamos um segundo fundo no meio deste ano. A meta é captar R$ 100 milhões", diz.

Outra que adota o critério fundamentalista para seleção é a Fama, subsidiária da Fama Investimentos. O objetivo declarado desde o começo, em 2008, é "identificar empresas com enorme potencial de valorização de longo prazo", a partir de critérios fundamentalistas e de uma análise detalhada dos administradores e do processo. O fundo da Fama tem hoje patrimônio de R$ 100 milhões.

Meurer, da ABVCAP, nota que, apesar da competição ter crescido com o aumento do mercado, no ano passado houve um desaquecimento dos investimentos, provocando a retomada do movimento da alta da Selic. "A alta dos juros a partir de abril prejudicou o setor. O crescimento dos volumes em 2013 será divulgado em abril, durante o Congresso anual da ABVCAP - mas foi menor do que em 2012", prevê. O crescimento do capital comprometido, entre 2011 e 2012, foi de 31%, atingindo R$ 19,6 bilhões.

O lado bom desse desaquecimento é que os preços ficaram mais realistas, diz McQuoid. "Vejo boas oportunidades à frente em 2014. Somos muito rígidos com nossos critérios de avaliação e até um ano e meio atrás, não conseguíamos comprar pelos preços que estavam sendo pedidos. Agora, está melhor", diz.

No Brasil, a saída dos gestores de private equity quase nunca é via Bolsa - e quando ela está em baixa, pior. "Considerando a quantidade de negócios, pode-se dizer que pouca coisa, menos de 10%, sai pelo Bovespa Mais - a maioria é pela venda estratégica para outros fundos ou empresas consolidadoras", diz Meurer. "Em valores, percentual é maior. Quando a empresa é grande, fica mais fácil entrar na Bolsa depois de passar por um private equity", diz. O caso mais recente é a venda da CVC pelo fundo americano Carlyle, por R$ 620 milhões.

Você pode gostar