Por douglas.nunes

Os bancos reforçaram a captação de recursos no segundo semestre do ano passado, antes de o crédito começar a dar sinais de recuperação. O saldo subiu 8%, para R$ 3,4 trilhões no final de dezembro, segundo o Banco Central (BC). O aumento do saldo das operações de crédito foi menor: 7,3%, para R$ 2,7 trilhões, percentual igual ao verificado no primeiro semestre. Normalmente, os bancos reforçam a captação quando precisam de "funding" para bancar operações de empréstimo crescentes. Mas desta vez não foi o caso. A aceleração das captações, portanto, pode ser uma preparação para a retomada dos empréstimos, principalmente por parte dos bancos privados. "O ritmo de concessões caiu de dezembro para janeiro, mas é sazonal. É apenas um número isolado. A tendência é de os bancos privados aumentarem um pouco mais a oferta de crédito e os públicos, um pouco menos em 2104. Estamos esperançosos de que teremos aqui no banco um crescimento melhor neste ano", disse o vice-presidente do Santander Brasil, Conrado Engel, após evento de apresentação a investidores. O Itaú disse, por meio da assessoria de imprensa, que prevê crescimento entre 10% e 13% da carteira de crédito para este ano - e, neste cenário, "prevemos mais captações".

A alta das captações em ritmo acima do esperado tem, porém, outras razões além de uma possível antecipação ao aumento do crédito. Segundo o BC, houve migração de recursos antes direcionados aos fundos de investimento, que tiveram resgates líquidos de aproximadamente R$ 36 bilhões no período. A infromação consta do Relatório de Estabilidade Financeira (REF) do BC. Outra razão foi a adesão dos bancos ao programa de refinanciamento de dívidas com a Receita Federal, o Refis. Para pagar à vista, com desconto, os bancos usaram caixa, que tiveram de repor com captações no mercado.
O aumento das captações foi concentrado, também, em títulos como Letras de Crédito Imobiliário [LCI](LCI) e Letras de Crédito do Agronegócio[LCA] (LCA), depósitos de poupança, empréstimos e repasses e "operações compromissadas" utilizando títulos privados, que vem substuindoas emissões de depósitos a prazo (CDBs)e as captações com base em instrumentos híbridos de capital e dívida (IHCD) e de Letras Financeiras Subordinadas (LFS).

A alteração explica-se, de um lado, pelo aumento da demanda dos investidores por papéis isentos de Imposto de Renda (caso das LCA e LCI),e de outro pela estratégia dos bancos de reduzir a emissão de papéis sujeitos a recolhimento de depósitos compulsórios, como os CDBs, por outros títulos.[LCA] "São instrumentos de menor custo efetivo, pelas isenções de compulsório, de contribuição ao Fundo Garantidor de Crédito (FGC) ou de tributos", diz o REF.

Para o BC, essa alteração de perfil de captações tende a perdurar. O aumento da oferta de créditos longos, como os financiamentos imobiliários, provocou aumento maior no prazo médio das operações de crédito vis-à-vis o prazo médio do estoque de captações.

A mudança de perfil das captações mostra preferência por instrumentos com características de depósito, considerados estáveis e/ou com cobertura do FGC. "As operações de crédito têm representado cerca de 86% dos depósitos e das outras captações com as mesmas características de estabilidade, o que demonstra que o crescimento da carteira de crédito é compatível com a evolução do funding de boa qualidade".

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