Por douglas.nunes

O declínio recente do dólar, que nesta quarta-feira rompeu a barreira dos R$ 2,2, não é suficiente para o Banco Central (BC) retirar as rações diárias de contratos de câmbio, atualmente em US$ 200 milhões. Essa é a opinião dominante entre os especialistas, que continuam enxergando no cenário a presença das mesmas variáveis macroeconômicas que incentivaram o início do programa de swaps, em agosto de 2013. Também pesa a favor da manutenção o caráter volátil desse fluxo cambial, indicado pelos recordes seguidos dos minicontratos futuros de dólar na BM&F. O controle inflacionário provocado pela depreciação da moeda norte-americana bem como os benefícios que o movimento entrega à Petrobras são o suporte auxiliar para o governo seguir com a mesma política em relação ao câmbio.

Especialistas acreditam que BC precisará manter o programa de swaps, iniciado em agosto de 2013.Banco Central

“É bom lembrar que quando o programa de rações começou, as motivações eram a recuperação da economia norte-americana com o consequente aumento de interesse pelos juros de longo prazo lá, e a queda no preço das commodities, que atrapalha a entrada de dólares no Brasil. Quase um ano depois, isso não mudou”, lembra Paulo Gala, estrategista-chefe da Fator Corretora.

No fechamento desta quarta-feira, o dólar era vendido a R$ 2,198, após a divisa norte-americana ter começado o ano a R$ 2,39. Desde o início do programa de swaps, em 22 de agosto de 2013, o recuo foi ainda maior (9,5%). Naquele dia, o dólar estava cotado a R$ 2,43.
“O que mudou desde o início do programa é que agora o dólar está ajudando muito o governo, principalmente no que diz respeito a inflação, perto do teto da meta”, conta Gala, citando o IPCA de março a 0,92%, divulgado ontem. “O BC está confortável nesse momento. Essa queda do dólar é como um presente para ele já que se trata de uma forte ferramenta de controle de preços”.

A lógica por trás do raciocínio de Gala é que os preços mais atraentes dos importados ajudam a segurar os índices de inflação por aqui. O próprio presidente do BC, Alexandre Tombini, traduziu em números essa relação. No ano passado, o dirigente revelou que a inflação recua 0,5 ponto percentual a cada 10% de valorização do real, que vem a ser a diferença entre a cotação do dólar em agosto de 2013 e o fechamento desta quarta-feira.

Criado para funcionar como um amortecedor das variações cambiais — evitando movimentos muito bruscos no câmbio - o programa de rações conta, atualmente, com ofertas diárias de swaps, com valores próximos a US$ 200 milhões, e uma linha de US$ 1 bilhão às sextas-feiras. No ano passado, os swaps eram de US$ 500 milhões, quatro vezes por semana, mas nada indica que a autoridade monetária vá fazer um novo corte nas rações, previstas para acontecerem até o fim de junho.

“Se o BC mudasse a programação agora, depois de ter dito que iria até junho, seria mal visto. Importante ser coerente para continuar sendo respeitado”, disse Italo Abucater, analista de câmbio da corretora Icap. O especialista lembra que, no dia 30 de março, a linha de US$ 1 bilhão não foi totalmente comprada no leilão, uma demonstração de que o apetite do mercado, e não a oferta, é o que estabelece o quanto é negociado.

“Cotação do dólar é fluxo, e esse que estamos acompanhando é volátil. O mercado tem de parar de procurar cabelo em ovo, buscando explicações sobrenaturais para o fenômeno. Mas, como não há bem que sempre dure, um dia essa enxurrada acaba. Como a data pode ser amanhã, mais vale o BC manter o programa de swap para evitar variações muito bruscas no câmbio”, ensina Abucater.

O especialista crava que o perfil do que define como “enxurrada” é de aplicações de curto prazo. Os minicontratos de dólar - com prazos e volumes menores - negociados na BM&F indicam algo nesse sentido. Em agosto do ano passado, o número de unidades negociadas estava em 12,4 mil ao dia. Neste ano, entretanto, a celebração de contratos saltou, gerando recordes seguidos nas últimas semanas, quando o volume passou para quase 19 mil negócios ao dia.

“O Brasil não virou um paraíso nem deixou de precisar de reformas por conta desse fluxo”, acredita Abucater que, assim como Gala, vê razões externas para o fenômeno.

A apreciação recente do real é boa para o governo não apenas pelo aspecto inflacionário. “Pode-se dizer que empresas importadoras, com grande dívidas em dólar e necessidades tremendas de investimento em maquinário importado, ficaram em uma situação muito mais confortável nesse cenário”, conta Clodoir Vieira, economista da Compliance, consultoria em relações com investidores.

A maior companhia do Brasil, importante até mesmo no controle de preços, se encaixa nesse perfil. “O dólar mais baixo ajuda a Petrobras em cada uma das frentes onde ela mais demonstrava dificuldades”, aponta Vieira, para quem o momento econômico está permeado de heterodoxia monetária.

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