"Nossa previsão é continuar crescendo na casa dos dois dígitos"

O setor de seguros deve fechar 2013 com crescimento de 15%, segundo o presidente da CNseg, Marco Antonio Rossi. Resultado é fruto da baixa penetração na população. Ascensão da Classe C também impactou a área

Por O Dia

* Por Rodrigo Carro e Fábio Nascimento 

O setor de seguros deve fechar 2013 com crescimento de 15%, segundo o presidente da CNseg, Marco Antonio Rossi. O resultado é fruto da baixa penetração na população e os destaques foram automóveis, capitalização, vida e saúde, o último impulsionado pelo uso como moeda de troca por empresas na hora de contratar e reter profissionais. A ascensão da Classe C também impactou a área, que aponta a massificação via novos canais de venda e a flexibilização das regras, para simplificar a contratação, como o caminho para manter altas taxas de crescimento.

Em que medida o crescimento econômico abaixo das expectativas em 2013 afetou a indústria de seguros?

Os números ainda não foram fechados, mas o crescimento será em torno de 15%, o que demonstra que o mercado continua aquecido. Nos últimos sete anos, o mercado de seguros cresceu, em média, 18% ao ano. É reflexo ainda da baixa penetração que os seguros têm na população brasileira, com uma oportunidade bastante intensa de crescimento e prospectos de desenvolvimento.

Algum segmento se destacou?

Nós tivemos crescimento forte na área de automóveis. Crescemos de maneira muito acelerada, também, na área de capitalização. Esses foram os produtos que alavancaram o crescimento, mas também continuamos crescendo em saúde, seguro de vida.

No caso dos automóveis, tem a ver com a redução do IPI?

Eu diria que tem a ver com uma boa produção de automóveis, que passou por crescimento consistente nos últimos anos. E a venda nova sempre impulsiona o crescimento dos seguros. Mas eu não diria que é só isso. Está ligado também ao crescimento da renda. Com uma quantidade maior de pessoas na classe média, elas passaram a ter maior condição de adquirir o carro e, mais do que isso, de ter seguro.

Fala-se muito da classe C para a compra de produtos de consumo, inclusive do automóvel. Mas o seguro já chegou à classe C?

Não tenho dúvidas disso. A gente percebe, nitidamente, que, em alguns produtos, a gente acabou tendo crescimento forte. E a classe C, hoje, já é importante para o crescimento. Outra questão importante, com relação à classe C: realizamos pesquisa a qual revelou que a percepção da importância do seguro já atinge 55% dos moradores da Rocinha (RJ) e de Heliópolis (SP). Isso demonstra, também, uma mudança da mentalidade do brasileiro nas camadas menos privilegiadas da sociedade.

E como está a penetração dos seguros nessas classes da base da pirâmide?

A gente tem, ainda, um caminho longo a seguir. No Brasil, apenas 13% das famílias das classes C, D e E estão cobertas com assistência médica privada. Apenas 30% da frota brasileira possuem automóvel segurado. É lógico que o caso da previdência apresenta um caminho mais longo, porque só 1% das famílias das classes C, D e E tem previdência privada.

No caso de seguros de saúde, o crescimento também acompanha o aumento da renda?

Um ponto importante é a forte vinculação aos planos empresariais. E a gente vive uma situação de emprego pleno. Esse fator alavanca o crescimento dos seguros, porque, a cada dia mais, as empresas acabam oferecendo, para manter seu funcionário, um leque de benefícios, no qual o seguro de saúde tem um peso importantíssimo. É uma mudança importante.

O setor vem crescendo muito acima do PIB. Com esse freio na economia em 2013 e os diversos eventos em 2014, a indústria está tão otimista quanto esteve nos últimos anos?

Nossa previsão é continuarmos com crescimento na casa dos dois dígitos. A indústria está otimista nesse conceito de componentes positivos para o setor de seguros. Alguns são fundamentais para que continuemos crescendo, como o emprego, no qual não temos qualquer sinalização de mudança radical. Por outro lado, para a gente trabalhar com taxa de inflação comportada, até mesmo no cenário de inflação de 6%. Isso é muito tranquilo para o setor, porque a estabilidade da inflação garante visão mais clara de longo prazo.

A taxa de dois dígitos é sustentável por determinado tempo, mas a penetração tende a avançar, e as taxas, a cair. Como estamos em relação aos nossos vizinhos latino-americanos?

No que diz respeito a seguros relacionados a catástrofes, temos alguns casos, realmente, de países com experiências bastante fortes na área. O Chile e o próprio México, por exemplo, já convivem com esse assunto de maneira muito forte. São, também, países que viveram com mercado aberto na área de resseguros por muitos anos. O Brasil começou a viver essa experiência recentemente. No que diz respeito a seguros de pessoas e automóveis, eu diria que estamos muito alinhados com o que há de melhor no mercado mundial e temos uma liderança consolidada no mercado latino-americano. O Brasil representa mais de 50% dos prêmios de seguros da América Latina. Todas essas condições na área de seguros de saúde, pessoas, automóveis e ramos elementares, temos uma participação bastante importante. Acho que, acima de tudo, esse tipo de evento nos auxilia muito na questão de troca de experiências para que possamos obter as experiências para lidar com os desafios do seguro na América Latina: massificar mais o produto, alcançar as camadas menos protegidas e alavancar o seguro, que é um dos alicerces do regulador. Acho que o regulador deve ter uma visão, também, de trabalhar o assunto de como desenvolver o setor.

E como é o diálogo com a Susep?

Nós temos um bom diálogo com a Susep. Hoje, nós temos lá um técnico (Roberto Westenberger), um Ph.D. na área de seguros, uma pessoa que é realmente uma das referências mundiais. Eu acho que é uma área que o governo tem dado exemplo positivo de colocar pessoas com conhecimento e profundidade. A gente tem tido bom diálogo com a Susep, mas também tínhamos na gestão anterior.

O senhor acha que deveriam ser feitas algumas mudanças na legislação para facilitar essas questões?

Um grande ponto é o objetivo de simplificar a contratação dos seguros. Sempre tivemos uma regulação forte, exigindo grau de regulamentação muito intenso. Um desafio que nós temos é simplificar essa contratação. Nesse aspecto, acho que o setor financeiro foi muito exitoso para facilitar o acesso da população, fazendo isso de maneira automatizada, usando tecnologia. No mundo dos seguros, isso precisa de uma aceleração para que a gente possa ocupar um espaço maior.

Sobre a tecnologia, o Brasil tem exemplos muito bons na área de seguros. A instalação de rastreadores é bastante comum e há empresas que chegam a ter operadoras de celular, mesclando tecnologia ao produto delas. O que a tecnologia já agregou e tem a agregar?

Quando você implementa e recupera um carro, está contribuindo para o seguro ficar mais barato, porque o espírito do seguro é o mutualismo. Se você consegue reduzir o sinistro, parte é ganho da seguradora e parte é do próprio grupo, porque vai fazer com que o seguro fique mais barato e, consequentemente, possibilitar o acesso a uma quantidade maior de pessoas. Nós temos essa questão de rastreadores, tecnologia no controle de cargas, com rastreamento não só do caminhão, mas dentro da própria carga, reduzindo a sinistralidade. Você pode trabalhar no que diz respeito à assistência, para dar melhor condição de dados, que possa levantar o perfil e identificar de forma mais adequada a massa de clientes. Isso tudo ajuda muito para que o seguro seja mais eficiente. Por outro lado, a tecnologia poderia ser muito mais utilizada no que diz respeito à própria contratação do seguro. Uma legislação que seja mais flexível, para permitir a contratação de seguros por telefone, pela internet, em que você possa facilitar a contratação e divulgação do produto de seguros.

Como é a parceria com o varejo?

Primeiro, qual é um dos pontos que fazem com que o Brasil tenha uma participação menor na área de seguros? Nós sempre trabalhamos em canais específicos e, muitas vezes, não avançamos em outros canais como faz o seguro como um todo. Utilizar, por exemplo, a rede varejista para colocação de seguros não é exclusividade brasileira. Muito pelo contrário. Nós estamos muito atrasados. Na América Latina, no Chile, a rede Falabella, a Cencosud, todas são empresas que têm área de seguros, há anos, muito bem estruturadas. Vamos supor aqui. Qual é o melhor momento, o mais adequado para você vender o seguro de automóveis? É a hora em que o cidadão está na concessionária. Quem gosta de sair com carro da concessionária sem cobertura de seguros? Ninguém! Ninguém faz isso e não se recomenda que se faça isso. Isso é a oportunidade da colocação do produto.

Seguindo o exemplo das redes de varejo, a gente viu que recentemente que Magazine Luíza, Leader, Riachuelo e Renner estão com produtos financeiros e vários da área de seguros. Esse canal do varejo é importante. Quais outros canais ainda estão inexplorados?

Éuma área importante (o varejo). É uma área que pode ser desenvolvida, segundo exemplo de outros países, como a El Corte Inglés na Espanha. O que ela é? É um grande shopping de produtos e virou uma referência. Eu acho que existe uma tendência no Brasil que isso também possa ocorrer. Nós temos grandes redes varejistas. Então, é previsível que isso possa acontecer, que isso possa se desenvolver. Qual é o nosso desafio na área de seguros? Nós temos que encontrar alternativas. Lógico que o nosso canal principal, em termos de colocação do produto, é o corretor. Sempre nossas áreas têm o apoio do corretor para formatar o negócio de seguros. Mas, além disso, você tem que escoar todas as possibilidades de oferta. Então, a Internet ganhou espaço nos últimos anos. Algumas corretoras viraram corretoras online, onde fazem um trabalho de precificação e de facilidade na colocação dos produtos. Sempre essas alternativas passam a ter uma importância. Empresas de telecomunicação acabaram também trazendo oferta de seguros. Isso é um processo natural. Entendemos que isso deva acontecer, que faz parte de um processo de um mundo mais informatizado, mais integrado, onde todos colocam seus produtos.

A obrigatoriedade do corretor é um entrave ou o corretor é um bom parceiro?

Eu acho que o corretor é um bom parceiro. Ter um especialista, uma pessoa que conhece com profundidade o produto, para facilitar a vida do cliente, sempre ajuda muito. Muitos assuntos de seguro são complexos e há muita dificuldade de entendimento. No conceito geral, ele está defendendo os interesses do segurado e isso é positivo.

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