Por marta.valim
"Estou mais preocupado com o cenário externo", diz Robeto Setubal, presidente do Itau Unibanco Patricia Stavis

O presidente do Itaú Unibanco, Roberto Setubal, manifestou ontem otimismo com a economia do país no longo prazo, prevendo a melhora dos problemas pelos quais o Brasil passa atualmente. Durante evento promovido pela Bloomberg em São Paulo, Setúbal disse que acredita na redução da inflação e nan retomada do crescimento.

“Estava mais preocupado com a inflação há seis meses. Acho que o Banco Central está fazendo um bom trabalho e ela logo voltará ao normal. O crescimento não está como queremos mas logo estará”, afirmou Setúbal. O presidente do maior banco privado do país disse que está mais preocupado com o cenário externo do que com o interno. “Todos os emergentes estão sofrendo”, diz. “Os brasileiros tem a mania de achar que a culpa é só do governo, mas o cenário externo não está favorável a emergentes, principalmente com a recuperação econômica dos Estados Unidos”, acrescentou.

A sucessão presidencial, segundo Setúbal, não muda planos de negócios da instituição no país. “Não estamos adiando investimentos por causa das eleições. O Brasil é maior do que quatro anos. Seja qual for o governo em quatro anos teremos outra eleição, e depois outra. Estamos sempre olhando para oportunidades”, disse.

Independentemente da conjuntura, Setubal vê o negócio de banco no limiar de uma radical mudança nos próximos anos. “Os maiores direcionadores dessa mudança são a regulamentação e a tecnologia”, diz. A tecnologia influencia muito o segmento de varejo. E a regulamentação, que está exigindo mais capital, vai tornar mais difícil para os bancos manter sua rentabilidade — quanto mais capital, mais será preciso “trabalhar” para remunerá-lo.

A exigência de capital a que se refere são as regras de Basileia III, a terceira fase do acordo internacional de capitais do setor bancário. “Estou preocupado com o que está em discussão. Os bancos tem que ser capazes de ter capital em conformidade com o risco que carregam. Mas limitar alavancagem e o uso de modelos internos de avaliação de risco pode ser um problema”, diz.

Ao alocar mais capital, os bancos vão ter que deixar de investir em áreas e regiões geográficas onde não tem expertise nem vantagens competitivas, pois vai ficar mais caro sustentar as ineficiências, explica. Com isso, o banqueiro acredita que vão surgir mais oportunidades para o Itaú comprar outras instituições e/ou outros negócios. Outra oportunidade que deve surgir com o aumento de capital é o desenvolvimento do mercado de capitais: “Crédito corporate, para grandes empresas,vai passar a pesar muito no balanço, será preciso recorrer a outras alternativas”,disse.

Fora do Brasil — “que cresce pouco” — Setubal vê mais oportunidades na América Latina e não vê vantagens em investir na Europa e nos Estados Unidos. O executivo diz que nos EUA tem mais oportunidades, “pois o mercado ainda está em consolidação — mas é um mercado muito competitivo”, diz.

"Mas não estamos desanimados com o Brasil. O PIB cresce, 2%, mas o crédito ainda cresce bem mais”, diz, afirmando que no imobiliário, especificamente, o Itaú continuará aumentando a um ritmo de 30% ao ano. Já no financiamento ao consumo, vê limites para endividamento e, com o aumento dos riscos, os bancos estão exigindo mais garantias. Em relação a revolução provocada pela tecnologia, Setubal lembra que os novos meios de pagamento e da mobilidade estão crescendo muito rápido. E faz uma profecia: “Aqui no Brasil a abertura de novas agências ainda estão em alta. Mas acredito que em dois ou três anos, veremos uma reversão dessa tendência”.

Para Arida, problemas do Brasil são internos

Marco regulatório instável, sujeito a mudanças abruptas; inflação alta, “contabilidade criativa” nas contas públicas e clima geral de insatisfação da sociedade. Para Persio Arida, sócio e co-head do departamento de gestão de recursos do Banco BTG Pactual, são essas as razões que estão por trás do atual mau-humor da comunidade financeira internacional e do empresariado local com o Brasil.

“Poderíamos dizer que nossos problemas são causados por fatores desfavoráveis no mercado externo. Mas não é o caso. Os problemas do Brasil são internos”, diz.
“A situação fiscal atual é insustentável a longo prazo, seria preciso estabelecer uma meta, uma regra para restaurar a credibilidade e trazer de volta a confiança ao Brasil”, disse ontem, em evento promovido pela Bloomberg em São Paulo.

As constantes mudanças de regras na forma de calcular os gastos do governo são, para Arida, um problema também porque acabaram tirando a credibilidade da série histórica do indicador.

Para Arida, também, há ainda um conjunto de incertezas em função da troca de governo — o que não é bom para os investidores estrangeiros em carteira. Mas o executivo faz uma ressalva: o investidor do setor real é menos sensível, pois tem uma visão mais de longo prazo. Para esses, é a taxa de crescimento que importa.

Persio Arida, que foi presidente do Banco Central do Brasil entre janeiro e junho de 1995, disse ainda ser favorável a transformar a entidade independente no Brasil. “BC independente tem mais credibilidade. Com risco de intervenção política afastado, as expectativas ficam ancoradas e as taxas de juros precisam subir menos. Com isso não só o governo mas toda a sociedade tem custo de financiamento mais baixo”.

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