Inadimplência do consumidor confirma viés de alta

Indicadores de atrasos de pagamento aumentam em todo o país no mês de junho; analistas prevêem que números vão subir mais e recomendam renegociação

Por monica.lima

São Paulo - Os indicadores de inadimplência do consumidor no mercado estão confirmando o viés de alta previsto por economistas nos últimos meses. A tendência da série do índice de inadimplência computada pelo Banco Central para os atrasos de pagamento com mais de 90 dias, que mostrou inflexão em maio, está sendo verificada nos números divulgados pelo comércio até junho. Nos últimos dias, indicadores medidos pela Boa Vista SCPC (Serviço Central de Proteção ao Crédito) mostraram aumento dos percentuais.

Segundo a empresa, a inadimplência do consumidor no País cresceu 2,8% no primeiro semestre de 2014 ante o mesmo período do ano passado. Em 2013, o indicador apontava queda de 2,9% na comparação equivalente. Na relação com maio - descontados os efeitos sazonais — a alta foi de 2,8%. Com esse resultado, o valor acumulado em 12 meses (de jul/13 até jun/14) foi 2,5% maior quando comparado ao mesmo período de 2013.

Quando considerado apenas o varejo, o indicador nacional registrou queda de 8,4% no semestre, na mesma comparação. Dentre as regiões, mantida a base de comparação, o cenário de queda generalizou-se. As regiões Sudeste, Sul e Centro-Oeste caíram 7,4%, 5,3% e 9,8%, respectivamente. No Norte houve queda de 7,7%, enquanto no Nordeste a variação foi a mais intensa, de 12,3%.

O rompimento do teto da meta da inflação atingida ontem, com o IPCA acumulado em 12 meses a 6,52%, aumenta a expectativa de continuidade do aperto monetário — com a manutenção da taxa de juros a 11% — o que significa aperto do crédito e dificuldade de pagamento das dívidas. Mas a própria seletividade dos bancos e a impossibilidade dos consumidores de contratarem mais crédito, podem não permitir o agravamento da situação.

Para o economista da Associação Comercial de São Paulo (ACSP), Emílio Alfieri, se a inadimplência se mantiver abaixo de 5%, é um porcentual aceitável. "Deve subir um pouco. Mas não deve ficar acima de 5%. Acima de 5% já é sinal amarelo, mas não significa que alguém vai quebrar. Agora, acima de 10% aí alguém pode quebrar, uma loja, por exemplo", explica o profissional.
De acordo com a última divulgação do Banco Central, a inadimplência no cheque especial e no crédito pessoal com atrasos superior a 90 dias situou-se em 4,0% em maio. Os dados da ACSP no mesmo período indicam inadimplência de 4,3%.

Para Alfieri, no atual cenário econômico não existe risco da inadimplência chegar aos 5%. Primeiro, porque os bancos estão mais restritivos na concessão do crédito, segundo porque a confiança do consumidor vem caindo e quando isso acontece há menos disposição para adquirir novas dívidas, portanto, menor risco de ficar no vermelho. No entanto, o economista chama a atenção para a questão do emprego. "Se o consumidor perder o emprego, não tem como pagar, e a inadimplência irá aumentar", disse, lembrando, no entanto, que o governo está muito atento a esta questão e tem tomado medidas para evitar que alguns setores da indústria precise demitir funcionários.

Segundo o diretor de Marketing e Relacionamento com o Cliente da financeira Sorocred, Wilson Justo, é importante que o consumidor que se encontra nesta condição de inadimplente procure negociar o débito com o credor, fazendo uma análise atenta em relação às taxas de juros. As dívidas com o cartão de crédito ou cheque especial, por exemplo, são as mais caras, com taxas que variam de 15% a 20% ao mês. Neste caso, Justo sugere uma troca por uma modalidade mais amigável, como o crédito consignado, que tem taxa em torno de 3% a 5% ao mês.

"Se não for possível o consignado, o consumidor pode tentar o pessoal, mesmo com uma taxa mais salgada é melhor do que o cheque especial e o cartão de crédito", avalia. Outra alternativa que ele aponta, mas que é muito mais arriscada, é refinanciar o próprio veículo. Além dessas opções, o consumidor também pode pesquisar sobre a portabilidade de crédito."O consumidor pode avaliar se existe outra opção mais vantajosa e colocar as contas em dia de uma vez por todas. É o mesmo que o treinador faz quando um jogador não está rendendo, substitui por um em melhor forma", finaliza.

O economista-chefe da Gradual Investimentos, André Guilherme Perfeito, também concorda que se houver aumento da inadimplência, será pouco. "Esse é um movimento normal num ambiente de alta de juro com a economia crescendo pouco", observa o especialista.

Segundo a Pesquisa Nacional sobre Liquidação de Cheques realizada pelo TeleCheque, serviço oferecido pela marca MultiCrédito, quinta-feira é o dia da semana que concentra o maior volume de endividamento no País em junho. O índice médio de inadimplência apresentado neste dia foi de 3,13%, seguido pela segunda-feira, com 2,85%. O estudo revela também que o horário com maior índice de endividamento médio do mês foi o intervalo entre as 18h e as 23h59, com 3,10%, valor 10% superior ao intervalo entre as 12h e as 17h59, segundo horário com maior percentual de inadimplentes (2,81%).

“É muito comum que um dia particularmente estressante seja compensado com compras por impulso, seja no shopping, no supermercado ou até mesmo em um restaurante, o que explica que os maiores índices de inadimplência se concentrem às vésperas do final de semana e na segunda-feira, e em horários que coincidem com o término do expediente. Para refrear esse hábito de gastar por estresse e o consequente acúmulo de dívidas feitas por impulso, é preciso evitar as compras quando está se sentindo triste, frustrado ou ansioso” disse o Diretor de Crédito e Risco da MultiCrédito, Walter Alfieri.

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