Queda de juros agora seria marola sem efeito na economia

Economistas de bancos e setor produtivo dizem que os riscos — políticos e inflacionários — são maiores do que o poder que o corte na Selic teria para aquecer a economia neste momento

Por O Dia

Apesar da economia brasileira estar cada vez mais cambaleante, seis economistas de diferentes segmentos — desde instituições financeiras até acadêmicos simpáticos ao governo — acham improvável o Copom aprovar uma queda de juros na sua próxima reunião em setembro mesmo se a ata da última reunião, divulgada hoje, trouxer sinais que induzam a essa interpretação. Segundo os entrevistados, o riscos político de ser mal interpretado às vésperas da eleição - e principalmente o risco de por a perder o controle da inflação, que parou de subir — são maiores do que a eficácia que um corte na taxa agora teria sobre a atividade econômica.

“Em ano eleitoral, a ordem é: fique quieto, não se mexa, não faça marola, deixe tudo como está. Qualquer alteração nos juros, seja alta ou queda, daria margem para a oposição atacar. O imobilismo vai imperar até as eleições”, diz o diretor do departamento de economia da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp), Paulo Francini. “O manejo da Selic deve estar combinado com outras coisas, per si não vai levantar a economia”, afirma.

O economista do Itaú Unibanco, Caio Megale, concorda. “Não seria um cortezinho na Selic agora que mudaria o rumo da economia ou o humor e a confiança dos empresários”, diz. “A economia desacelera mas a inflação ainda é preocupante. O cenário prospectivo não dá espaço para queda de juros já. Se acontecesse, impactaria mais a inflação para cima do que a atividade”, acrescenta. O economista lembra que apesar de ter parado de subir, a inflação em 12 meses ainda está acima da meta - e além disso, os preços administrados (como energia elétrica e combustíveis) que estão defasados em algum momento no futuro vão ter que subir, pressionando a inflação.

A discussão sobre a possibilidade de um corte na taxa de juros já em setembro ganhou destaque nos últimos dias por diversas razões. Além dos dados de desaquecimento econômico, o comunicado do Copom que acompanhou a decisão de deixar a Selic em 11% ao ano na última reunião manteve a expressão “no momento”, abrindo espaço para interpretações de que era um sinal de que a estabilidade era “momentânea” — ou seja, que logo poderia ser alterada. Como resultado, parte do mercado passou a apostar na queda, refletida nos contratos de juros futuros negociados nas BM&F. “Entendo os motivos para a especulação mas não achamos que vai acontecer”, diz Megale. Ontem, o otimismo arrefeceu um pouco. A taxa para a virada do ano subiu de 10,72% para 10,74%. O contrato com vencimento em janeiro de 2016 avançou de 10,90% para 10,95%,como informa Luiz Sérgio Guimarães, em sua coluna diária publicada na pág.22. “Apostar, todo mundo aposta. É como corrida de cavalo: de repente surgem boatos de que no quinto páreo o cavalo que vai ganhar é número sete, e todo mundo embarca”, diz Francini.

“Nossa expectativa é de manutenção da taxa Selic em 11% ao ano até o final de 2014, basicamente porque a inflação não dá nenhum tipo de abertura para redução dos juros a curto prazo, ainda está acima do teto da banda e deve continuar longe do centro da meta nos próximos meses”, diz a economista do Santander, Tatiana Pinheiro. “Apesar da fraqueza da atividade econômica — que não é de hoje - ainda não há reflexo na inflação”, diz. A economista lembra que os dados que serão divulgados sobre junho serão ainda bem negativos, devido à Copa do Mundo - mas não acredita que a política monetária seja decidida com base em eventos atípicos.

Tatiana lembra que o IPCA terminou 2013 em 5,9% e agora acumula 6,5% em 12 meses, ou seja, não mostrou nenhuma desaceleração apesar da atividade mais fraca. “Na contramão dos juros altos, vivemos uma expansão de política fiscal e reajustes salariais positivos em termos reais positivos, que acabam se contrapondo à alta dos juros e resultando em inflação resistente em patamar de 6%”, acredita a economista do Santander.

“Vários indicadores mostram que não tem porque mais segurar a Selic em 11%. Mas o Banco Central precisa avisar o mercado antes, para evitar perdas como as que ocorreram no ano passado”, diz o professor da Faculdade de Economia da Universidade de Campinas (Unicamp), e ex-presidente da Caixa Econômica Federal, Fernando Nogueira da Costa. Para ele, há espaço para queda. “Juro alto serve para controlar demanda agregada. Se ela está controlada, tem é que criar incentivo”, diz.

“Como a inflação está acima da meta e a expectativa está estável mas não cai, não permite ainda ao BC a pensar em baixar a Selic. No último relatório de inflação o BC foi explicito em dizer que vai atingir a meta de inflação só em 2016”, afirma o chefe da Divisão Econômica da Confederação Nacional do Comércio (CNC) e ex-diretor do BC, Carlos Thadeu de Freitas Gomes. “A demanda está fraca, mas não a ponto de afetar a inflação corrente nem as expectativas de inflação, que o BC quer trazer para 4,5%. Se a atividade ficar muito fraca a ponto de afetar a expectativa de inflação o BC pode antecipar a queda da Selic, mas não agora”, acrescenta.

Para o estrategista-chefe da corretora do Banco Fator, Paulo Gala, também não faz sentido o BC realizar um corte na taxa Selic agora. “Não descarto totalmente, mas acho bem improvável”, diz. “Há questões a serem resolvidas à frente que podem reacender a inflação no ano que vem, e não faz sentido cortar os juros agora para aumentar de novo logo depois”, afirma. Para ele, quem começou a apostar na queda em breve está se antecipando demais. Assim como seus colegas, Gala acredita que o corte agora teria pouca eficácia. “A queda só surtiria efeito sobre a atividade econômica em 2015. Mas tenho impressão de que a credibilidade do BC poderia ser mais afetada. O BC precisa ser cauteloso. Reduzir juros agora poderia ser um sinal negativo para câmbio e expectativas de inflação”.

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