Setor privado vira alvo do crédito consignado

Mudança anunciada pela Fazenda no final do mês pode ajudar a destravar modalidade, principalmente na medida em que as operações de INSS e setor público chegam ao limite

Por O Dia

São Paulo - O crédito consignado ao setor privado pode ter um novo impulso com as medidas anunciada no mês passado pelo ministro da Fazenda, Guido Mantega, que vão facilitar o sistema de cobrança dos empréstimos. A modalidade é a menos usada e a que menos cresce entre as três do crédito consignado — além dessa, há ainda o crédito consignado para trabalhadores de empresas públicas e para beneficiários do INSS (aposentados e pensionistas). Ao contrário do que ocorre nas outras duas, a modalidade para funcionários de empresas privadas não dá ao banco o direito de bloquear o valor das parcelas do empréstimo diretamente da folha de pagamento. Por isso, a linha é considerada pelos bancos menos segura do que o consignado do INSS e a trabalhadores do setor público.

A mudança anunciada pelo governo vai equiparar o sistema de cobrança do consignado privado ao sistema adotado nas outras duas modalidades. A medida visa “aprimorar a segurança jurídica do crédito consignado privado, reduzindo o risco de inadimplência, facilitando assim o acesso desses trabalhadores a crédito mais barato”, segundo Mantega. A novidade ainda precisa ser implementada por meio de Medida Provisória, que até hoje, quase um mês depois de anunciada, ainda não foi aprovada.

Com a nova legislação, o tomador do crédito consignado privado poderá autorizar a instituição financeira a debitar o valor da prestação simultaneamente ao crédito do salário em conta corrente. Atualmente, o desconto é feito de duas formas: a empresa pagadora retém e depois repassa para a instituição financeira; ou o valor da prestação é debitado pela instituição financeira ao final do dia. Na primeira hipótese, o banco fica descoberto se a empresa falir e não repassar o dinheiro; na segunda, o cliente tem uma brecha para sacar os recursos e não honrar o pagamento da prestação do empréstimo.

“A medida ajuda, mas não é suficiente”, diz Boanerges Ramos Freire, presidente da Boanerges & Cia. Consultoria em Varejo Financeiro. “Não há no setor privado a mesma estabilidade de emprego. E as verbas rescisórias não podem ser usadas para quitar o empréstimo”, acrescenta. Para ele, o governo deveria ir mais fundo para melhorar a segurança jurídica do crédito a funcionários do setor privado: “O consignado é a modalidade de crédito para pessoa física mais saudável, e deve ser incentivada mesmo”, opina.

Freire diz, ainda, que o grande motor para destravar a modalidade é o interesse dos bancos - o que tende a crescer quando o espaço para conceder crédito consignado a trabalhadores do setor público e a aposentados e pensionistas do INSS se esgote. Segundo o especialista, já há sinais de que isso está acontecendo. De fato, apenas o crédito para funcionários públicos já representa metade do total do consignado.“Ainda não chegou a hora do crédito consignado privado”, diz. “O que tem hoje pode ser considerado exceções, casos especiais”.

Segundo o BC, em julho o saldo do crédito consignado ao setor público acumulava R$ 148,8 bilhões, a do INSS, R$ 73,1 bilhões enquanto ao do setor privado, apenas R$ 18,9 bilhões. A taxa de crescimento é também bem menor: 0,8% no mês (ante 1,2% das duas outras modalidades), e 8% em 12 meses (ante média de 14% nas duas outras modalidades).

A julgar pelo tamanho das taxas cobradas, os bancos mais interessados hoje em disputar o crédito consignado ao setor privado são a financeira Todescredi, a cooperativa Bancoob, com taxas ao redor de 21% ao ano. A financeira Alfa e a Senff, bem como a Caixa Econômica Federal, tem taxas que vão até perto de 25% ao ano. Essas foram as taxas coletadas pelo Banco Central (BC) entre 19 e 25 de agosto último. O BB, por exemplo, aparece em 20o. lugar na lista, com juros de 31,87%. Quando se trata de consignado para pensionistas do INSS, a Caixa cobra a segunda menor taxa (23,4% ao ano, atrás do Bancoob, com 22,87%).

Procurados, os maiores bancos não tinham porta-vozes disponíveis para atender a reportagem ontem. Apenas o Banco do Brasil (BB) respondeu, por meio da sua assessoria de imprensa, que a alteração anunciada nas regras do consignado para trabalhadores da iniciativa privada permitirá “melhoria e segurança ao processo, inclusive para o empregador, de forma que mais trabalhadores possam ter acesso à modalidade.”

Por email, o BB informou ainda que “o crédito consignado continua sendo a modalidade de empréstimo pessoal mais representativa da carteira de crédito pessoa física do BB e deve fechar o presente ano com evolução acima de dois dígitos”, e que “por sua natureza de menor risco e taxas mais atrativas”, continua sendo uma modalidade muito procurada pelos clientes, inclusive para o parcelamento de dívidas mais caras (como cartão de crédito e cheque especial. No âmbito do BB, oferta e demanda para esse tipo de crédito continuam aquecidas. Para o final do ano, assim como nos anos anteriores, o BB espera que a demanda para o crédito consignado, notadamente pelo período de férias e festas. Assim como o mercado, o BB deve manter bons índices de crescimento nessa carteira durante o ano de 2014, potencializado pela qualidade da sua base de clientes e oferta de condições negociais entre as melhores do mercado.

O BB tem 26,6% de participação de todo crédito consignado concedido no país, que representa R$ 68,4 bilhões de saldo em 30 de junho último. Mas o crescimento está desacelerando: foi de apenas 3,1% em 12 meses terminados em junho.O banco anunciou recentemente a criação de uma promotora de crédito consignado a aposentados e pensionistas, em conjunto com o Votorantim - banco do qual detem metade do controle, e que até agora tinha foco fechado em veículos.

No Itaú, o saldo do consignado (considerando as três modalidades) atingiu R$ 29,9 bilhões em 30 de junho - um aumento de 62% em 12 meses. O saldo já supera o do crédito pessoal não-consignado e o do crédito imobiliário. O aumento foi impulsionado pelo acordo fechado com o BMG, para a criação de uma joint-venture por meio da qual o Itaú abocanhou 60% da carteira de consignado do banco mineiro, um dos pioneiros e mais ativos na modalidade. Em crédito ao consumo, a maior carteira do Itaú é a de cartões de crédito, que ultrapassa R$ 53 bilhões. O Itaú terminou o semestre com uma carteira de crédito de R$ 487,6 bilhões, pelo critério expandido (que inclui avais e fianças).

No Bradesco, a carteira de crédito expandida (incluindo avais e fianças) atingiu em 30 de junho R$ 435,2 bilhões, dos quais 32% são para pessoas físicas. A carteira de consignado ficou em R$ 28,7 bilhões, com alta de 18% em 12 meses - e também é a maior entre as modalidades para pessoas físicas no Bradesco (até maior do que a de cartões de crédito).

Na contramão, o Santander vem perdendo terreno no crédito consignado - o que deve ser revertido a partir do ano que vem depois de consolidada a parceria fechada no mês de julho com o Banco Bonsucesso. A operação foi aprovada pelo Cade no último dia 3. O saldo do consignado no Santander estava em R$ 12,3 bilhões (que representa 16% das suas operações com pessoas físicas) depois de registrar queda de 17% em 12 meses. O montante é inferior ao crédito imobiliário e do que o crédito em cartões. A carteira total de pessoa física do banco terminou o semestre com saldo de R$ 75,9 bilhões e o total geral, em R$ 226,3 bilhões. O Santander injetou R$ 600 milhões para alavancar novas operações, e terá com isso 60% da "joint venture", enquanto o banco mineiro entra com as carteiras que já tem a expertise e a rede de relacionamentos. O Bonsucesso tem mais de 1 milhão de clientes, 40 lojas próprias e 500 correspondentes bancários; 90 convênios com 200 mil clientes e R$ 500 milhões somente em cartão consignado. "Um ano atrás, dissemos que tomaríamos medidas para aprimorar nosso modelo comercial e aumentar nossa participação nesse mercado, hoje em 5%. Essa parceria completa o nosso reposicionamento nesse mercado e nos ajuda a iniciar um novo ciclo de crescimento", disse o presidente executivo do Santander Brasil, Jesús Zabalza, lembrando que a meta do banco é ter mais de 10%.

A Caixa também não atendeu ao pedido de entrevista e não forneceu informações mais recentes. No entanto, no relatório referente aos resultados os primeiro semestre, a instituição destacou o consignado entre as operações de c rédito comercial, com alta de 23,5% em 12 meses, atingindo saldo de R$ 50,7 bilhões, com volume contratado de R$ 15,2 bilhões. A participação de mercado do crédito consignado alcançou 21,3% em 30 de junho de 2014. A carteira de crédito ampliada somou R$ 552,1 bilhões em junho, evolução de 28% em 12 meses e 6,2% no trimestre. A instituição permaneceu na liderança do crédito habitacional com 67,6% de participação.

O assédio dos grandes bancos a nichos antes dominados pelos bancos de médio porte, como o consignado e o crédito a pequenas e médias empresas (PMEs) vem ocorrendo já há alguns anos, desde que o governo passou a pressionar os spreads dos empréstimos para baixo e que a inadimplência começou a aumentar - o consignado é uma das linhas mais seguras e fáceis de operar e o crédito para PMEs é mais rentável para os bancos do que crédito às grandes empresas.

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